O Brasil produz, exporta e movimenta uma das maiores economias do mundo — mas ainda esbarra em um gargalo básico: a ineficiência em fazer seus próprios produtos chegarem aos destinos em nosso próprio território. Em um cenário global marcado por tensões geopolíticas e alta no preço do petróleo, a dependência quase absoluta do transporte rodoviário revela uma fragilidade estrutural que encarece nossa produção e, inevitavelmente, limita o crescimento do país. Um cenário preocupante, mas que pode ser revertido e aperfeiçoado através da inovação.
Dados compartilhados no estudo anual “Custos
Logísticos e o Impacto nas Empresas Brasileiras” mostraram que os custos
logísticos no Brasil atingiram R$ 1,96 trilhão em 2025, valor equivalente a
15,5% do PIB nacional. Em países desenvolvidos, essa porcentagem costuma variar
entre 8% e 12% do Produto Interno Bruto, o que evidencia a ineficiência
brasileira em nossa malha rodoviária.
Não se trata de um problema pontual, mas sim de
falhas estruturais que vêm agravando cada vez mais nos últimos anos e
comprometendo, diretamente, nossa economia. Essa distorção se torna ainda
mais evidente em cadeias que dependem, fortemente, do transporte rodoviário,
como é o caso da soja. Produzida majoritariamente no interior do país, muitas
vezes a milhares de quilômetros dos portos, percorre longas distâncias em
caminhões movidos a diesel — um insumo diretamente impactado por oscilações
internacionais do petróleo.
O efeito cascata disso no preço é inevitável. Isso
porque, além de o produtor rural arcar com fretes elevados para escoar a safra,
os exportadores também incorporam esse custo ao valor de venda – fazendo com
que, ao final da cadeia, o preço da soja brasileira, mesmo sendo altamente
competitiva em termos de produtividade, chegue mais caro ao
mercado, reduzindo a margem de lucro dos produtores.
Há, ainda, o agravante da ineficiência da malha
rodoviária. Estradas em condições precárias aumentam o consumo de combustível,
elevam o tempo de transporte, geram perdas de carga e encarecem a manutenção
dos veículos. Sem falar dos impactos das crises climáticas nesse
sentido, como os que vimos em 2024 quando as enchentes que
atingiram o RS impediram que suprimentos e atendimentos chegassem ao estado por
via terrestre, ficando conhecido como um dos maiores desastres naturais que já
impactaram o local.
O modelo logístico nacional precisa, urgentemente,
ser repensado, de forma que deixemos de ser tão dependentes de uma única malha
ineficiente, passando a explorar e diversificar outras rotas tão benéficas
quanto essa. Há quantas décadas, por exemplo, não investimos em nossas
ferrovias, que já foram consideradas a única via de transporte de cargas e
pessoas no país? Ou, ainda, nossa rede hidroviária, já que temos milhares
de quilômetros de rios navegáveis com potencial para serem
desenvolvidos com mais intensidade, e por um custo bem menor em comparação
a outras opções.
Mesmo que não sejam iniciativas com resultados a
curto prazo, explorar essas inovações pode gerar benefícios enormes em termos
econômicos, impulsionando a geração de empregos e mercados, assim
como estimulando o compartilhamento de ideias, ao invés de ficarmos à
mercê desses eventos e guerras internacionais que impactam, diretamente, nossa
dependência no petróleo e, consequentemente, nas rodovias – da mesma forma que
está acontecendo, atualmente, com a Guerra no Irã.
A crise logística brasileira não será resolvida
apenas com ajustes pontuais, mas com uma mudança estrutural na forma como o
país pensa sua própria movimentação de riquezas. Diversificar esses modais e
incentivar a inovação não é apenas uma agenda de infraestrutura, mas uma
estratégia para reduzir custos, aumentar a competitividade e proteger a economia
de choques externos. O Brasil já tem os recursos suficientes para dar esses
primeiros passos, só falta transformar esse tamanho potencial em prioridade.
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