
Luz vermelha da cabeça da larva é “enigmática”, segundo pesquisador.
Suspeita-se que sirva como lanterna, para iluminar o ambiente
noturno enquanto busca por comida
(imagem: Mariano Ordano/iNaturalist)
Larva-trenzinho (Phrixotrix hirtus) ocorre quase que exclusivamente no Brasil e é o único organismo conhecido capaz de produzir bioluminescência de cor vermelha-distante; aplicação permite observar câncer e infecções em tempo real no organismo de mamíferos, mesmo em camadas profundas de tecido
Pesquisadores da Universidade
Federal de São Carlos (UFSCar) se inspiraram na cabeça luminosa de uma larva de
besouro para desenvolver um sistema avançado de bioluminescência, aplicável ao
imageamento de processos biológicos e patológicos em mamíferos.
O inseto em questão é a
larva-trenzinho, da espécie Phrixotrix hirtus, que ocorre quase que
exclusivamente no Brasil e é o único organismo conhecido capaz de produzir bioluminescência
de cor vermelha. A enzima responsável por gerar essa luz na cabeça do animal
foi clonada no fim da década de 1990 pelo bioquímico brasileiro Vadim Viviani, durante um pós-doutorado no Japão.
Agora, cerca de 25 anos depois,
seu grupo de pesquisa na UFSCar acaba de criar uma ferramenta de investigação,
baseada numa versão mutante dessa molécula e em química combinatória.
A nova luciferase – como são chamadas
as enzimas produtoras de bioluminescência – permite observar a ocorrência de
fenômenos biológicos e patológicos como câncer e infecções em tempo real no
organismo de mamíferos, mesmo em camadas profundas de tecido, com maior
eficácia do que as tecnologias atualmente disponíveis.
O uso da bioluminescência para
pesquisa em mamíferos é especialmente desafiador, porque seus organismos são
ricos em hemoglobina, mioglobina, melanina e outros pigmentos naturais que
absorvem a luz gerada na maioria das reações bioluminescentes (de tonalidade
azul, verde ou verde-amarelo), dificultando a sua detecção. Na prática, isso
limita a aplicação da técnica em diversas situações envolvendo modelos animais
que são fundamentais para as ciências biomédicas, como ratos, camundongos e
coelhos.
“Por isso existe a necessidade
de sistemas que emitem luz vermelha, especialmente na faixa do vermelho
distante; a luz vermelha passa facilmente por esses tecidos, inclusive tecido
ósseo”, explica Viviani à Agência FAPESP. É exatamente isso que seu
grupo de pesquisa vem desenvolvendo na UFSCar, em colaboração com cientistas de
outras instituições do Japão.
O avanço mais recente desse esforço é um novo sistema capaz de gerar bioluminescência na faixa do vermelho distante – com comprimentos de onda acima de 650 nanômetros (nm) –, de forma mais brilhante, estável e duradoura do que os sistemas atuais.
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| À esquerda, o novo sistema criado por cientistas da UFSCar; à direita, o sistema comercial Akaluc/AkaLumine, o mais usado atualmente (imagem: Gabriel Felder Pelentir) |
Os resultados do estudo,
apoiado pela FAPESP (processos 22/03538-0, 20/07649-6 e 17/22262-8), foram publicados na revista Chemical & Biomedical Imaging. A
pesquisa também é financiada pela FAPESP por meio do Projeto Temático “Bioluminescência: biodiversidade; origem metabólica; estrutura/função e
engenharia de luciferases; empregos em biossensores, bioensaios e bioindicação
ambiental”, liderado por Viviani e sediado no
Centro de Ciências e Tecnologias para a Sustentabilidade (CCTS) da UFSCar, em
Sorocaba (SP).
Inspiração
natural
Bioluminescência é a produção
de luz por meio de reações químicas dentro de um organismo vivo. Ela ocorre
quando as enzimas luciferases catalisam a oxidação de moléculas conhecidas como
luciferinas. Várias espécies de animais, plantas, fungos e microrganismos
utilizam essa capacidade luminosa para se comunicar, atrair presas ou afastar
predadores. O exemplo mais conhecido é o dos vagalumes, que usam seu
pisca-pisca para atrair parceiros.
No caso da larva-trenzinho, a
bioluminescência parece servir a duas funções. Ela possui lanternas verdes
espalhadas pelas laterais do corpo, que acendem quando o inseto é tocado ou se
sente ameaçado, aparentemente como uma forma de assustar predadores. Já a luz
vermelha da cabeça “é mais enigmática”, segundo Viviani. Pesquisadores
suspeitam que ela sirva como um tipo de lanterna, para iluminar o ambiente
noturno enquanto a larva busca por comida em meio ao folhiço, no chão da mata.
Como a maioria dos organismos terrestres possui pouca sensibilidade à luz
vermelha, essa seria uma forma de iluminar suas presas sem ser detectada por
elas nem chamar a atenção de predadores, avalia Viviani.
Gene-repórter
Luciferases extraídas da
natureza ou sintetizadas em laboratório já são usadas há décadas em pesquisas
científicas para observar e monitorar sistemas biológicos, tanto em
modelos in vitro (como culturas de células) quanto in
vivo (em modelos animais), por meio da bioluminescência. Elas
funcionam como biossensores, ou “genes-repórteres”, que produzem luz ao
encontrar uma situação ou um fenômeno específico que os cientistas desejam
estudar – por exemplo, para sinalizar a expressão de determinados genes,
indicar mudanças de pH ou alertar para a presença de bactérias patogênicas. O
leque de possíveis aplicações é amplo, incluindo a detecção de processos
metastáticos (quando células cancerígenas se espalham pelo corpo), o
rastreamento de infecções e o monitoramento de reações metabólicas e processos
bioquímicos diversos envolvidos no desenvolvimento de fármacos.
