Especialista
explica por que a interação humana é essencial e como o excesso de telas pode
agravar atrasos, especialmente no TEA
O aumento do tempo de
exposição a telas na infância tem acendido um alerta entre especialistas em
desenvolvimento infantil. Pesquisas recentes apontam que o uso excessivo de
dispositivos eletrônicos pode estar associado a atrasos na linguagem, um
impacto ainda mais sensível em crianças com Transtorno do Espectro Autista
(TEA).
Para a fonoaudióloga Paula
Anderle, especialista em TEA, o principal problema não é apenas o tempo de
tela, mas a redução das interações humanas.
“A linguagem não se
desenvolve de forma passiva. Ela depende da troca, da resposta, da intenção
comunicativa. A tela, quando em excesso, substitui essas experiências
fundamentais”, explica.
O que dizem as evidências
Um estudo publicado no JAMA
Pediatrics (Madigan et al., 2019) identificou que a maior exposição a telas em
crianças pequenas está associada a piores resultados em testes de
desenvolvimento, especialmente na área da comunicação.
Já uma pesquisa longitudinal
conduzida no Japão com mais de 7 mil crianças (Takahashi et al., 2023)
demonstrou que maior tempo de tela aos 12 meses está diretamente relacionado a
atrasos no desenvolvimento aos 2 e 4 anos, com impacto significativo na
linguagem.
Além disso, revisões
sistemáticas indicam que a maioria dos estudos encontra associação entre uso
excessivo de telas e prejuízos no desenvolvimento infantil, incluindo
habilidades comunicativas (Stiglic & Viner, 2019).
Impacto ampliado no TEA
Crianças com TEA podem ser
ainda mais vulneráveis. Isso porque já apresentam dificuldades na comunicação
social e a diminuição das interações presenciais pode intensificar essas
limitações.
A Sociedade Brasileira de
Pediatria recomenda evitar exposição a telas antes dos 2 anos e limitar
rigorosamente o uso após essa idade, justamente pelos potenciais impactos no
desenvolvimento.
Equilíbrio é o caminho
A especialista reforça que
não se trata de eliminar totalmente as telas, mas de usá-las com critério:
● Estabelecer
limites claros de tempo
● Priorizar
brincadeiras interativas
● Assistir
junto, promovendo interação
● Evitar
uso como principal forma de entretenimento
“O desenvolvimento da
linguagem acontece na relação. Nenhum aplicativo substitui o olhar, a resposta
e o vínculo”, conclui Paula Anderle.
Paula Anderle - fonoaudióloga analista do comportamento,
especialista em Transtorno do Espectro Autista (TEA). Atua com avaliação e
intervenção precoce, com foco na comunicação funcional, incluindo fala,
linguagem e recursos de Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA). Seu
trabalho é voltado à promoção da autonomia e da interação social de crianças
autistas, com abordagem individualizada e baseada em evidências.
● JAMA
Pediatrics – Madigan, S. et al. (2019). Association Between Screen Time and
Children’s Performance
● Takahashi,
M. et al. (2023). Screen time and developmental delay (estudo longitudinal –
Japão)
● Stiglic,
N., & Viner, R. (2019). Effects of screentime on health and well-being
● Sociedade Brasileira de Pediatria – Manual de orientação: uso de telas
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