Existe um diagnóstico errado circulando nas empresas brasileiras. E ele é conveniente demais para ser ingênuo
Ǫuando uma empresa perde um talento jovem no terceiro mês, a
narrativa que se instala nos corredores raramente questiona o ambiente. Ǫuestiona
o jovem. "Ansioso demais." "Não soube esperar."
"Essa
geração não tem comprometimento." O diagnóstico se repete com
uma uniformidade que deveria, por si só, gerar suspeita — porque quando todo
mundo concorda tão rapidamente sobre algo complexo, é sinal de que ninguém está
pensando direito.
O problema com
esse diagnóstico não é que seja completamente falso e sim que para na parte
mais cômoda.
Se o problema é
só comportamental, a solução é simples: corrigir os jovens, treinar
resiliência, pregar paciência.
Mas se o que
chamamos de impaciência for, na verdade, uma incompatibilidade estrutural
entre um modelo de trabalho desenhado para outro mundo e uma geração formada em
condições radicalmente diferentes, então a conversa muda de tom — e de
responsável.
Esse segundo
caminho é o que o debate corporativo brasileiro insiste em não tomar.
O ambiente que formou essa geração não foi acidente
Nenhuma geração
é resultado só dela mesma.
Como sempre falo
em fóruns que participo sobre o tema e também no meu livro “O Mundo é seu, mas
calma lá”, uma geração é sempre produto direto do contexto em que cresceu. E
esse contexto, no caso da Geração Z, é o primeiro na história humana inteiramente
organizado sob demanda: streaming que eliminou a grade fixa, e-commerce que
encurtou a espera de semanas para horas, comunicação que tornou distância
geográfica irrelevante, e agora inteligência artificial que comprime em
segundos o que levaria horas de pesquisa. Segundo o IBGE, mais de 90% dos
jovens brasileiros entre 15 e 24 anos usam a internet diariamente.
Não é dado de
acesso — é dado de formação. É o ambiente em que aprenderam o que é normal
esperar, o que é razoável exigir, o que significa eficiência.
A pergunta que o
mercado evita fazer é simples: por que esperaríamos que essa geração chegasse
ao trabalho com a mesma relação com tempo e hierarquia que um profissional
formado nos anos 1990 — quando conhecimento era escasso, carreira era linear e
referências de sucesso eram locais e geracionais?
Não é a mesma
base cognitiva. Não é o mesmo repertório. Não é razoável esperar o mesmo
comportamento e chamar de defeito quando ele não aparece.
A narrativa
dominante insiste em falta de comprometimento. Os números contam uma história
diferente.
44% da Geração Z
rejeita empregos sem aprendizado contínuo ou desenvolvimento claro. Não é fuga
do trabalho — é fuga da estagnação. Deloitte Global Survey, 2024
23% dos jovens
profissionais se consideram engajados no trabalho. O número baixo não reflete
preguiça. Reflete desconexão com estruturas que não fazem sentido. Gallup
State of the Global Workplace, 2024.
Há ainda o dado
que ninguém gosta de colocar na mesma frase que a crítica aos jovens: o Fórum
Econômico Mundial estima que 44% das habilidades profissionais devem mudar até
2027. Isso significa que o mercado que cobra paciência para aprender "o
jeito certo" está simultaneamente admitindo que esse jeito certo tem prazo
de validade curto.
Existe uma incoerência
aqui que merece ser nomeada: empresas pedem adaptabilidade como competência,
mas resistem quando ela aparece na forma de questionamento do que sempre foi
feito assim.
O paradoxo que ninguém quer citar
Existe uma
ironia específica nesse debate que raramente aparece em artigos sobre Geração Z
— talvez porque incomode os dois lados. As empresas que mais encantaram essa
geração, que moldaram seus valores sobre cultura, autonomia e propósito, são as
mesmas que nos últimos dois anos protagonizaram as maiores demissões em massa
da história recente e reverteram, uma após outra, suas políticas de trabalho
flexível. Google, Meta, Amazon: todas voltaram a cobrar presença, controle e o
modelo que antes criticavam publicamente. A Gen Z sente que comprou um ingresso
para um show que foi cancelado na metade.
