A doença que
parece distante ainda circula no Brasil - e a única proteção continua sendo a
vacina
Pixabay
A percepção de risco em relação à raiva mudou ao
longo dos anos. Para muitos tutores, especialmente os que vivem em centros
urbanos, a doença deixou de fazer parte da rotina, o que pode levar à impressão
de que ela não representa mais uma ameaça real. No entanto, essa mudança está
muito mais relacionada à menor visibilidade do problema do que à sua eliminação.
A raiva continua sendo uma zoonose viral de
altíssima letalidade, causada por vírus do gênero Lyssavirus, que afeta o
sistema nervoso central de mamíferos. Trata-se de uma infecção com uma
característica crítica: após o início dos sinais clínicos, não há tratamento
capaz de reverter o quadro, tanto em animais quanto em humanos.
"A raiva é uma das poucas doenças infecciosas
em que a prevenção não é apenas recomendada, mas absolutamente determinante.
Uma vez que o vírus atinge o sistema nervoso central, a evolução é praticamente
irreversível", explica Bianca Fenner, médica-veterinária e coordenadora de
marketing da Unidade Pet da Ceva Saúde Animal.
Como o vírus se transmite
A transmissão ocorre principalmente por meio da
saliva de animais infectados. A mordida é a forma mais conhecida, mas não a
única. O vírus também pode ser transmitido quando há contato da saliva com
mucosas – como olhos, boca e cavidade nasal – ou com feridas abertas na pele.
Em menor frequência, arranhões contaminados também podem representar uma via de
infecção, especialmente quando há presença de saliva no local.
Esse ponto é relevante porque amplia a compreensão
sobre exposição. A transmissão não depende apenas de ataques evidentes, mas de
qualquer situação em que o vírus tenha acesso ao organismo.
O que acontece no corpo do
animal
Uma vez inoculado, o vírus não circula pela
corrente sanguínea como a maioria dos agentes infecciosos. Ele invade as
terminações nervosas e migra lentamente pelo sistema nervoso em direção ao
cérebro. Esse deslocamento explica o período de incubação variável da doença,
que pode durar de semanas a meses, dependendo da quantidade de vírus e da
proximidade da região afetada em relação ao cérebro.
Quando o vírus atinge o sistema nervoso central,
inicia-se um processo inflamatório progressivo – a encefalite viral. A partir
desse momento, a doença entra em sua fase clínica, com evolução rápida e grave.
Os primeiros sinais geralmente envolvem alterações
comportamentais: o animal pode apresentar inquietação, agressividade, medo ou
mudanças no padrão habitual de interação. Com a progressão, surgem dificuldade
de deglutição, hipersalivação e desorientação – seguidos de perda de
coordenação motora, paralisia progressiva e, por fim, falência respiratória.
"Os sinais clínicos refletem exatamente o
trajeto do vírus no organismo. Quando eles aparecem, o sistema nervoso já está
comprometido, o que explica a gravidade e a rápida evolução do quadro",
destaca a profissional.
O risco que está mais perto do
que parece
Ao longo das últimas décadas, campanhas de
vacinação em massa contribuíram significativamente para a redução de casos em
áreas urbanas, especialmente na transmissão entre cães. No entanto, esse avanço
veio acompanhado de uma mudança no perfil epidemiológico da doença.
Atualmente, os principais reservatórios do vírus no
Brasil são animais silvestres, com destaque para os morcegos. E aqui está o
ponto que muitos tutores desconhecem: um morcego pode entrar em ambientes
urbanos, inclusive dentro de residências, sem ser notado. Nesses casos, o
contato com cães e gatos pode ocorrer de forma silenciosa, dificultando a
identificação do risco.
"O desafio atual é justamente esse: o risco
continua existindo, mas não é mais tão evidente. Isso pode levar à falsa ideia
de que a doença deixou de ser relevante, o que não corresponde à
realidade", explica Bianca.
Por que vacinar mesmo quem
vive dentro de casa
Diante desse cenário, a vacinação continua sendo a
principal ferramenta de prevenção. Ao estimular o sistema imunológico a
produzir anticorpos contra o vírus, a vacina impede que a infecção se
estabeleça mesmo em caso de exposição. Além da proteção individual, a vacinação
tem impacto coletivo ao reduzir a circulação do vírus na população animal – um
conceito essencial no controle de zoonoses.
Mesmo assim, a menor percepção de risco tem levado
alguns tutores a negligenciar a vacinação, especialmente em animais que vivem
exclusivamente dentro de casa. Essa é uma interpretação equivocada do risco
atual.
"O estilo de vida do animal não elimina a
possibilidade de exposição. Hoje, o risco está menos associado ao acesso à rua
e mais à presença de reservatórios silvestres no ambiente", reforça a
médica-veterinária.
Outro ponto crítico é a continuidade do protocolo
vacinal. A imunidade não é permanente e depende de reforços periódicos, que
devem ser realizados conforme orientação do médico-veterinário ao longo de toda
a vida do animal.
A atenção não pode diminuir
A raiva não desapareceu – ela apenas deixou de ser
percebida com a mesma intensidade. E, nesse cenário, o maior risco não está no
aumento dos casos, mas na redução da atenção.
Manter a vacinação em dia é uma medida simples, mas
que continua sendo decisiva. Em uma doença sem tratamento e com alta
letalidade, prevenir não é apenas uma recomendação: é a única forma de proteção
efetiva para os animais e para as pessoas que convivem com eles.
www.ceva.com.br
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