Evidências científicas avançam e indicam possível
papel do medicamento na prevenção e progressão da doença
Um medicamento centenário, amplamente utilizado para dor e prevenção
cardiovascular, pode estar assumindo um novo papel na medicina: o de aliado no
combate ao câncer. Evidências acumuladas nas últimas décadas indicam que a
aspirina pode reduzir não apenas o risco de desenvolvimento de alguns tumores,
como também a disseminação da doença pelo organismo.
A relação entre
aspirina e câncer não é nova. Desde os anos 1970, pesquisadores observam sinais
de que o medicamento poderia interferir na progressão tumoral. Mais
recentemente, análises com dados de longo prazo e ensaios clínicos reforçaram
essa hipótese, especialmente em câncer colorretal.
Um dos marcos foi
o acompanhamento de pacientes com síndrome de Lynch, condição genética que
aumenta significativamente o risco de câncer intestinal. Em um estudo
randomizado controlado considerado histórico, publicado em 2020 e liderado pelo
professor de genética clínica John Burn, pesquisadores acompanharam 861
pacientes ao longo de uma década.
Os resultados
mostraram que o uso diário de 600 mg de aspirina por pelo menos dois anos foi
capaz de reduzir pela metade o risco de câncer colorretal nesses indivíduos.
A investigação
avançou. Em um segundo estudo conduzido pela mesma equipe, ainda em processo de
revisão por pares, os achados iniciais indicam que doses significativamente
menores,entre 75 mg e 100 mg por dia, podem apresentar eficácia semelhante ou
até superior, com potencial vantagem em termos de tolerabilidade e segurança.
Esses dados ajudam
a explicar por que a estratégia vem sendo incorporada em diretrizes clínicas
para grupos de alto risco em alguns países, ainda que sob rigoroso
acompanhamento médico.
Nova peça no
quebra-cabeça: o sistema imunológico
Um avanço
importante veio de um estudo publicado em 2025, na revista Nature, que
investigou como a aspirina atua na prevenção de metástases.
"Esse estudo,
publicado na Nature, uma das revistas mais importantes na área da medicina,
aborda o mecanismo de ação da aspirina em relação à inibição das células T.
Essa descoberta sugere que a aspirina pode se tornar um componente ou uma
terapia útil para prevenir metástases em pacientes com câncer", explica
Tatiane Montella, oncologista da Oncoclínicas.
Segundo a
pesquisa, a aspirina interfere na produção de uma substância chamada tromboxano
A2, relacionada à coagulação sanguínea. Ao inibir esse fator, o medicamento pode
favorecer a atuação das células T, fundamentais na defesa do organismo, contra
células tumorais que tentam se espalhar.
"Como um
breve histórico e um dos motivos pelos quais esse estudo foi desenvolvido,
temos alguns estudos prévios, incluindo ensaios clínicos randomizados em
humanos, que avaliaram o papel da aspirina em pacientes diagnosticados com
neoplasias. Esses estudos demonstraram, em alguns casos, resultados positivos
da aspirina na prevenção de metástases em pacientes com câncer".
O controle da
metástase segue como um dos maiores desafios no tratamento oncológico. Mesmo em
estágios iniciais, há risco de disseminação da doença ao longo do tempo. “Mesmo
em pacientes com a doença em estágio inicial, onde terapias curativas, como a
cirurgia, são estabelecidas, ainda há o risco de que eles desenvolvam metástase
ao longo de sua jornada. Portanto, a metástase é, de fato, um grande gargalo e
um dos principais desafios enfrentados por pacientes com diagnóstico
oncológico", afirma.
O estudo experimental também reforçou o papel do sistema imunológico nesse processo.
"Esse foi um estudo realizado em laboratório com animais, com ratos, em
que se avaliou qual seria exatamente o mecanismo de ação da aspirina nessa
promoção, nessa prevenção das metástases. O que a gente sabe é que o sistema
imune está muito relacionado à oncogênese, ou seja, a essa proliferação celular
inadequada. O sistema imune tem um papel natural de inibir que essas células
evoluam”, avalia a oncologista.
Ela complementa,
ao detalhar como esse mecanismo atua diretamente na resposta imunológica do
organismo: "Com a aspirina, o que os autores do estudo comprovaram foi que
essa inibição que a aspirina faz, e uma determinada proteína, que é a COX-2,
permite que a célula T, que é a nossa célula de defesa, a célula do sistema
imune, fique mais ativa para combater possíveis metástases".
Evidências
crescentes, mas ainda com limitações
Apesar do avanço,
a aplicação clínica da aspirina na oncologia ainda enfrenta desafios. Estudos
com populações específicas, como o ensaio com pacientes com síndrome de Lynch
liderado por John Burn e pesquisas mais recentes com pacientes já
diagnosticados com câncer colorretal, têm mostrado resultados promissores,
incluindo redução de incidência e de recorrência da doença após cirurgia.
Ao mesmo tempo,
grandes ensaios clínicos em andamento buscam entender se esses benefícios podem
ser ampliados para outros tipos de câncer, como mama e próstata. Ainda assim,
há lacunas importantes.
"Apesar desse
grande avanço no entendimento do mecanismo de ação da aspirina em relação ao
sistema imune e a oncologia, algumas lacunas ainda precisam ser preenchidas.
Por exemplo, com quais tipos de tumor esse tipo de tratamento deve ser
empregado, em que dosagem e quais são os pacientes que, de fato, se beneficiam
desse tipo de tratamento".
Mesmo sendo um
medicamento acessível e amplamente conhecido, a aspirina não é isenta de
riscos. E esse é um ponto central no debate atual. "É importante lembrar
que, por um lado, a aspirina, um medicamento de uso comum, de fácil acesso e
baixo custo, pode trazer benefícios. Por outro lado, é uma medicação que exige
recomendação médica, pois está associada a efeitos colaterais. Um dos efeitos
mais comuns é o sangramento, especialmente no trato gastrointestinal, que pode
variar em gravidade, podendo, inclusive, ser fatal. Portanto, é muito
importante sabermos que, mesmo com os resultados promissores vindos desse
estudo, é crucial destacar que a aspirina deve ser usada, em qualquer situação,
com recomendação médica", resume Tatiane Montella.
Um futuro
promissor e ainda em investigação
Com estudos em
andamento e novas descobertas sobre seu mecanismo de ação, a aspirina pode
consolidar seu espaço como uma ferramenta complementar no tratamento do câncer.
Por ora, especialistas mantêm uma posição cautelosa: os benefícios são
consistentes em grupos específicos, mas ainda não justificam o uso
indiscriminado na população geral.
O que antes era
apenas um analgésico pode, aos poucos, se tornar parte de estratégias mais
complexas na oncologia, desde que guiado por evidência científica e acompanhamento
médico rigoroso.
www.oncoclinicas.com
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