Apesar de maior escolaridade e presença
crescente no mercado, mulheres ocupam menos de 40% dos cargos gerenciais no
Brasil, enfrentam desigualdade salarial e pagam um preço mais alto em saúde
mental para liderar
Em março o mundo celebra o Dia
Internacional da Mulher, data que reforça mais que um marco simbólico. Oficializado
pela Organização das Nações Unidas em 1975, o Dia Internacional da Mulher expõe
um paradoxo corporativo: embora as mulheres sejam maioria nas universidades e
ampliem presença no mercado de trabalho, continuam sub-representadas nos cargos
de maior poder e decisão. A liderança feminina deixou de ser pauta periférica e
passou a integrar a agenda de competitividade das companhias. Ainda assim, o
avanço ocorre em ritmo desigual e, muitas vezes, cobra um preço silencioso, que
se traduz em sobrecarga, disparidade salarial e esgotamento mental.
Dados do IBGE indicam que apenas 39,2%
dos cargos gerenciais no Brasil são ocupados por mulheres. No setor privado, o
percentual de empresas com lideranças femininas consolidadas é ainda menor:
17,4%, segundo levantamento do Insper em parceria com o Instituto Talenses. Nos
conselhos de administração, a presença feminina oscila entre 10% e 20%, em um
momento de adaptação à nova lei que estabelece cota mínima de 30%.
O contraste fica ainda mais evidente
nas companhias listadas na B3. De acordo com o estudo “Mulheres em Ações”, 55%
das empresas não têm mulheres em cargos de diretoria estatutária e 36% não
contam com nenhuma conselheira. Apenas 6% possuem três ou mais mulheres na
direção.
No setor público federal, o cenário é
relativamente mais equilibrado: 45,6% dos cargos de direção e assessoramento
são ocupados por servidoras, segundo o Ministério da Gestão e Inovação. Ainda
assim, a igualdade plena segue distante.
O preço do topo
Chegar à alta liderança já é
desafiador. Permanecer nela é ainda mais. O chamado “degrau quebrado” explica
parte dessa instabilidade: mulheres deixam o topo com mais frequência que
homens, pressionadas por burnout, menor rede de apoio e falta de perspectiva de
avanço. CEOs mulheres, inclusive, têm menor tempo médio no cargo.
Os números da saúde mental reforçam o
alerta. Em 2024 e 2025, as mulheres representaram cerca de 70% dos atendimentos
por burnout no SUS. Das licenças concedidas por transtornos mentais pelo
Ministério da Previdência Social, 63,8% foram para elas. Entre executivas de
alta gestão, até 83% relatam esgotamento frequente, segundo pesquisa da WGSN
com a FIA. E 71% admitem sacrificar o autocuidado em prol da carreira.
A desigualdade também é financeira.
Mulheres em cargos de liderança ganham, em média, 32,7% a menos que homens na
mesma posição, o que representa cerca de R$ 40 mil a menos por ano, segundo o
Dieese. Além disso, seguem dedicando quase o dobro de horas a tarefas
domésticas e cuidados, uma variável invisível que impacta desempenho e
disponibilidade.
Diversidade como estratégia de
crescimento
É nesse contexto que ganha força o
trabalho de Tatiana Marzullo, fundadora e CEO da Agência A+, empresa de
comunicação com sede no Rio de Janeiro há 19 anos e operação em Orlando há três.
Com mais de 27 anos de experiência no mercado, Tatiana construiu uma cultura
organizacional majoritariamente feminina, hoje com mais de 65% do quadro
formado por mulheres, e transformou sua trajetória em plataforma de formação de
novas líderes. “A liderança feminina não é apenas uma questão de
representatividade, mas de estratégia empresarial. Diversidade gera inovação e
melhores resultados”, afirma.
Criado em 2023, o Programa Salto Alto
nasce como extensão desse posicionamento. Mais do que um curso, trata-se de uma
jornada intensiva de seis meses voltada a um grupo seleto de até 30 mulheres. A
jornada inclui preparação estratégica no Brasil, certificações do Disney
Institute e da Full Sail University, além de visitas técnicas a empresas como
Apple, Starbucks e Whole Foods Market, nos Estados Unidos.