Isso não
invalida os valores que a Geração Z internalizou. Mas cria uma tensão real e
pouco discutida: a geração que foi formada assistindo a promessa de que
trabalho poderia ser diferente está encontrando, na prática, um mercado que
recua dessa promessa.
Parte do
desengajamento que o RH trata como traço de personalidade é, na verdade,
resposta legítima a uma contradição estrutural — e não tem cura em treinamento
de resiliência.
O que as organizações que funcionam já entenderam
As empresas que
conseguem engajar esse perfil não fizeram milagres nem abandonaram os
fundamentos.
Fizeram algo
mais simples e mais difícil ao mesmo tempo: pararam de usar tempo como
principal proxy de valor. Ciclos de feedback mais curtos, critérios de
crescimento baseados em entrega e não em tempo de casa, clareza sobre
trajetória desde o início — não como promessa vaga, mas como contrato
transparente. Autonomia com responsabilidade, não autonomia como slogan.
Flexibilidade personalizada, ou seja, desde que você me entregue o que é
esperado, eu me adapto a você, sem problemas.
O detalhe mais
revelador é que essas mudanças melhoram o desempenho em todas as faixas
etárias. Profissionais sêniores também respondem melhor a feedback frequente,
critérios claros e menos burocracia desnecessária.
O que reforça o
que o debate insiste em ignorar: o problema nunca foi a geração.
A pergunta que ninguém está fazendo
Estamos em 2026.
A inteligência artificial generativa já mudou, de forma irreversível, o que
significa aprender, produzir e gerar valor profissional. Um trabalho que antes
levava um dia pode ser feito em horas. Uma pesquisa que exigia semanas pode ser
estruturada em minutos. O resultado — quando bem calibrado — continua sendo
bom. O que mudou foi o tempo para chegar lá.
Isso obriga uma
revisão que o mercado ainda adia: se produtividade mudou, se ferramentas
mudaram, se a forma de aprender e gerar impacto mudou, por que promoção e
salário ainda estão associados a anos de casa e experiência e não a entrega
consistente?
Por que carreira
ainda é pensada como espera, e não como evolução verificável? Seguir medindo
esforço pelo relógio, num ambiente onde o relógio deixou de ser a métrica
relevante, não é tradição a ser preservada. É ineficiência a ser corrigida.
Construção de
carreira continua exigindo consistência, esforço e tempo. Isso não mudou e não
vai mudar.
O que a Geração
Z desafia — e faz bem em desafiar — não é a necessidade de se desenvolver. É a
lógica de que desenvolvimento precisa ser lento por padrão, que hierarquia vale
mais que entrega, que reconhecimento deve sempre chegar tarde. Esse desafio,
quando as empresas param de tratá-lo como ameaça e começam a tratá-lo como
dado, é exatamente o tipo de pressão que melhora organizações.
A pergunta útil
nunca foi "como corrigimos essa geração?"
A pergunta útil
é: o que o nosso modelo precisa mudar para não perder quem vai sustentar o
mercado nas próximas duas décadas?
Sinais ignorados
viram custo. E esse custo — em rotatividade, em engajamento perdido, em
talentos que foram embora — já está aparecendo nos balanços de quem escolheu
não prestar atenção.
No final, a
pergunta não é sobre eles. É sobre nós.
Estamos
dispostos a revisar o que sempre funcionou — ou pelo menos o que sempre foi
feito — com a mesma velocidade que exigimos deles?
Porque continuar
respondendo a um mundo novo com respostas antigas não é uma sabedoria acumulada
e sim o diagnóstico errado de sempre, repetido com confiança impressionante.
Rodrigo Dib - superintendente Institucional do Centro de
Integração Empresa-Escola – CIEE
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