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quarta-feira, 8 de março de 2017

A hora e a vez das mulheres



Não é de hoje e não é mais novidade que, cada vez mais, as mulheres estão à frente de cargos estratégicos dentro das corporações. Atualmente elas tomam decisões de alto comando que influenciam não apenas as estratégias das empresas em relação ao mercado, mas elas também são peças sine qua non do processo de reorganização cultural em tempos de macrotransição como este que vivemos. Esta tendência é realidade no mundo inteiro, inclusive no Brasil. Promissor, não é mesmo?

As primeiras executivas a ocupar o poder dispunham apenas do modelo de liderança masculino, e incorporavam os traços típicos do sexo oposto, como a agressividade e a objetividade. No entanto, aos poucos as mulheres encontram um jeito de liderar de forma mais convergente com seu comportamento. As empresas mais inovadoras, inclusive, estão rompendo com as estruturas tradicionais e passando a ser mais flexíveis e colaborativas, reconhecendo o valor significativo dos traços femininos, como o carinho, a cooperação, a comunicação e a partilha. Isso faz com que, felizmente, o modelo venha caindo nas graças do mercado e as mulheres não precisem agir como homens para terem suas competências reconhecidas.

Defendo a tese que haja um grupo específico de mulheres ao redor do mundo (aproximadamente 70 milhões) que são extremamente estudadas, versáteis digitalmente, muito ambiciosas e influentes. Esse "grupo de elite", que se diferencia substancialmente daquelas que não pertencem a ele, será o grande agente da transformação. O tema do livro “A Doutrina Athena – Como as mulheres (e os homens que pensam como elas) vão governar o futuro”, de John Gerzema, que aborda a liderança feminina e seus valores, agora mais populares que o paradigma machista do passado, fortalece meu argumento. A “Doutrina Athena” mostra porque a feminilidade é o sistema operacional da prosperidade do século 21.

A naturalidade com que habitantes de Vênus cultivam, por exemplo, o bom relacionamento é um trunfo na carreira. Afinal, chefiar hoje em dia não se resume a dar ordens. Ao contrário, uma das funções primordiais do líder é atuar como um facilitador do processo, ajudando a equipe a se desenvolver.

Quando saímos das empresas já estabelecidas e entramos no mundo das mulheres empreendedoras, uma questão importante para as que estão fundando "start-ups" é que, estatisticamente, elas não conseguem tanto capital de investidor quanto o homem. Nos Estados Unidos apenas 5% do capital levantado de investidores são, em média, destinados a mulheres. É a prova de que ainda há estereótipo em relação ao sexo feminino. E que este pensamento estereotipado irá prejudicar investidores, pois as mulheres chegaram para inovar e avançar. Elas se comportam de maneira diferente quando estão fundando empresas: focam no varejo e setor de serviços e evitam capital externo. É uma característica que o mercado precisa absorver.

Quem não percebe que o mundo mudou irá ficar para trás. O estereótipo muçulmano, por exemplo, talvez seja o que mais se destaca na mente ocidental. Mas basta olharmos os exemplos de Shirin Ebadi, primeira muçulmana a ganhar o prêmio Nobel, Fahima Hashim, uma notória feminista do Sudão, Maria Bashir, primeira procuradora geral do Afeganistão, Samina Ali, curadora da exposição online "Muslima - Arte e vozes das mulheres muçulmanas", e Fawzia Koofi,conhecida intelectual do Afeganistão. São mulheres no comando, que certamente irão mudar formas de pensar e agir. São exemplos de mulheres do planeta Terra, que já fazem a cultura e o mundo dos negócios mudarem.

Como seria se homens que são líderes pensassem e agissem um pouco mais como mulheres dentro das instituições e dos mercados que atuam? Empatia, por exemplo, é uma característica frequentemente associada ao universo feminino. Empatia, no mundo das marcas, pode representar, por exemplo, atendimento ao consumidor de altíssima qualidade.





Gabriel Rossi - professor da ESPM e diretor da Gabriel Rossi Consultoria de Marketing



Que lições aprendemos com a crise?



 A queda do PIB, apesar de esperada pelos especialistas, chama atenção por sua magnitude. Nos últimos dois anos, o PIB brasileiro acumulou uma retração de 7,2%, o pior resultado da série histórica iniciada em 1948. A retração foi sentida em todos os setores da atividade econômica, especialmente na agricultura.

Este resultado, contudo, não contaminou a expectativa do mercado de que, já no primeiro trimestre de 2017, a economia brasileira inicie um processo de recuperação. Apoiando-se na queda dos juros e da inflação, bem como na melhora da confiança de empresário e consumidores, o ministro da fazenda, Henrique Meirelles, comparou o PIB de 2016 a uma imagem no retrovisor.

Independentemente dessas expectativas positivas se verificarem no futuro próximo, os efeitos da recessão serão sentidos por muito tempo: empobrecimento da população, elevados índices de desemprego, inadimplência, concentração de renda, entre outros. Assim, cabe perguntar: que fatores levaram a esse desempenho lamentável da economia brasileira? Que lições aprendemos com crise?

