Estudo do consórcio InfoDengue–Mosqlimate, iniciativa da FGV e da Fiocruz, aponta manutenção de patamar epidêmico elevado no país
O
Brasil pode registrar cerca de 1,8 milhão de casos de dengue na temporada
2025–2026, segundo estimativa do estudo InfoDengue–Mosqlimate, desenvolvido em
parceria pela Escola de Matemática Aplicada da Fundação Getulio Vargas (FGV
EMAp) e pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). As projeções indicam a manutenção
de um cenário epidêmico com incidência elevada, ainda que sem sinais de
alcançar os extremos observados em 2024.
A
estimativa é resultado da segunda edição do Sprint InfoDengue–Mosqlimate,
iniciativa científica que reuniu 15 equipes de pesquisa nacionais e internacionais,
responsáveis pela submissão de 19 modelos preditivos para a dengue no Brasil.
As previsões foram avaliadas com base no desempenho em temporadas anteriores e
consolidadas em um modelo ensemble, construído a partir dos cinco modelos com
melhor performance para cada unidade da federação.
De
acordo com os dados do estudo, o modelo ensemble estima 1,8 milhão de casos
prováveis de dengue no país no período compreendido entre a semana epidemiológica
41 de 2025 e a semana 40 de 2026. Desse total, 54% dos casos são esperados no
estado de São Paulo e 10% em Minas Gerais, refletindo a concentração da
incidência em estados mais populosos. A análise indica que, na maioria das
unidades da federação, os picos de incidência previstos para a próxima
temporada devem ser menores do que os observados em 2024–2025, embora ainda
elevados quando comparados à média do período de 2019 a 2023.
Segundo
Flávio Codeço Coelho, pesquisador da Escola de Matemática Aplicada da FGV
(EMAp) e um dos coordenadores do consórcio InfoDengue–Mosqlimate, as projeções
apontam para um cenário que exige atenção contínua. “As análises para a próxima
temporada sugerem um ano com características epidêmicas, mas sem sinais de
alcançar os extremos de incidência observados em 2024. Ainda assim, trata-se de
um patamar elevado quando comparado aos padrões históricos recentes”, afirma.
O
estudo também aponta diferenças regionais importantes. O modelo indica redução
da incidência prevista para estados como Paraná, Rio Grande do Sul, São Paulo,
Acre e Amapá, enquanto aumento é esperado em unidades como Santa Catarina,
Minas Gerais, Distrito Federal, Mato Grosso do Sul e Tocantins. Para os demais
estados, a incidência estimada é semelhante à da temporada atual, evidenciando
a heterogeneidade da dinâmica da dengue no território nacional.
Os
pesquisadores ressaltam que há variabilidade entre os modelos que compõem o
ensemble, o que reflete a complexidade da transmissão da dengue no Brasil. O
relatório destaca ainda fatores que podem agravar o cenário epidemiológico,
como a possível expansão do sorotipo DENV-3, a emergência de outros vírus, como
o Oropouche, que podem ser notificados como dengue, e falhas no diagnóstico
diferencial de chikungunya, que também podem impactar os registros.
Por
se tratar de projeções baseadas em dados históricos epidemiológicos,
demográficos e ambientais, o estudo enfatiza que os cenários devem ser
interpretados como resultados provisórios, sujeitos a incertezas e a
atualizações ao longo da temporada, especialmente diante das mudanças
ambientais e climáticas em curso.
O
InfoDengue é um sistema de monitoramento e análise da dengue desenvolvido pela
Fiocruz, em parceria com a FGV EMAp, que integra dados epidemiológicos,
climáticos e demográficos para acompanhar a dinâmica das arboviroses no Brasil.
O Mosqlimate é uma iniciativa científica voltada ao desenvolvimento de modelos
preditivos de doenças transmitidas por vetores, reunindo pesquisadores do
Brasil e do exterior no enfrentamento da dengue.
Nenhum comentário:
Postar um comentário