Maio chega tingido de laranja para lembrar uma realidade que o Brasil insiste
em não encarar com a urgência necessária. A campanha do Maio Laranja, que
culmina no Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e
Adolescentes, não é apenas simbólica: é um chamado à responsabilidade coletiva.
Proteger crianças e adolescentes não é um gesto opcional — é dever jurídico,
ético e humano.
A violência sexual infantil, muitas vezes, não deixa marcas visíveis. Ela se
esconde no silêncio, no medo e, frequentemente, dentro do próprio ambiente
familiar. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicam que a maioria
dos abusos ocorre dentro de casa e é praticada por pessoas conhecidas da
vítima. Já o UNICEF alerta que milhões de crianças no mundo sofrem algum tipo
de violência sexual antes de completar 18 anos — e apenas uma fração desses
casos chega ao conhecimento das autoridades.
No Brasil, o ordenamento jurídico é claro e categórico: não há consentimento
válido em relações sexuais com menores de 14 anos. Trata-se de hipótese de
estupro de vulnerável, prevista no Código Penal, em que a lei presume a
incapacidade da vítima para consentir. Não se trata de discutir maturidade ou
vontade, mas de reconhecer uma proteção absoluta — uma barreira jurídica que
visa impedir que a infância seja violada sob qualquer pretexto.
Essa realidade, por mais dura que seja, encontra eco na literatura
contemporânea. No livro Consentimento, a autora francesa Vanessa Springora
narra sua relação abusiva com um escritor muito mais velho quando ainda era
adolescente. A obra escancara uma dinâmica perversa: a manipulação emocional
travestida de romance, a normalização social do abuso e o silêncio cúmplice de
adultos que deveriam proteger. Ao revisitar sua própria história, Springora
revela o quanto o discurso do “consentimento” pode ser distorcido quando há
evidente desigualdade de poder, idade e maturidade.
A leitura é desconfortável — e deve ser. Porque nos obriga a confrontar uma
pergunta incômoda: quantas situações semelhantes ainda são relativizadas em
nossa sociedade? Quantas vezes sinais são ignorados sob o argumento de que “a
criança quis”, “parecia madura” ou “não houve violência física”? A lei
brasileira responde de forma inequívoca: não importa a aparência de
consentimento — ele simplesmente não existe nessas circunstâncias.
Reconhecer os sinais é um passo fundamental para interromper ciclos de
violência. Mudanças bruscas de comportamento, isolamento, medo de determinadas
pessoas, conhecimento sexual incompatível com a idade, regressão
comportamental, quedas no rendimento escolar e até sintomas físicos sem
explicação aparente podem ser indícios de que algo está errado. Nenhum sinal
isolado é prova definitiva, mas a combinação deles exige atenção e, sobretudo,
ação.
O Estado brasileiro tem o dever constitucional de proteger crianças e adolescentes, conforme estabelece o artigo 227 da Constituição Federal. Esse dever se desdobra em políticas públicas, atuação do Conselho Tutelar, Ministério Público, Judiciário e rede de proteção. No entanto, a engrenagem institucional só funciona plenamente quando a sociedade participa. Professores, médicos, vizinhos, familiares — todos são peças fundamentais na identificação e denúncia.
E
aqui reside um ponto crucial: denunciar não é acusar levianamente, é permitir
que o Estado investigue. O silêncio, este sim, perpetua a violência. O Disque
100, canal nacional de denúncias, é uma ferramenta acessível e essencial. Cada
ligação pode representar a interrupção de um ciclo de abuso e o início de um
processo de proteção.
Mais do que punir agressores, é preciso prevenir. Isso passa por educação
sexual adequada à idade, diálogo aberto dentro das famílias, formação de
profissionais e campanhas permanentes de conscientização. Crianças precisam
aprender sobre limites do próprio corpo, sobre o direito de dizer “não” e sobre
a importância de buscar ajuda.
A sociedade brasileira carrega, ainda hoje, resquícios de uma cultura que
relativiza a violência, especialmente quando ela ocorre dentro de espaços
considerados “privados”. Romper com essa lógica exige coragem — e compromisso.
Proteger crianças e adolescentes não é apenas cumprir a lei. É afirmar, de
forma inegociável, que a infância deve ser um território seguro, livre de
exploração, medo e silêncio. Maio Laranja não pode ser apenas um mês de
lembrança. Deve ser o ponto de partida para uma vigilância permanente. Porque,
no fim, proteger é dever de todos — e omitir-se é, também, uma forma de
violência.
Marcelo Santoro Almeida - professor de Direito de Família da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Rio
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