Presidente da Academia Brasileira de Otorrinolaringologia
Pediátrica explica como o procedimento deve ser realizado e alerta que a
técnica inadequada pode reduzir os benefícios e causar desconfortos
As baixas temperaturas registadas nos últimos dias têm agravado os casos de gripes, resfriados e crises respiratórias, especialmente em crianças. Diante desse cenário, a lavagem nasal, um cuidado simples e eficaz ganha ainda mais importância, principalmente quando realizada corretamente, pois ajuda a remover secreções, alérgenos, vírus e partículas inaladas, facilitando a respiração e melhorando também o funcionamento natural do nariz. No entanto, o procedimento ainda gera algumas dúvidas e, quando feito de maneira inadequada, pode perder sua eficácia e provocar desconforto.
De acordo com a
Dra. Carolina Miura, otorrinolaringologista e presidente da Academia Brasileira
de Otorrinolaringologia Pediátrica (ABOPe), vinculada à Associação Brasileira
de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial (ABORL-CCF), a lavagem nasal
é uma importante aliada na prevenção e no tratamento de doenças respiratórias,
especialmente durante o Inverno, quando aumenta a circulação de vírus e as
pessoas permanecem por mais tempo em ambientes fechados. Ela explica que o
objetivo da lavagem nasal é limpar as fossas nasais, remover o excesso de
secreção e manter a mucosa hidratada, favorecendo o funcionamento adequado do
sistema de defesa natural do nariz. “Esse cuidado pode aliviar sintomas como
nariz entupido, reduzir o acúmulo de secreções e proporcionar mais conforto à
criança”, comenta.
Como fazê-la?
A especialista orienta que o posicionamento adequado da criança durante a lavagem depende da faixa-etária. Em bebês de zero a seis meses, o procedimento pode ser realizado com o bebê deitado. Entre os seis meses e os dois anos, a criança pode permanecer sentada, com a cabeça em posição neutra. Já nas crianças maiores, a lavagem pode ser feita sentada ou em pé, com o tronco levemente inclinado para a frente, a cabeça virada para o lado, a narina que receberá o bico do dispositivo voltada para cima e a boca aberta.
Outro ponto importante é o volume adequado do soro. Segundo a médica, pequenas gotas podem ser suficientes para umidificar o nariz do bebê menor de seis meses. Já nos acima de seis meses até dois anos, pode-se utilizar a seringa com 3ml a 20ml de soro fisiológico 0,9% ou o dispositivo de jato contínuo por três a dez segundos. “A partir dos dois anos, além da seringa e do spray de jato contínuo, pode ser utilizada a garrafinha plástica compressível, com o volume dependendo da indicação médica e da tolerância da criança”, revela, ao comentar que é recomendável realizar a lavagem nasal de duas a três vezes por dia, podendo aumentar ou diminuir esse número de acordo com a quantidade de secreção e os sintomas da criança.
Apesar de ser um
procedimento seguro, alguns erros costumam ser frequentes, como aplicar uma
quantidade insuficiente de soro quando há grande acúmulo de secreção e utilizar
pressão excessiva ou posicionar a criança de forma equivocada, provocando dor,
sensação de ouvido tampado, tosse e desconforto durante a atividade. Dra.
Carolina ressalta que a lavagem nasal não deve provocar sofrimento intenso e,
quando realizada com a técnica adequada, respeitando a idade da criança e
utilizando os materiais corretos, é bastante benéfica.
Atente-se!
De acordo com a
presidente da ABOPe, embora a lavagem nasal seja um recurso importante para
aliviar os sintomas, ela não substitui a avaliação médica quando há sinais de
gravidade. Febre persistente; dificuldade para respirar; recusa alimentar;
sonolência excessiva; dor intensa no ouvido ou sintomas que não melhoram após
alguns dias necessitam de investigação de um especialista. “A lavagem nasal faz
parte dos cuidados diários com a saúde respiratória infantil, especialmente durante
os períodos de maior circulação de vírus, e associada à hidratação, à vacinação
em dia e a ambientes bem ventilados, ela pode reduzir o desconforto causado
pelas doenças típicas do Inverno, favorecendo uma recuperação mais rápida”,
atesta.
Mitos e verdades
Mito: Quanto
menor a quantidade de soro, melhor para a criança.
Verdade: Para uma limpeza eficaz, especialmente
quando há acúmulo de secreção, podem ser necessários volumes maiores de soro
fisiológico, respeitando a idade da criança e a orientação do
otorrinolaringologista. Apenas algumas gotas podem não ser suficientes para
remover o muco em crianças maiores.
Mito: A
lavagem nasal deve ser feita apenas quando a criança está gripada.
Verdade: Embora seja muito utilizada durante gripes e
resfriados, a lavagem nasal também pode fazer parte da rotina de crianças com
rinite alérgica, exposição à poluição ou ressecamento das vias aéreas, sempre
conforme orientação médica.
Mito:
Qualquer posição da cabeça serve durante a lavagem.
Verdade: A posição influencia o conforto e a
eficácia do procedimento. O ideal é manter a cabeça levemente inclinada para a
frente ou para o lado, evitando jogá-la totalmente para trás, com exceção de
bebês até seis meses, idade em que ela pode ser realizada com a criança deitada.
Mito: Se a
criança reclamar, é melhor interromper definitivamente a lavagem.
Verdade: É comum que algumas crianças estranhem o
procedimento nas primeiras vezes. Com a técnica correta, volume adequado e uma
abordagem tranquila, a lavagem tende a se tornar mais confortável. Se houver
dor intensa ou dificuldade persistente, a criança deve ser avaliada por um
especialista.
Mito: A
lavagem nasal pode causar otite.
Verdade: Quando realizada corretamente, a lavagem nasal não
causa otite. No entanto, aplicar o soro com pressão excessiva ou de forma
inadequada pode provocar desconforto e favorecer a passagem de secreções para a
região da tuba auditiva, principalmente em crianças pequenas.
Mito: Água da
torneira pode substituir o soro fisiológico.
Verdade: Não. A lavagem nasal deve ser feita com soro
fisiológico 0,9% ou soluções próprias para irrigação nasal. O uso de água da
torneira não é recomendado, pois ela não é estéril e pode conter microrganismos
e impurezas.
Mito: Quanto
mais força na aplicação, melhor será a limpeza.
Verdade: O excesso de pressão pode causar dor, desconforto
e irritação da mucosa nasal. O mais importante é utilizar o volume adequado com
uma técnica correta e delicada.
Mito: A
lavagem nasal vicia o nariz.
Verdade: A lavagem nasal não causa dependência. Ao
contrário dos descongestionantes nasais, ela apenas promove a limpeza e a
hidratação da mucosa, podendo ser utilizada com segurança quando houver
indicação.
Dra. Carolina Miura - CRM-SP 134104 - RQE 51122
Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial - ABORL-CCF

