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quinta-feira, 16 de abril de 2026

Cuidados com os pacientes de Doença de Huntington no Brasil recaem principalmente para mães e esposas, aponta estudo

  

A condição rara e altamente incapacitante impacta toda a estrutura familiar, sem preparo prévio em saúde, sobrecarregadas emocional e financeiramente


O levantamento, conduzido em 2025 pela Associação Brasil Huntington (ABH), com apoio da Teva Brasil, mapeou pessoas com Doença de Huntington em 608 municípios brasileiros e evidencia que os impactos da doença vão muito além do paciente, alcançando de forma profunda seus cuidadores. Em sua maioria, são familiares diretos, que assumem a função sem preparo prévio. Intitulado Mapeamento da Doença de Huntington no Brasil: Perfil das Pessoas com DH, Cuidadores e Familiares em Risco, o estudo revela que o suporte a essas pessoas fica a cargo das mulheres (84%), com idade média de 48 anos, reforçando o peso da doença sobre o núcleo familiar próximo.

A Doença de Huntington (DH) é uma condição rara, hereditária, progressiva e neurodegenerativa, com idade média de início entre 30 e 50 anos, fase em que muitas pessoas estão em plena vida profissional e familiar. Entre os participantes do levantamento, a faixa etária média dos pacientes é de 52 anos, sendo a maioria mulheres (59%), pessoas brancas (62%) e residentes com familiares (74%). Os impactos socioeconômicos são expressivos. Apenas 23% recebem pensão por invalidez, enquanto 32% dependem de auxílio ou suporte financeiro da família.

Com a progressão da doença, o cuidado passa a ser uma responsabilidade majoritariamente do núcleo familiar mais próximo, sendo exercido principalmente por cônjuges (33%) e mães (28%), o que evidencia o impacto direto da DH na dinâmica familiar e na rotina. Do ponto de vista educacional, o estudo identificou que desses responsáveis pelos pacientes 63% têm ensino superior, mas isso não se reflete, necessariamente, em maior segurança financeira: 63% vivem de salário ou pró-labore, e 40% têm renda entre dois e três salários-mínimos.

“A Doença de Huntington provoca impactos profundos e progressivos não apenas na saúde dos pacientes, mas também na vida financeira, profissional e emocional de toda a família. À medida que os sintomas motores, cognitivos e psicológicos avançam, muitas pessoas com DH enfrentam redução da capacidade de trabalho ou afastamento precoce do mercado, o que compromete a renda familiar e aumenta a dependência de benefícios sociais ou do suporte de parentes”, explica Gladys Miranda, presidente da ABH.

O levantamento também aponta um desafio estrutural importante: três em cada quatro cuidadores não tinham nenhuma experiência prévia antes de assumir o cuidado com a pessoa diagnosticada. A falta de preparo, aliada à progressão da doença, amplia a sobrecarga emocional, financeira e social dessas famílias.

“Paralelamente, familiares, especialmente cônjuges e mães, passam a assumir o papel de cuidadores, muitas vezes interrompendo suas próprias carreiras ou reduzindo jornadas de trabalho, o que agrava a pressão econômica. Essas mudanças repercutem diretamente na qualidade de vida, com perda de autonomia, restrição de atividades sociais e de lazer, sobrecarga emocional, alterações no convívio familiar e impacto no bem-estar psicológico de todos os envolvidos”, conclui Gladys.

 

Conhecer para cuidar

A Doença de Huntington é uma condição hereditária rara, que afeta o sistema nervoso central e apresenta como características alterações motoras, comportamentais e cognitivas. É causada por uma mutação no gene que codifica a proteína huntingtina (HTT), que resulta em uma forma anormal da proteína. Essa mutação leva à morte de células nervosas em áreas específicas do cérebro e causa comprometimento em diversas funcionalidades do corpo.

A transmissão da doença segue um padrão de herança autossômica dominante: basta que um dos pais tenha o gene alterado para que cada filho tenha 50% de chance de herdar a mutação e desenvolver a doença. Homens e mulheres são igualmente afetados e, se a mutação não é herdada, a condição não é transmitida para as próximas gerações1.

A DH inicia, em geral, em pessoas entre os 30 e 50 anos, com sintomas comportamentais e/ou cognitivos e pode ser confundida com depressão, esquizofrenia e outros transtornos psiquiátricos. Porém, muitas vezes o diagnóstico só é fechado quando a coreia (movimentos involuntários rápidos e descoordenados) se inicia. O diagnóstico da DH é um processo multifacetado, normalmente feito por um médico neurologista, que envolve avaliação clínica, testes genéticos e, em alguns casos, exames neurológicos adicionais e teste genético confirmatório.

A agilidade na procura por acompanhamento médico auxilia o paciente e seus familiares a planejarem melhor sua assistência, prolongar a autonomia e a manter a qualidade de vida do paciente.

A DH é uma doença rara que afeta cerca de 1 em cada 10 mil pessoas na maioria dos países europeus. A incidência varia em diferentes regiões do mundo. Não existem estatísticas oficiais de casos de DH no Brasil, porém estima-se que existam entre 13 e 19 mil pessoas portadoras do gene da doença2. Há locais de alta prevalência como Feira Grande (AL), Ervália (MG) e o distrito de Salão (CE), que, provavelmente, decorrem do isolamento geográfico e casamentos entre parentes.

 

Referências  

1 ABH - Associação Brasil Huntington. Herança genética na Doença de Huntington: entenda o risco e a transmissão. Disponível em: Link

2 BRASIL. Ministério da Saúde. Biblioteca Virtual em Saúde. 27/9 – Dia Nacional da Doença de Huntington. Brasília: Ministério da Saúde, [2023?]. Disponível em:Link


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