Baseado em quatro pilares, conteúdo,
experiências, conexões e transformação, o programa busca fortalecer visão
estratégica, autoconfiança e posicionamento executivo. Desde sua criação, já
impactou mais de 300 mulheres, que hoje integram uma comunidade ativa de
líderes e empreendedoras.
“Quando o líder entende quem é, qual
impacto gera e como se comunica, os resultados aparecem de forma sustentável
para o negócio e para as pessoas.”, afirma Tatiana.
Lideranças que inspiram no varejo
Histórias de mulheres que superaram
barreiras ajudam a mostrar como iniciativas e políticas inclusivas podem
transformar o mercado. É o caso de Kátia Silva, fundadora da marca de
cosméticos naturais Águas de Ipanema. Após uma trajetória de sucesso na L’Oréal
Brasil, onde liderou projetos estratégicos, Kátia seguiu seu sonho de criar uma
empresa que refletisse seus valores de sustentabilidade e bem-estar.
“Águas de Ipanema não é só um negócio,
mas um movimento em prol da beleza consciente. É a realização de um sonho que
carreguei por toda a vida”, disse Kátia, que hoje é uma referência de liderança
e empreendedorismo no setor de beleza.
Outra iniciativa que se destaca é a
política do Grupo CVLB (das redes varejistas CASA&VIDEO e Le biscuit) de
promoção de mulheres. Márcia Lassance, diretora de Gente & Gestão, foi
promovida um ano após retornar de sua licença. “A igualdade de gênero é um
pilar do nosso trabalho. Criar um ambiente onde as mulheres possam crescer é
essencial para o sucesso coletivo”, afirmou Márcia.
Outra executiva que se destaca no
varejo é Vanessa Leite, coordenadora de Marketing dos Supermercados Mundial. À
frente da área desde 2018, Vanessa construiu sua trajetória em um setor
historicamente marcado por lideranças masculinas. Em um ambiente competitivo
como o varejo alimentar, seu trabalho consolidou uma abordagem estratégica que
combina análise de comportamento, escuta ativa do consumidor e leitura sensível
das transformações sociais.
Mais do que ocupar um espaço, Vanessa
ampliou o olhar da marca sobre quem está do outro lado do carrinho. Sua atuação
tem sido decisiva para aproximar campanhas da realidade das famílias, entender padrões
de consumo e traduzir dados em ações práticas que impulsionam resultados.
“Estar em um setor desafiador exige
preparo e visão. O varejo muda rápido, e entender quem decide a compra, quem
organiza o orçamento e quem influencia o consumo é fundamental. Meu papel é
garantir que nossas estratégias conversem com essa realidade de forma
inteligente e respeitosa”, afirma.
Para ela, liderança feminina não é
sobre discurso, mas sobre impacto. “Marketing é leitura de comportamento.
Quando ampliamos perspectivas dentro da liderança, ampliamos também a
capacidade de inovar. E isso se reflete diretamente nos resultados.”
Sob sua coordenação, as campanhas do
Mundial passaram a dialogar de maneira mais próxima com o cotidiano das
famílias cariocas, reforçando a identidade da rede e fortalecendo a conexão com
o público.
Liderança feminina no terceiro setor
No terceiro setor, onde impacto social
precisa caminhar lado a lado com governança e sustentabilidade financeira,
Bianca Provedel representa uma liderança que combina propósito e gestão
estratégica. À frente do Instituto Ronald McDonald, uma das principais
organizações de apoio à oncologia pediátrica no país, ela conduz uma estrutura
nacional que articula empresas, voluntários, poder público e sociedade civil em
torno de uma causa de alta complexidade: reduzir desigualdades no acesso ao
diagnóstico e tratamento do câncer infantojuvenil.
Sob sua liderança, o Instituto
consolidou programas estruturados, ampliou investimento social e fortaleceu
métricas de impacto, posicionando o terceiro setor como agente de transformação
com resultados mensuráveis. “Liderar é garantir que propósito e eficiência
caminhem juntos. No terceiro setor, isso significa transformar recursos em
acesso real à saúde, com responsabilidade, transparência e visão de longo
prazo”, afirma.
