Sim, eu sei que ler esse título pode soar um pouco
duro. Pode parecer até uma ordem, algo que muitos idosos naturalmente rejeitam.
Mas a verdade é que o treino de força não é um luxo, nem apenas uma recomendação
genérica de médicos ou profissionais de saúde. Ele é um dos pilares
fundamentais para manter a autonomia, a saúde e a qualidade de vida ao longo do
envelhecimento.
O ideal seria que todos chegassem à terceira idade
já acostumados a se exercitar. Um corpo que foi movimentado ao longo da vida
tende a envelhecer melhor e com mais vigor, equilíbrio e mobilidade. Mas a
realidade é outra para muitas pessoas. A correria do trabalho, as
responsabilidades da vida adulta e a falta de orientação fazem com que o
movimento vá sendo deixado de lado.
Ainda assim, há uma boa notícia: enquanto há vida,
nunca é tarde para começar ou recomeçar.
O tempo já passou, é verdade. Mas ele continuará
passando de qualquer maneira. Então a pergunta que fica é simples: que tal usar
o tempo que ainda vem pela frente para construir um corpo mais forte e uma vida
mais independente?
Quando somos crianças, o movimento é natural.
Brincamos, corremos, subimos em árvores, pulamos, nos abaixamos e levantamos
sem sequer pensar nisso. O corpo funciona com liberdade e espontaneidade. Com o
passar dos anos, porém, muitas pessoas vão se tornando cada vez mais
sedentárias.
Sem perceber, deixam de se movimentar como
deveriam. Perdem força muscular, mobilidade e consciência corporal, que é aquela
capacidade simples de andar bem, sentar corretamente, agachar ou levantar com
segurança.
Essa perda progressiva de força e massa muscular
tem até nome: sarcopenia. De acordo com informações divulgadas pela Cleveland
Clinic, ela pode começar ainda entre os 30 e 40 anos e tende a se intensificar
com o envelhecimento, podendo chegar em alguns casos a até 8% de perda de massa
muscular por década. Esse enfraquecimento é um dos principais fatores que
comprometem a qualidade de vida na velhice. É ele que muitas vezes transforma
tarefas simples, como caminhar, subir escadas ou levantar de uma cadeira, em
grandíssimas dificuldades. Mas isso não precisa ser o destino inevitável do
envelhecimento.
E a ciência é bastante consistente ao apontar qual
tipo de exercício faz mais diferença nesse contexto: o treino de força.
Revisões sistemáticas publicadas em periódicos como o Age and Ageing (Oxford
Academic) e outros estudos na área de geriatria mostram que o treinamento
resistido melhora força, equilíbrio e capacidade funcional em idosos, além de
contribuir para a redução do risco de quedas – uma das principais causas de
hospitalização nessa faixa etária.
Modalidades como musculação, Pilates e treinamento
funcional (quando bem orientadas e com foco em força muscular), são as que
apresentam os melhores resultados para preservar autonomia ao longo do
envelhecimento. Não basta apenas se movimentar: é preciso treinar com
propósito.
Com o treino de força adequado, orientado e
adaptado para cada condição, o corpo pode evoluir em qualquer idade. Mesmo que
o progresso seja gradual, ele acontece. Um idoso que começa a treinar pode
recuperar mobilidade, melhorar o equilíbrio, fortalecer a musculatura e reduzir
significativamente o risco de quedas. E, mais importante, pode recuperar algo
extremamente valioso: a independência.
Conseguir caminhar sem ajuda, levantar da cama com
autonomia, brincar com os netos ou simplesmente realizar atividades do dia a
dia sem depender de outras pessoas são conquistas que fazem toda a diferença na
autoestima e na qualidade de vida.
Cuidar do próprio corpo também é uma forma de
cuidar daqueles que amamos. Afinal, manter-se ativo não significa apenas viver
mais, significa viver melhor, com dignidade, autonomia e presença.
Por isso, o treino de força na terceira idade não
deve ser visto como um esforço exagerado ou um sacrifício desnecessário. Ele é,
na verdade, um investimento direto na liberdade de continuar vivendo
plenamente.
Começar pode parecer difícil. Mas cada passo conta. E, muitas vezes, tudo o que o corpo precisa é justamente isso: começar a se mover novamente – com intenção, orientação e força. A hora é agora.
Rairtoni Pereira - personal trainer há mais de 10
anos, ajudando pessoas a desenvolverem hábitos saudáveis e uma relação positiva
com o próprio corpo. É autor do livro “5 Atitudes para criar o hábito de se
exercitar todos os dias”.
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