É curioso como a escola brasileira continua
prometendo formar cidadãos — mas trata o aluno como se fosse uma máquina de
marcar X. Desde sempre, a régua é o vestibular. E enquanto isso, falamos de
protagonismo estudantil, habilidades socioemocionais, pensamento crítico. Na
prática, a aula segue igual: fila, silêncio, caderno copiado e prova de múltipla
escolha.
O discurso da “Educação 5.0” está na moda.
Personalização, sustentabilidade, tecnologia, empatia — tudo cabe nesse pacote
colorido. Mas a pergunta incômoda é: quem vai bancar isso? Quem vai sustentar
uma educação personalizada em turmas com 40 estudantes, dois turnos e salários
parcelados?
A Finlândia é sempre citada. Parece até meme de
educador. Sim, lá o currículo é atualizado, os professores são valorizados, e
os estudantes aprendem brincando, muitas vezes numa floresta. Mas ignoramos um
dado básico: o professor finlandês tem, no mínimo, mestrado e tempo para
preparar suas aulas — dois luxos raros por aqui. Em Portugal, a Escola da Ponte
é genial, mas funciona com uma estrutura que exigiria uma revolução completa na
nossa gestão pública.
Não se trata de copiar modelos, pois a educação que
não é conectada ao contexto é estéril, mas eles servem para nos inspirar e
mostrar que é possível ofertarmos uma educação de qualidade às nossas crianças.
Mas antes de qualquer mudança, precisamos nos olhar no espelho, senão é pura
ilusão. Aqui, a escola ainda luta para garantir o básico: merenda decente,
banheiro limpo, professor na sala. É sobre isso que deveríamos estar falando
antes de sonhar com impressoras 3D e aprendizagem por projetos.
A evasão no Ensino Médio é um grito abafado. Os
jovens saem porque não se veem ali. Porque o que se ensina parece não ter nada
a ver com a vida real. O currículo é tão fragmentado que ninguém sabe mais por
que estuda. Pergunte a um aluno de 16 anos para que serve a aula de física que
ele teve hoje. A resposta vai do silêncio à ironia. Quem leva isso a sério sabe
que “inovar” não é colocar tablet na mão da criança — é mudar a lógica da
relação.
É preciso ter coragem para admitir que parte da
escola atual fracassa não por falta de boas intenções, mas por fidelidade a um
modelo que morreu e ninguém enterrou. A escola que separa mente e corpo, que
pune o erro, que valoriza mais a nota do que o afeto, não serve mais. Se fosse
falar dos modelos avaliativos então, daria um novo artigo. Isso tudo persiste
porque é confortável para quem manda.
Michel Desmurget tem razão ao soar o alarme sobre o
excesso de telas. O problema maior, porém, não está só no celular, mas no
abandono silencioso dos vínculos. O estudante se isola na tela porque não
encontra sentido no mundo adulto ao redor. E isso inclui a escola.
Não precisamos de palavras bonitas, precisamos de
políticas corajosas. Que enfrentem o descompasso entre o que a escola diz que é
e o que ela faz todos os dias. Que deem ao professor tempo para estudar,
autonomia para criar e dignidade para ficar.
Queremos empatia? Comecemos pela escola. Mas não
apenas para os estudantes. A escola também precisa de empatia institucional.
Porque ninguém consegue cuidar se está sendo descartado.
A educação precisa fazer sentido na medida da
capacidade de cada indivíduo. Podemos e devemos usar as máquinas, mas sem
esquecer que estamos educando humanos.
Paulo R. C. Rocha - vice-presidente do Biopark.
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