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quinta-feira, 14 de maio de 2026

Dia Mundial de Conscientização sobre a Doença Celíaca (16/5)

Doença celíaca vai além dos sintomas intestinais e pode atrasar diagnóstico em adultos

Para cada caso diagnosticado, até outros sete podem permanecer sem identificação, segundo o PCDT da Doença Celíaca, atualizado pelo Ministério da Saúde em parceria com o Hospital Alemão Oswaldo Cruz
 

Um estudo publicado em 2025 na revista Clinical Gastroenterology and Hepatology, da Associação Americana de Gastroenterologia1, acendeu um alerta sobre a importância do diagnóstico e do acompanhamento adequados da doença celíaca. A pesquisa, realizada na França, analisou dados de mais de 27 mil pacientes hospitalizados com a condição ao longo de nove anos e observou maior risco de alguns cânceres digestivos e doenças inflamatórias intestinais em comparação com pessoas sem o diagnóstico, incluindo câncer de intestino delgado e linfoma não Hodgkin. Os achados não significam que todo paciente celíaco terá essas complicações, mas reforçam que a doença não deve ser tratada como uma simples intolerância alimentar. 

O Dia Mundial de Conscientização sobre a Doença Celíaca, lembrado no próximo dia 16 de maio, chama atenção para um ponto central: em adultos, a doença pode passar anos sem diagnóstico, especialmente quando não se manifesta apenas por sintomas digestivos clássicos, como diarreia, dor abdominal, distensão e perda de peso. Em muitos casos, o quadro aparece por sinais menos evidentes, como anemia persistente, fadiga, alterações ósseas, aftas recorrentes, infertilidade, alterações de pele ou sintomas neurológicos. 

Segundo o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) da Doença Celíaca, atualizado pelo Ministério da Saúde em parceria com o Hospital Alemão Oswaldo Cruz2 por meio do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (PROADI-SUS), para cada pessoa que descobre ter doença celíaca por causa dos sintomas, outras três a sete podem conviver com a doença sem saber. O documento também aponta que, no Brasil, a prevalência estimada varia de 1 a cada 214 a 1 a cada 681 pessoas, a depender da região. 

A doença celíaca é uma condição crônica do intestino delgado causada por uma reação imunomediada ao glúten, proteína presente no trigo, centeio e cevada, em pessoas com predisposição genética. Apesar de ser frequentemente confundida com intolerância alimentar, trata-se de uma doença autoimune, que pode ter repercussões sistêmicas quando não diagnosticada e tratada corretamente. 

“Existe uma ideia muito difundida de que a doença celíaca sempre causa diarreia intensa ou perda de peso importante, mas isso não acontece em todos os casos. Em adultos, muitas vezes o quadro é mais silencioso ou aparece de forma indireta. Uma anemia que não melhora, uma osteoporose precoce ou sintomas digestivos persistentes, por exemplo, podem ser pistas importantes para investigação”, explica Dra. Karoline Garcia, gastroenterologista do Centro Especializado em Aparelho Digestivo do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.
 

Quando a doença não parece intestinal

A dificuldade no diagnóstico está relacionada justamente à variedade de manifestações possíveis. Além dos sintomas gastrointestinais, a doença celíaca pode estar associada a deficiências nutricionais, queda de cabelo, alterações no esmalte dentário, dores articulares, alterações hepáticas, cefaleia, neuropatias e manifestações dermatológicas, como a dermatite herpetiforme (bolhas com coceira e ardência), comumente presentes nos cotovelos, joelhos, nádegas e couro cabeludo). 

Essa apresentação mais ampla faz com que muitos pacientes passem por diferentes especialistas antes de chegar ao diagnóstico correto. Em alguns casos, os sintomas são atribuídos a quadros como síndrome do intestino irritável, intolerância à lactose, ansiedade, má alimentação ou deficiências nutricionais isoladas.

“É comum que o paciente normalize sintomas por anos ou receba tratamentos pontuais para cada manifestação, sem que a causa principal seja investigada. O alerta deve acender quando há sintomas persistentes, histórico familiar de doença celíaca ou presença de doenças autoimunes associadas”, afirma a especialista.
 

