Pesquisar no Blog

terça-feira, 21 de julho de 2026

Julho Amarelo alerta para risco silencioso das hepatites virais na gestação

Especialista do Hospital e Maternidade Santa Joana alerta para a importância da testagem, vacinação e acompanhamento adequado durante a gravidez

As hepatites virais ainda representam um importante desafio de saúde no Brasil, especialmente quando envolvem gestantes e recém-nascidos. Durante o Julho Amarelo, mês de conscientização sobre prevenção, diagnóstico e tratamento dessas infecções, especialistas reforçam a importância da testagem no pré-natal como uma medida essencial para proteger a saúde materno-infantil.

De acordo com o Boletim Epidemiológico de Hepatites Virais 2025, do Ministério da Saúde, o Brasil registrou 826.292 casos de hepatites virais entre 2000 e 2024. Desse total, 302.351 foram de hepatite B e 342.328 de hepatite C, dois tipos que merecem atenção especial na gestação pelo risco de complicações e, no caso da hepatite B, pela possibilidade de transmissão vertical.

Entre os casos de hepatite B registrados no país no mesmo período, 30.965 ocorreram em gestantes, o equivalente a 10,3% do total de notificações. O dado reforça a necessidade de rastreamento durante o acompanhamento pré-natal, mesmo quando a mulher não apresenta sintomas.

“As hepatites virais podem evoluir de forma silenciosa por muitos anos. Na gestação, esse silêncio é ainda mais preocupante, porque o diagnóstico tardio pode comprometer a oportunidade de prevenção da transmissão para o bebê. Por isso, a testagem no pré-natal não deve ser vista como uma etapa burocrática, mas como uma medida concreta de proteção materno-infantil”, afirma Dra. Flávia Falci, infectologista do Hospital e Maternidade Santa Maria, do Grupo Santa Joana. .

A hepatite B pode ser transmitida por via sexual, contato com sangue contaminado e da mãe para o bebê durante a gestação ou no parto. Quando a infecção ocorre nos primeiros anos de vida, há maior risco de evolução para a forma crônica da doença, o que pode levar, no futuro, a complicações como cirrose e câncer de fígado.

Apesar dos riscos, a hepatite B pode ser prevenida por vacina, disponível no calendário nacional de imunização. Na gestação, mulheres sem comprovação vacinal ou com esquema incompleto devem ser avaliadas para atualização da imunização, conforme orientação médica. Quando a gestante tem diagnóstico positivo, a equipe de saúde também precisa organizar o cuidado do recém-nascido desde o parto. O bebê deve receber a vacina contra hepatite B e, em casos indicados, a imunoglobulina específica nas primeiras horas de vida, estratégia fundamental para reduzir o risco de transmissão.

“O pré-natal bem feito permite identificar a gestante com hepatite B, orientar a família, planejar o parto e garantir que o recém-nascido receba a proteção correta no momento adequado. Em muitos casos, a diferença está justamente na organização da linha de cuidado antes do nascimento”, explica Dra. Flávia.

A hepatite C também exige atenção durante a gravidez. A infecção pode ser transmitida por contato com sangue contaminado e, em menor proporção, da mãe para o bebê. Diferentemente da hepatite B, ainda não existe vacina contra a hepatite C. Por isso, a principal estratégia é diagnosticar precocemente, acompanhar a gestante e planejar o seguimento adequado após o parto.

Segundo o Ministério da Saúde, em 2024, a taxa de detecção de hepatite C no Brasil foi de 9,1 casos por 100 mil habitantes. A região Sudeste concentrou a maior parte dos casos acumulados entre 2000 e 2024, com 57,7% das notificações do país. O rastreamento no pré-natal ajuda a identificar quadros que poderiam permanecer desconhecidos por anos, já que muitas pessoas com hepatite C não apresentam sintomas na fase inicial e só descobrem a infecção após alterações em exames, investigação clínica ou evolução para quadros mais avançados.

“Quando falamos em hepatite C na gestação, o ponto central é não perder a oportunidade de diagnóstico. Mesmo que determinadas condutas terapêuticas sejam definidas para depois do parto, saber que a infecção existe muda o acompanhamento, direciona orientações e permite proteger a saúde da mulher no longo prazo”, afirma a infectologista.

Um dos maiores desafios das hepatites virais é justamente a evolução silenciosa. Em muitos casos, a infecção não provoca sintomas claros. Quando aparecem, os sinais podem ser confundidos com outros problemas de saúde, como cansaço, mal-estar, náuseas, dor abdominal, perda de apetite, urina escura, fezes claras e pele ou olhos amarelados.

Na gestação, esses sintomas podem ser ainda mais difíceis de interpretar, já que algumas queixas, como enjoo e indisposição, também podem ocorrer em diferentes fases da gravidez. Por isso, os exames laboratoriais são fundamentais. O Ministério da Saúde recomenda que gestantes realizem testes para hepatites virais B e C no início do pré-natal. A identificação precoce permite definir condutas, orientar a paciente, avaliar parceiros quando necessário e organizar o cuidado do bebê.

“Esperar sintomas aparecerem não é uma boa estratégia. As hepatites podem estar presentes mesmo em pessoas aparentemente saudáveis. O pré-natal é uma janela de oportunidade para rastrear infecções, atualizar vacinas, orientar comportamentos de prevenção e reduzir riscos evitáveis”, reforça a médica.

Além da testagem, a prevenção envolve vacinação contra hepatite B, uso de preservativo, não compartilhamento de objetos perfurocortantes, atenção a procedimentos com risco de contato com sangue e realização de exames conforme orientação médica. No contexto materno-infantil, o cuidado integrado entre obstetras, clínicos, infectologistas, pediatras e equipes de enfermagem é essencial para garantir que a gestante receba o diagnóstico, entenda o resultado e tenha acesso ao acompanhamento necessário.

“O Julho Amarelo é um chamado para ampliar a informação. Não se trata apenas de falar sobre uma doença do fígado, mas de lembrar que prevenção, diagnóstico e acompanhamento mudam histórias. Na gestação, isso significa proteger duas vidas ao mesmo tempo”, conclui o Dra Flávia.



Hospital e Maternidade Santa Maria
www.maternidadesantamaria.com.br


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Posts mais acessados