Opinião de especialistas em liderança
Para
Lara Bezerra, especialista em carreira e liderança e fundadora da
WorkCoherence, o desafio central não está apenas em ampliar números, mas em
transformar a lógica, a cultura e os critérios que historicamente moldaram
esses ambientes. Quando a diversidade é tratada apenas como símbolo, seu
impacto é limitado; ela só gera valor quando altera a forma como as decisões
são tomadas. “Há sinais positivos, como maior pressão por boas práticas de
governança e uma compreensão crescente de que diversidade no topo não é uma
pauta social, mas um fator direto de qualidade estratégica. A verdadeira virada
acontece quando as empresas deixam de perguntar quantas mulheres estão à mesa e
passam a refletir sobre quanto espaço elas têm para influenciar a estratégia e
o futuro do negócio”.
Lara
destaca que apoiar mulheres em cargos elevados passa também por reconhecer os
desafios específicos que enfrentam, como a conciliação entre vida profissional,
maternidade e responsabilidades familiares, e por fortalecer uma liderança mais
consciente, baseada em autoconhecimento, equilíbrio emocional e clareza
decisória. “Diversidade, quando incorporada à governança e combinada a
diferentes recortes, como raça, origem socioeconômica e experiências de vida,
amplia a diversidade cognitiva, melhora a qualidade das decisões e fortalece os
resultados no longo prazo”. Para ela, equipes e conselhos diversos elevam o
nível de consciência organizacional e constroem uma prosperidade mais sólida,
sustentável e alinhada com o impacto que as empresas geram na sociedade.
Força feminina na indústria
farmacêutica
Alba Eiras de França, Diretora de
Pessoas e Comunicação na Lundbeck Brasil, se destaca por uma liderança
humanizada, baseada na autonomia, no crescimento e na valorização de sua
equipe. Com mais de 20 anos de experiência em Recursos Humanos, ela promove um
ambiente de trabalho justo e colaborativo, onde cada profissional tem espaço
para se desenvolver e contribuir ativamente. “Amo olhar para o indivíduo”,
afirma, reforçando seu compromisso com uma gestão que vai além dos números,
focada no impacto positivo na vida das pessoas.
À frente da ALKO do Brasil, Juliana
Komel ocupa hoje o cargo de Co-CEO, destacando-se como uma liderança feminina
em um setor tradicionalmente dominado por homens. Sua trajetória reflete a
crescente presença das mulheres na indústria de diagnóstico por imagem e na
gestão de empresas do setor de saúde, reforçando a importância da diversidade e
da equidade no ambiente corporativo. "Assumir a liderança em um setor tão
estratégico como o diagnóstico por imagem é um desafio e, ao mesmo tempo, uma
oportunidade para reforçar o papel da mulher na indústria. A diversidade de
pensamento e a equidade são essenciais para impulsionar inovação e crescimento
sustentável." – Juliana Komel, Co-CEO da empresa.
Na MedQuímica, a presença feminina é
cada vez mais expressiva, especialmente em cargos de liderança, reforçando a
importância da diversidade e do protagonismo das mulheres no setor
farmacêutico. Um dos exemplos dessa representatividade é Roberta Carlini,
diretora de Diretora de Pessoas & Futuro da MedQuímica.
“Os avanços da presença feminina na
liderança da indústria farmacêutica mostram que diversidade não é apenas uma
pauta social, mas um fator estratégico de transformação. Quando mulheres ocupam
espaços de decisão, ampliamos a capacidade das empresas de unir performance e
propósito, inovação e empatia. Ainda há desafios importantes, especialmente em
áreas historicamente masculinas, mas cada passo dado reforça que liderar também
é cuidar de pessoas, de culturas organizacionais mais éticas e de negócios mais
sustentáveis. Fortalecer a liderança feminina é investir em resultados, em
inclusão real e em um futuro corporativo mais humano”, afirma Carlini.
Setor de energia
A presença feminina no setor de energia
tem aumentado de forma expressiva, tradicionalmente dominado por homens. A
ABDAN (Associação Brasileira para o Desenvolvimento De Atividades Nucleares)
reforça seu compromisso em ampliar a diversidade e reconhecer a importância da
liderança feminina, alinhando-se à visão da presidência de construir um setor
mais inclusivo, inovador e sustentável. “Fazer parte desse movimento de
transformação é muito significativo. A presença feminina no setor nuclear
cresce a cada ano, e é fundamental que continuemos avançando para garantir um
ambiente mais igualitário,” destaca Cristiane Pereira, Gerente de Marketing e
Comunicação da ABDAN.
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