A aplicação dessas tecnologias
em pesquisas com mamíferos, porém, ainda é limitada em função da absorção da
luz pelos tecidos circundantes. Inspirados pelo brilho vermelho da
larva-trenzinho, então, Viviani e seus colaboradores se propuseram a superar
esse gargalo. O primeiro sucesso veio em 2021, com a publicação de um sistema
de bioluminescência na faixa do vermelho distante (650 nm), que utilizava uma
versão geneticamente modificada da luciferase da Phrixotrix hirtus,
acoplada a uma luciferina sintética, produzida por colaboradores da
Universidade de Eletro-Comunicações em Tóquio, no Japão (leia mais em: agencia.fapesp.br/35157 e agencia.fapesp.br/31554).
Esse primeiro sistema já era
superior aos disponíveis no mercado, mas os pesquisadores não se deram por
satisfeitos. O novo trabalho, publicado agora, descreve um sistema ainda melhor
do que o de 2021, mais luminoso e com um comprimento de onda ainda maior
(chegando a 660 nm).
Segundo Viviani, o resultado deriva de uma combinação de técnicas de química combinatória com engenharia genética. “De um lado você modifica o substrato, que é a luciferina, para emitir uma luz vermelha; e do outro, você modifica a luciferase que aceita esse substrato, tentando aumentar o brilho e deslocar a luz ainda mais para o vermelho distante”, explica o professor.
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| A larva-trenzinho é o único organismo conhecido capaz de produzir bioluminescência de cor vermelha (imagens: Vadim Viviani/Gene Reports, 2017 e Scientific Reports, 2019) |
Engenharia
genética
O primeiro autor do artigo é o
biólogo Gabriel Felder Pelentir,
doutorando orientado por Viviani pelo Programa de Pós-Graduação em
Biotecnologia. Partindo do conhecimento que o grupo já tinha acumulado sobre a
estrutura molecular da luciferina da larva-trenzinho, ele resolveu testar se
era possível melhorar ainda mais a performance do sistema, modificando os
aminoácidos que compõem o sítio ativo da molécula – ou seja, que fazem o
encaixe da luciferase com a luciferina.
“A gente escolhe o aminoácido
que quer mudar e faz todas as mutações de aminoácidos que podem ocorrer ali,
para avaliar quais são as melhores”, explica Pelentir.
Viviani destaca que esse
trabalho só pôde ser realizado graças a outro projeto de doutorado, realizado
entre 2015 e 2019 – também orientado por ele e apoiado pela FAPESP –, em que a
então aluna Vanessa Rezende Bevilaqua, usando
análogos maiores de luciferina, mostrou que a luciferase da
larva-trenzinho tem sítio ativo maior do que o das luciferases clássicas de
vagalumes. Foi esse conhecimento, segundo ele, que abriu caminho para adequar
por engenharia genética o sítio ativo da enzima.
Bevilaqua, hoje professora da
Pontifícia Universidade Católica, em Sorocaba, também é autora do trabalho. Ela
e Pelentir testaram o novo sistema em células de mamíferos e mostraram que ele
teve performance superior à do sistema comercial Akaluc/AkaLumine,
que é o mais usado para aplicações na faixa do vermelho distante ou
infravermelho próximo.
No rastro
dos vagalumes
Para Pelentir, o projeto é uma
oportunidade de unir duas paixões: a bioquímica e a bioluminescência. “Eu
adorava caçar vagalumes quando era pequeno”, lembra o jovem doutorando, de 26
anos. “As pessoas não fazem ideia de como é bonita e como é incrível a
bioluminescência. Então, unir esse fenômeno com pesquisa e bioquímica é o que
me motiva.”
O Brasil abriga a maior
diversidade de insetos bioluminescentes do planeta, segundo Viviani. De um
total de 2.500 espécies descritas no mundo, cerca de um quinto (500) está no
Brasil. “Só que o número deve ser bem maior, porque tem muitas espécies que
ainda não foram descobertas ou não foram descritas nem na Mata Atlântica nem no
Cerrado, e muito menos na Amazônia”, observa o pesquisador. “E a gente sabe que
não é só bonito; tem utilidade para a ciência e, claramente, para inovação
tecnológica”, completa.
Além das aplicações em
biomedicina, as luciferases também são usadas como biossensores na área
ambiental para a detecção de poluentes e outras substâncias tóxicas.
O laboratório de Viviani na
UFSCar abriga o maior banco de luciferases do mundo, com cerca de 20
luciferases selvagens, isoladas da biodiversidade brasileira, e centenas de
versões mutantes dessas enzimas. Várias dessas moléculas e suas aplicações já
foram patenteadas (leia mais em: revistapesquisa.fapesp.br/verde-amarelo-ou-vermelho/).
O artigo Brighter NIR bioluminescence system for mammalian cell bioimaging based on engineered railroadworm luciferase and 6′-aminoluciferin analogues pode ser lido em: pubs.acs.org/doi/10.1021/cbmi.5c00163.
Herton Escobar
Agência FAPESP
https://agencia.fapesp.br/sistema-avancado-de-bioluminescencia-e-inspirado-em-larva-de-besouro-brasileiro/57722


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