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quarta-feira, 15 de abril de 2026

Ar poluído de São Paulo aumenta risco de internação por doenças renais, aponta estudo da FMUSP

Pesquisa analisou mais de 37 mil internações ao longo de dez anos e identificou maior impacto em áreas com intenso tráfego de veículos
 

Respirar o ar poluído da cidade de São Paulo pode elevar significativamente o risco de internação por doenças renais, segundo estudo publicado na revista Scientific Reports, conduzido por pesquisadores da Universidade de São Paulo em parceria com instituições internacionais. 

A pesquisa analisou 37.170 registros de internações por doenças renais na capital paulista entre 2011 e 2021 e cruzou esses dados com níveis de poluição atmosférica — especialmente a concentração de partículas finas inaláveis (PM2.5), consideradas uma das mais prejudiciais à saúde. 

Os resultados mostram que a exposição prolongada a altos níveis dessas partículas pode aumentar em até 2,5 vezes o risco de hospitalização por doença renal crônica, especialmente entre homens de 51 a 75 anos. Em alguns casos, como o de glomerulopatias (doenças que afetam o sistema de filtragem dos rins), o risco pode ser até cinco vezes maior em indivíduos mais jovens expostos a níveis elevados de poluição. 

Além disso, o estudo identificou que mesmo concentrações consideradas mais baixas — próximas ao limite recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), de 15 µg/m³ em 24 horas — já estão associadas a aumento no risco de lesão renal aguda em homens.
 

Impacto silencioso no organismo

De acordo com a Profa. Dra. Lucia Andrade, da disciplina de Nefrologia da Faculdade de Medicina da USP e uma das autoras do estudo, os efeitos da poluição sobre os rins ocorrem de forma indireta, mas significativa. 

“As partículas finas inaladas podem alcançar a corrente sanguínea e se depositar nos rins. Como esses órgãos são responsáveis por filtrar o sangue, acabam ficando expostos a essas substâncias”, explica. “Ao se acumularem no tecido renal, elas passam a atuar como agentes estranhos, desencadeando processos inflamatórios que prejudicam seu funcionamento.”
 

Desigualdade territorial e fatores urbanos

A análise espacial revelou que as internações se concentram nas regiões mais urbanizadas da cidade, onde há maior circulação de veículos — principal fonte de emissão de PM 2.5 em São Paulo. A frota da capital ultrapassa 7 milhões de veículos, contribuindo para níveis de poluição que frequentemente superam os padrões recomendados internacionalmente. 

Segundo os pesquisadores, morar em áreas com alta exposição à poluição deveria ser considerado um fator de risco para doenças renais, assim como hipertensão, obesidade ou tabagismo.
 

Desafio para saúde pública

O estudo também destaca que os efeitos da poluição do ar ainda são pouco percebidos pela população e até por profissionais de saúde, já que a exposição ocorre de forma contínua e invisível. 

Os autores defendem a necessidade de políticas públicas mais eficazes para redução das emissões, além de estratégias de comunicação que traduzam os índices de qualidade do ar em orientações práticas para a população — especialmente grupos mais vulneráveis. 

“É fundamental considerar o contexto ambiental em que o paciente está inserido durante a avaliação clínica. A exposição à poluição do ar precisa ser incorporada como um fator relevante no processo diagnóstico”, afirma a Profa. Dra. Lucia Andrade. 

Enquanto avanços estruturais não ocorrem, os pesquisadores recomendam atenção aos índices de qualidade do ar e a adoção de medidas individuais em dias mais críticos, como evitar atividades físicas ao ar livre e reduzir a exposição prolongada.
 

Sobre o estudo

O trabalho Chronic PM2.5 exposure and increased risk of hospitalization for kidney disease in São Paulo, Brazil analisou dados de internações hospitalares e indicadores ambientais ao longo de uma década, evidenciando a relação entre poluição do ar e doenças renais em uma das maiores metrópoles do mundo 

O artigo completo está disponível na Scientific Report (clique aqui).


Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo – FMUSP


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