Apesar do avanço do debate público sobre diversidade e inclusão, mulheres, pessoas negras, pessoas com deficiência (PCD) e outros grupos minoritários ainda seguem sub-representados nos cargos mais altos das empresas brasileiras. Para o professor da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP) Fabio Coimbra, esse cenário não pode ser explicado apenas por fatores culturais: trata-se também de uma questão técnica de governança corporativa e de gestão de riscos.
Segundo o especialista, a
baixa diversidade na liderança é resultado de falhas estruturais dentro das
organizações, como processos de recrutamento pouco transparentes, promoções
baseadas em critérios subjetivos e ausência de metodologias capazes de reduzir
vieses.
“O problema está em
disfunções de governança interna: pipelines restritos, subjetividade elevada no
recrutamento e ausência de processos imunes a vieses na promoção. Com
colegiados homogêneos, perpetua-se o perfil da alta administração”, aponta Coimbra.
Falha de governança e risco para a empresa
Na avaliação do professor, a
ausência de diversidade em conselhos e diretorias não é apenas um problema
social: ela pode comprometer a qualidade das decisões estratégicas. Isso ocorre
porque ambientes homogêneos tendem a reforçar visões parecidas e reduzir o
questionamento interno, aumentando o risco de decisões mal avaliadas.
“A falta de diversidade de
visões e experiências pode levar a uma percepção distorcida dos riscos e a
decisões tomadas por consenso automático, sem o devido questionamento. Por
isso, cabe à governança garantir conselhos e diretorias com competências
variadas e critérios técnicos bem definidos”, destaca.
O professor explica que, do
ponto de vista técnico, diversidade amplia o debate, fortalece a supervisão e
reduz a centralização de decisões críticas, contribuindo para uma gestão mais
preparada para lidar com riscos complexos e interconectados.
“A diversidade fortalece o
debate e aumenta o olhar crítico nas decisões, melhorando a supervisão e a
capacidade de antecipar riscos. Na prática, ajuda a evitar que decisões
importantes fiquem concentradas em poucas pessoas”, afirma.
Metas e compromissos: avanço real ou marketing?
De acordo com Coimbra,
muitas empresas e órgãos públicos têm adotado metas formais de diversidade,
impulsionados pela pressão de reguladores e investidores. Ele avalia que essas
metas trazem benefícios importantes, como mensuração e responsabilização, mas
alerta para o risco de iniciativas se tornarem apenas uma peça de comunicação
institucional. “Há avanço impulsionado por reguladores e investidores. O risco
é reduzir metas a peça comunicacional sem lastro em desenvolvimento e mérito”,
diz.
Para o professor, a calibragem
adequada passa por combinar critérios técnicos de seleção com equidade real de
oportunidades, garantindo que os processos internos deixem de reproduzir
padrões históricos.
Diferenças entre setor público e privado
O especialista avalia que tanto
empresas privadas quanto organizações públicas enfrentam desafios, embora por
razões diferentes. No setor privado, a pressão de investidores e o escrutínio
internacional aceleram boas práticas. Já no setor público, processos de
indicação e seleção nem sempre seguem o mesmo grau de estruturação técnica e
transparência observado em segmentos mais expostos ao escrutínio de mercado. ‘O
vetor transformador comum é seleção técnica e plural de dirigentes’, afirma
Coimbra.
Transparência deve ser regra
O professor defende que a
divulgação de dados sobre diversidade na alta gestão pode ser um instrumento
decisivo para acelerar mudanças reais, desde que seja feita de forma
padronizada e verificável. Para ele, quando compromissos viram números, aumenta
a cobrança por resultados e diminui o espaço para discursos genéricos. “A
transparência com dados padronizados permite uma cobrança mais objetiva. Quando
compromissos viram números verificáveis, diminui o espaço para discursos
genéricos e aumenta a responsabilidade das lideranças”, aponta.
Impactos no acesso a capital e competitividade
Coimbra alerta que empresas
que não avançarem em diversidade e inclusão devem enfrentar consequências
crescentes nos próximos anos, incluindo dificuldade de atrair talentos, restrições
no acesso a grandes fundos e maior rigor regulatório. “A tendência para os
próximos 5 a 10 anos é a transição definitiva de intenções para cobrança
objetiva nos conselhos”, afirma.
Para o professor, a
diversidade deve ser tratada como um instrumento estratégico de governança e
não como um tema acessório. “Pluralidade na arquitetura decisória é mecanismo
técnico de mitigação de riscos e aprimoramento dos controles fiduciários.
Investidores devem exigir processos seletivos estritamente técnicos”, conclui.
Fabio Coimbra - professor da FECAP, doutor pela FEA USP. Atua como conselheiro de administração e membro de comitês de empresas de diversos setores. Trabalhou por 21 anos no Banco Central do Brasil, ocupando posições técnicas e de liderança, com experiência internacional, incluindo passagem no BIS (Bank for International Settlements), o “banco central dos bancos centrais”, além de ter sido sócio da PwC, na prática de consultoria. É especialista em governança corporativa, gestão de riscos, compliance e temas regulatórios, em diferentes setores e contextos institucionais.

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