Especialista alerta que dor não é o
único indicador de recuperação e voltar ao esporte antes da hora pode aumentar
o risco de novas lesões
A dor diminuiu, o inchaço desapareceu e a vontade de voltar para a
quadra ou para o campo fala mais alto. Para muita gente, esses sinais são
suficientes para retomar a prática esportiva. Mas a recuperação do joelho nem
sempre acompanha a melhora dos sintomas. Segundo especialistas, interromper o
período de recuperação antes do tempo pode favorecer novas lesões e comprometer
a saúde da articulação a longo prazo.
A preocupação ganha relevância diante do crescimento da prática
esportiva no Brasil. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
mostram que cerca de 60 milhões de brasileiros praticam algum esporte ou
atividade física regularmente, sendo caminhada, futebol, musculação, corrida e
ciclismo as modalidades mais frequentes. Ao mesmo tempo, lesões no joelho
continuam entre as principais causas de afastamento temporário das atividades
físicas.
"O joelho precisa de tempo para que músculos, ligamentos,
cartilagem e outras estruturas recuperem sua capacidade de suportar carga.
Muitas vezes o paciente deixa de sentir dor, mas o tecido ainda está em
processo de cicatrização. Antecipar o retorno aumenta significativamente o
risco de uma nova lesão", explica o ortopedista e cirurgião do joelho Dr.
Ari Zekcer.
Segundo o especialista, o tempo de recuperação varia conforme o
tipo e a gravidade da lesão. Um trauma leve pode exigir apenas alguns dias de
repouso e reabilitação. Já entorses ligamentares, lesões meniscais ou procedimentos
cirúrgicos podem demandar semanas ou até meses antes da liberação para o
retorno ao esporte.
Mais importante do que cumprir um prazo fixo é avaliar critérios
objetivos de recuperação. "O retorno não deve acontecer porque o
calendário exige ou porque o campeonato voltou. Ele deve ocorrer quando o
joelho recupera força, estabilidade, mobilidade e controle muscular suficientes
para suportar novamente os movimentos do esporte praticado", afirma o
especialista.
Um dos erros mais comuns, segundo o médico, é utilizar apenas a
ausência de dor como parâmetro. Dor é apenas um dos indicadores. Persistência
de inchaço, sensação de instabilidade, perda de força, dificuldade para mudar
rapidamente de direção ou insegurança durante movimentos de giro são sinais de
que o joelho ainda pode não estar preparado.
A literatura científica reforça esse cuidado. Estudos mostram que
atletas que retornam ao esporte antes de recuperar adequadamente força muscular
e função do joelho apresentam maior risco de sofrer uma nova ruptura do
ligamento cruzado anterior (LCA), especialmente nos primeiros dois anos após a
lesão. Revisões publicadas no British Journal of Sports Medicine indicam
que critérios funcionais de retorno são mais importantes do que simplesmente
respeitar um tempo mínimo de recuperação.
"O objetivo não é apenas voltar a jogar, mas continuar
jogando sem novas lesões. Uma recuperação bem conduzida reduz o risco de
recidivas, preserva a articulação e pode fazer diferença na qualidade de vida
muitos anos depois", conclui o especialista.
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