Existe uma crença bastante difundida no mercado
veterinário de que o verdadeiro negócio de uma clínica está nas consultas,
exames e procedimentos médicos. O banho e tosa, quando existe, costuma ocupar
uma posição secundária dentro da operação, sendo visto apenas como um serviço
complementar ou uma conveniência oferecida ao tutor. Depois de acompanhar
centenas de negócios do setor pet ao longo dos últimos anos, cheguei a uma
conclusão diferente: o banho e tosa não é um complemento. É um dos ativos mais
valiosos que uma clínica veterinária pode desenvolver para crescer de forma
sustentável.
O mercado pet brasileiro movimentou R$ 77 bilhões
em 2024 e segue entre os setores mais resilientes da economia. Mesmo assim,
muitas clínicas ainda operam com um modelo de negócio excessivamente dependente
de consultas e procedimentos pontuais. O problema é que consultas não geram recorrência.
O tutor procura atendimento quando surge uma necessidade específica e, muitas
vezes, passa meses sem retornar. Do ponto de vista financeiro, isso significa
depender constantemente da entrada de novos clientes para manter o crescimento.
O banho e tosa funciona de forma completamente
diferente. Enquanto a consulta é eventual, o banho é recorrente. Um tutor que
leva seu pet para o banho mensalmente visita a clínica doze vezes por ano. Essa
frequência cria algo extremamente valioso para qualquer negócio:
relacionamento. Quanto mais vezes o cliente passa pela clínica, maiores são as
oportunidades de oferecer produtos, apresentar serviços, fortalecer a confiança
na marca e aumentar o faturamento por cliente.
Além disso, existe um fator pouco discutido. O
perfil do cliente que investe regularmente em estética costuma ser também o que
investe em prevenção, alimentação premium, vacinas, exames e acompanhamento
veterinário. Em outras palavras, o banho e tosa não apenas aumenta o fluxo de
pessoas dentro da clínica, mas também atrai consumidores com maior potencial de
valor ao longo do tempo.
Outro benefício relevante está na própria saúde dos
animais. Em operações bem estruturadas, profissionais de banho e tosa conseguem
identificar alterações de pele, feridas, otites, parasitas e até pequenos
nódulos antes que o tutor perceba o problema. Isso permite encaminhamentos mais
rápidos para consultas veterinárias, melhora o cuidado com o pet e fortalece a
integração entre os diferentes serviços oferecidos pela clínica.
Apesar de todas essas vantagens, muitos empresários
ainda enxergam o banho e tosa com desconfiança. Normalmente porque já tentaram
implementar o serviço e enfrentaram dificuldades. O curioso é que, na maioria
dos casos, o problema nunca foi o banho e tosa em si. O problema foi a falta de
estrutura. Muitas operações se tornam dependentes de um único profissional, não
possuem processos claros, não trabalham indicadores e não desenvolvem
estratégias de retenção. Quando o colaborador sai ou a agenda esvazia, o
serviço perde força rapidamente.
É justamente nesse ponto que surge a principal
diferença entre um banho e tosa improvisado e uma operação profissional. Quando
existe processo, treinamento, gestão e experiência do cliente, o serviço deixa
de ser apenas mais uma atividade dentro da clínica e passa a funcionar como um
motor de recorrência. O resultado aparece na frequência de visitas, no ticket
médio e na fidelização dos clientes.
Também existe um impacto importante no
posicionamento da marca. Em um mercado cada vez mais competitivo, muitas
clínicas acabam disputando clientes apenas por localização ou preço. É uma
estratégia perigosa porque sempre haverá alguém disposto a cobrar menos. O
banho e tosa bem estruturado cria diferenciação. Ele melhora a experiência do
tutor, fortalece a percepção de qualidade e transforma a clínica em um ambiente
de relacionamento contínuo, não apenas em um local procurado quando o animal
apresenta algum problema.
A verdade é que muitas clínicas ainda tratam o
banho e tosa como um setor secundário quando deveriam enxergá-lo como uma
ferramenta estratégica de crescimento. Negócios saudáveis não dependem apenas
de eventos esporádicos para gerar receita. Eles constroem recorrência,
previsibilidade e relacionamento. E poucos serviços fazem isso tão bem quanto o
banho e tosa.
Por isso, acredito que o setor veterinário precisa
mudar sua forma de enxergar essa operação. O banho e tosa não é apenas uma
fonte adicional de faturamento. É um mecanismo capaz de aumentar a frequência
dos clientes, gerar novas oportunidades de venda, fortalecer a fidelização e
criar uma base financeira mais previsível para a clínica. Em um mercado que
cresce ano após ano, as empresas que compreenderem esse potencial estarão mais
preparadas para crescer de forma consistente. As demais continuarão tratando
como acessório aquilo que pode ser um dos principais motores do negócio.
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