Sintomas recorrentes exigem
investigação especializada; adiar o tratamento, seja ele clínico ou cirúrgico,
pode trazer consequências sérias para a saúde digestiva
Refluxo severo, entalos frequentes e vômitos recorrentes após a
cirurgia bariátrica não fazem parte do processo e não devem ser naturalizados.
Apesar disso, uma parcela significativa dos pacientes operados convive com
esses sintomas por anos sem buscar ajuda, por acreditar que se trata de algo
esperado. O alerta é do cirurgião bariátrico César De Fazzio, diretor do ICD
(Instituto de Cirurgia Digestiva), em Brasília. “Até profissionais de saúde
acabam rotulando certos sintomas como esperados, quando na verdade nenhum deles
é normal depois de uma cirurgia bariátrica”, afirma.
Nem todo sintoma digestivo após a bariátrica indica um problema
grave. Episódios pontuais, como um entalo por comer rápido ou um refluxo após
ingerir líquido junto à refeição, geralmente se resolvem com ajustes
alimentares ou medicação. A necessidade de atenção surge quando esses episódios
se tornam rotineiros e passam a interferir na qualidade de vida. “Sintoma esporádico,
ligado a um exagero pontual, é desconforto. Sintoma que virou hábito, que muda
o jeito da pessoa comer ou viver, é sinal de alerta”, resume o profissional.
Quando o problema é recorrente, o acompanhamento médico é
fundamental para a recomendação do tratamento mais adequado, que pode ser
clínico ou cirúrgico. Quando a investigação aponta para uma alteração
anatômica, a cirurgia revisional pode ser a solução mais indicada. Nesses
casos, o foco não é a perda de peso, mas a recuperação do conforto digestivo,
explica De Fazzio, especialista na realização de cirurgias bariátricas
revisionais.
Nas situações que demandam operação, a correção do problema pode
passar por converter uma técnica cirúrgica em outra. Quem foi submetido à
técnica bypass e sofre com entalo e vômito pode, por exemplo, apresentar um
estreitamento na anastomose — ligação cirúrgica entre o estômago e o intestino
— ou a presença de um anel de silicone — recurso comum há cerca de 20 anos que
restringia ainda mais a quantidade de comida e provocava entalo quando o
paciente “exagerava”. “Antes, acreditava-se que era preciso punir o paciente
que comia demais para que emagrecesse, um conceito que hoje sabemos estar
completamente equivocado. A cirurgia bariátrica moderna trabalha a favor da
fisiologia do paciente, não contra ela”, esclarece o cirurgião.
Os riscos de ignorar os sintomas
Adiar a investigação e a intervenção pode ter consequências
sérias. O refluxo não tratado pode evoluir para esofagite grave e, em alguns
casos, para o esôfago de Barrett, condição que aumenta expressivamente o risco
de câncer de esôfago. O entalo crônico e os vômitos frequentes podem levar à
dilatação do estômago e à perda progressiva da capacidade do sistema digestivo
de movimentar os alimentos.
O médico ressalta outro impacto frequentemente subestimado. Para
engolir com menos desconforto, muitos pacientes migram para alimentos mais
pastosos e menos nutritivos, o que provoca déficits como anemia, perda de massa
óssea e muscular e, em casos avançados, sintomas neurológicos por carência de
vitaminas como B1 e B12. “O que parece um incômodo bobo pode evoluir para um
problema que vai muito além do estômago. Quando bem indicada, a revisão costuma
trazer alívio real dos sintomas e permite que o paciente retome uma vida
normal, muitas vezes depois de anos convivendo com desconfortos”, completa De
Fazzio.
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