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| Quando as fitas do DNA se rompem, as células normalmente adotam mecanismos para religá-las ou, caso não consigam, elas induzem a própria morte, em um processo chamado apoptose Shutterstock |
Pesquisa com camundongos revela que a falta da proteína RAD51 em óvulos provoca danos no genoma do embrião, reduz o número de filhotes e favorece o surgimento de alterações genéticas espontâneas. Achado abre caminho para novas abordagens em reprodução assistida
Uma falha
no sistema de reparo do DNA de células reprodutivas femininas pode reduzir a
probabilidade de o embrião se desenvolver e, quando a gestação avança,
favorecer o surgimento de mutações genéticas logo no início da formação. Esse é
um dos principais resultados de uma pesquisa realizada em camundongos, que
contribui para o avanço da compreensão de mecanismos envolvidos na
infertilidade e em doenças genéticas.
O estudo mostrou que a ausência
de uma proteína (RAD51) envolvida no reparo das quebras do DNA não inviabiliza
o crescimento dos ovócitos (que dão origem aos óvulos), a maturação dessas células
e a capacidade de fecundação. Porém, essa carência reduz o número de embriões
e, se eles evoluem, os filhotes têm propensão a mutações nos genes.
Responsável por armazenar as
informações genéticas dos seres vivos, o DNA é formado por duas fitas, em formato
espiral, unidas por ligações de hidrogênio. Devido a fatores externos
(radiação, exposição química) ou biológicos (erros celulares, metabolismo),
essas fitas podem se romper. Quando isso acontece, as células normalmente
adotam mecanismos para religá-las ou, caso não consigam, elas induzem a própria
morte, em um processo chamado apoptose.
Liderado por pesquisadores da
Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), em parceria com instituições
internacionais, o trabalho financiado pela FAPESP foi publicado em
setembro na revista Molecular Human Reproduction.
Agora, os cientistas continuam
as pesquisas para tentar entender quais são essas mutações, se estão em genes
específicos, seus desdobramentos e possibilidades de intervenção para tentar
evitá-las ou revertê-las.
“Surpreendentemente, não
observamos efeito sobre a produção do ovócito com a ausência de RAD51. A
ovulação, a fecundação, tudo ocorreu. Do ponto de vista da fertilidade, vimos
impacto no embrião, que acumulou muita quebra de fita dupla de DNA sem reparo
ou com várias mutações”, explica Marcos Roberto Chiaratti,
professor do Centro de Ciências Biológicas e da Saúde da UFSCar e autor
correspondente do artigo.
Como explica o pesquisador,
para reparar as quebras no DNA, as células normalmente contam com um mecanismo
conhecido como recombinação homóloga, uma via altamente precisa que usa uma
cópia intacta do código genético como molde para restaurar a sequência original
sem erros. Mas, quando a proteína RAD51 está ausente, a célula perde essa
capacidade e precisa recorrer a mecanismos alternativos de emergência, que
simplesmente “colam” as pontas quebradas sem conferir o molde original – um
processo imperfeito que frequentemente insere mutações no genoma.
“O ovócito é mais sensível a
danos do que outros tipos de células, mas, no nosso estudo, mostrou-se
resistente à quebra de DNA, sem inviabilizar seu crescimento, maturação
meiótica [etapa final de divisão celular em que o ovócito reduz seu material
genético pela metade para se tornar apto à fertilização] ou capacidade de ser
fecundado. Porém, na ausência de RAD51, entre dois e três dias após a
fecundação, vimos que o número de filhotes chegou a cair até um terço.
Camundongos-controle geraram de sete a oito filhotes, e os sem RAD51, de dois a
três”, complementa Chiaratti.
Ao longo do tempo
A ciência já mostrou que,
conforme o organismo envelhece (também em humanos), genes que produzem RAD51 ou
proteínas similares envolvidas no reparo por recombinação homóloga vão sendo
menos expressos, com impacto na fertilidade e aumento da possibilidade de
mutações nas gerações seguintes. Outros trabalhos também associaram alterações
prejudiciais nesses genes a doenças raras, como anemia de Fanconi (que causa
falência progressiva na medula óssea), além de maior predisposição ao câncer de
mama.
O estudo focou em investigar
qual é o papel do gene que codifica RAD51 e as consequências de sua ausência na
fertilidade. Para isso, trabalhou com camundongos geneticamente modificados
para não expressarem a proteína, desenvolvidos no laboratório do professor Pierre Olivier Frappart,
da Universidade de Medicina de Mainz (Alemanha), também autor do artigo.
Na pesquisa, o sequenciamento
do genoma completo revelou, nos descendentes, um aumento significativo de
mutações chamadas “de novo”, ou seja, que surgem pela primeira vez em um
indivíduo e não estão presentes nos pais. A maioria foi compatível com mutações
em mosaico (aquelas que afetam apenas uma fração das células do organismo, e
não sua totalidade) surgidas após a formação do zigoto, a primeira célula
resultante da união do óvulo e do espermatozoide na fecundação.
Segundo os cientistas, os
resultados confirmam que o reparo do DNA materno protege a estabilidade do
genoma durante a transição do ovócito para o embrião e apontam o início do
desenvolvimento embrionário como uma importante fonte de mutações “de novo”,
com implicações para a biologia reprodutiva e a compreensão da origem de
doenças genéticas.
Para Chiaratti, a relevância
prática dessa descoberta está no potencial de gerar novas terapias em
reprodução assistida. Como a capacidade de reparo do óvulo decai naturalmente
com a idade, os pesquisadores vislumbram a possibilidade de suplementar a
proteína RAD51 (ou seu RNA) diretamente no óvulo antes da fertilização in
vitro. Essa reposição funcionaria como um suporte temporário para proteger
o genoma do embrião logo após a fecundação, reduzindo as taxas de abortamento
precoce e o risco de mutações em gestações tardias.
A FAPESP financiou o estudo por
meio de um Projeto Temático
coordenado por Chiaratti em parceria com o professor Patrick Francis Chinnery,
da Universidade de Cambridge (Reino Unido), cujo objetivo foi estudar
mecanismos moleculares que modulam a transmissão pela linhagem germinativa de
variantes de DNA mitocondrial. A investigação também teve apoio por meio de
outros dois projetos (17/04372-0 e 20/15412-6).
Outro autor desse artigo,
Chinnery liderou no ano passado um estudo, publicado na revista Science
por um grupo do qual Chiaratti fez parte, que revelou um mecanismo celular
envolvido na herança de mutações genéticas. De acordo com as descobertas, a
transmissão das alterações está ligada a um processo que bloqueia a eliminação
de mitocôndrias mutantes e, ao mesmo tempo, aumenta sua quantidade nas células,
explicando como as variantes “escapam” da seleção e podem causar doenças (leia
mais em: agencia.fapesp.br/56130).
O artigo Maternal DNA repair
safeguards genome stability during the oocyte-to-embryo transition pode ser
lido em: academic.oup.com/molehr/advance-article-abstract/doi/10.1093/molehr/gaag050/8782773.
https://agencia.fapesp.br/falha-no-reparo-do-dna-materno-compromete-desenvolvimento-embrionario-e-gera-mutacoes-pos-fecundacao/59280


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