A receita imediatista de expansão econômica apoiada no crédito ao consumidor, as características do ambiente competitivo brasileiro e o desequilíbrio das contas públicas têm grande responsabilidade sobre a retração econômica e sua durabilidade. Infelizmente, os resultados da economia não são uma projeção do passado, mas uma realidade presente que afeta de forma significativa a sociedade brasileira.

Melhor será reconhecer a gravidade dos fatos e aprender com essa experiência amarga que relegá-la ao esquecimento de um passado desagradável que caprichosamente insiste em permanecer ativo.  





Leila Rocha Pellegrino - professora de economia da Universidade Presbiteriana Mackenzie Campinas e está disponível para entrevistas.





Feminicídio: grafiacídio



Cremos ser insuspeitos, porquanto já registramos que a história do gênero humano foi escrita pela metade\: a história masculina. Entretanto, homem é vocábulo que carrega ambos os significados, de gênero e de espécie. Nada contra. Todos entendem quando nos referimos ao homem como humanidade e ao homem como ser masculino. Um neologismo como feminícidio em nada auxilia a nobre luta das mulheres. Simplesmente a demoralizam face aos interessados em desmoralizá-la. 

Os atos criminosos estão descritos pelo Código Penal, não tão obsoleto como se imagina porque emendado de cabo a rabo. Outro é necessário, mas por simples higiene jurídica. O direito e, principalmente, o direito penal, não pode conviver com leis de palavras desnecessárias ou imprecisas, até porque a primeira das interpretações é a literal (da letra). No caso a caso, correntio, de palavras imprecisas ou mal empregadas na lei, os juristas são obrigados a recorrer aos demais métodos de interpretação (hermenêutica), o que torna a realização do direito mais complexa, quando o ideal jurídico, como pregava Beccaria e outros ilustres cientistas do direito, está no contrário, é dizer, na simplicidade. 

O direito penal sempre conviveu com suas duas únicas expressões literais de crimes contra a vida: o homicídio (procedimento que provoca a morte de qualquer pessoa) e o infanticídio, que não é o crime contra a vida de uma criança, conforme se diz de modo impensado, mas a morte do filho pela própria mãe em estado puerperal, concomitantemente ou imediatamente seguinte ao parto. Infelizmente, homicídios no Brasil acontecem a todo momento, mas infanticídios são raros. O direito penal, a bem da ciência jurídica e sua objetividade, não pode ter sua descrição dos crimes contra a vida inflacionada por neologismos, o que seria um insulto à nossa língua e o tornaria complexo e maltratado em seu objeto. 

Jamais foi necessário o emprego do termo "feminicídio", que nenhum dicionário registra, para que os homicidas de mulheres forem punidos, na forma da lei. Se esta é benevolente em relação aos mencionados crimes, certamente isso não se deve às palavras contidas no Código Penal. E sua mudança, sem mudança da lei, em nada auxilia o justo movimento das mulheres, soh uma perspectiva geral. 

Isso, antes de dizer que ficamos arrepiados quando nossa língua é vilipendiada. Linguagem é algo muito sério, que permitiu a vida em sociedade, a comunicação necessária e correta, a existência da vida humana globalmente organizada. Neologismos são admissíveis, quando o vocábulo foi amadurecido nos seios dos costumes populares, como "feminismo". 

Os ataques à língua, sobretudo por ideólogos, que imaginam que ela seja responsável por agravos políticos que combatem, causam-me estremecimentos. No ponto não poderíamos deixar de procurar Fernando Pessoa, em sua obra prima, "O Livro do Desassossego", quando pronuncia, ancorado na autoridade de um dos maiores poetas da língua portuguesa: 

"Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar.  As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas.  Talvez porque a sensualidade real não tem para mim interesse de nenhuma espécie - nem sequer mental ou de sonho - transmudou-se-me o desejo para aquilo que em mim cria ritmos verbais, ou os escuta os outros. Estremeço se dizem bem. Tal página de Fialho, tal página de Chateaubriand, fazem formigar minha vida em todas as veias... Tal página, até, de Vieira, na sua fria perfeição de engenharia sintáctica, me faz tremer como um ramo ao vento, num delírio passivo de coisa movida...Não choro por nada que a vida traga ou leve. Há porém páginas de prosa que me têm feito chorar... Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que me não incomodassem pessoalmente. Mas odeio,  com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como um escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse. Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha." 

Dê-se ao poeta, de barato, o excesso do politicamente incorreto. Transportando-se essas machucaduras, presentes, inclusive, em livros oficiais, escolares, "ao bem democrático dos excluídos", à realidade biológica, tais invenções "geniais" à linguagem, neste caso, equivalem a um corpo sujo. De machos e fêmeas. 





 Amadeu Roberto Garrido de Paula - advogado e membro da Academia Latino-Americana de Ciências Humanas.  



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