Biópsia, exames e diagnóstico preciso

O diagnóstico da doença celíaca não deve se basear apenas nos sintomas ou na melhora após a retirada do glúten. A investigação costuma começar pela avaliação clínica e por exames sorológicos, feitos por meio de coleta de sangue, que pesquisam anticorpos relacionados à doença e ajudam a definir os próximos passos. 

Entre eles está a dosagem de Imunoglobulina A (IgA), um tipo de anticorpo importante para interpretar corretamente os resultados dos testes usados na investigação da condição. Em casos indicados, a confirmação pode envolver endoscopia digestiva alta com biópsia do duodeno, região inicial do intestino delgado. 

A biópsia permite avaliar alterações características na mucosa intestinal, como inflamação e atrofia das vilosidades, estruturas responsáveis pela absorção de nutrientes. A precisão desse processo depende não apenas da realização do exame, mas também da indicação correta, da coleta adequada de amostras e da análise anatomopatológica integrada ao quadro clínico e aos exames laboratoriais. 

“Em casos atípicos ou de maior dificuldade diagnóstica, a biópsia bem indicada e bem interpretada ajuda a evitar dois problemas: deixar de diagnosticar quem tem a doença e, ao mesmo tempo, rotular como celíaco um paciente que pode ter outra condição. Isso é importante porque o tratamento exige uma mudança alimentar permanente e rigorosa”, explica. 

Um ponto importante é que a investigação deve ser feita antes da retirada do glúten da dieta. A exclusão por conta própria pode alterar resultados de exames e dificultar a confirmação diagnóstica. 

“Retirar o glúten sem orientação médica pode até aliviar sintomas em algumas pessoas, mas também pode mascarar o quadro. Quando há suspeita, o ideal é procurar avaliação especializada para conduzir a investigação de forma adequada”, reforça a gastroenterologista.
 

Alta complexidade na investigação de casos difíceis

Embora muitos pacientes tenham boa evolução após o diagnóstico e a retirada rigorosa do glúten, alguns casos exigem avaliação mais especializada, principalmente quando há sintomas persistentes, manifestações fora do intestino, dúvida diagnóstica ou suspeita de complicações. É nesse contexto que a doença celíaca deixa de ser apenas uma questão alimentar e passa a envolver uma linha de cuidado multidisciplinar. 

Em instituições de alta complexidade, a abordagem de casos gastrointestinais mais desafiadores pode integrar gastroenterologia, endoscopia, anatomia patológica, nutrição e, quando necessário, outras especialidades. Essa articulação contribui para diferenciar a doença celíaca de outras condições digestivas, confirmar o diagnóstico com maior precisão, orientar o tratamento e acompanhar a resposta clínica ao longo do tempo. 

“Essas complicações são menos frequentes, mas mostram por que a doença celíaca não deve ser tratada como uma simples intolerância alimentar. Em alguns pacientes, especialmente aqueles com diagnóstico tardio, sintomas persistentes ou sinais de má absorção, é necessário um acompanhamento mais próximo e uma avaliação integrada”, afirma.
 

Tratamento exige dieta rigorosa e acompanhamento

O tratamento da doença celíaca é baseado na exclusão permanente do glúten da alimentação. Isso inclui evitar alimentos que contenham trigo, centeio e cevada, além de atenção ao risco de contaminação cruzada no preparo dos alimentos. Mesmo pequenas quantidades podem desencadear inflamação intestinal em pessoas com a doença. 

O acompanhamento médico e nutricional é essencial para monitorar a resposta ao tratamento, corrigir deficiências nutricionais e orientar uma dieta segura e equilibrada. Quando tratada corretamente, a doença tende a ter boa evolução, com melhora dos sintomas e recuperação progressiva da mucosa intestinal.

Por outro lado, a ausência de diagnóstico ou a manutenção do consumo de glúten pode aumentar o risco de complicações, como desnutrição, osteoporose, infertilidade, alterações hepáticas e, em situações menos frequentes, doenças digestivas mais graves. 

“Não se trata de uma escolha alimentar ou de uma dieta da moda. Para quem tem doença celíaca, a retirada do glúten é um tratamento. Por isso, o diagnóstico correto é tão importante: ele evita restrições desnecessárias em quem não tem a doença e garante cuidado adequado para quem realmente precisa”, conclui a gastroenterologista.

 

Hospital Alemão Oswaldo Cruz


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