Artes cênicas integradas ao currículo ajudam crianças e jovens a
ampliarem repertório, organizar a própria voz e construir vínculos na escola
Em um momento em que dados recentes do IBGE,
do Unicef e de institutos de pesquisa educacional apontam crescimento do tempo
de crianças e adolescentes diante de telas, dificuldades de comunicação
presencial e desafios nas relações entre pares, a escola volta a ser cobrada
por formar sujeitos capazes de escutar, argumentar e se posicionar. Nesse
contexto, práticas que articulam corpo, linguagem e convivência ganham
centralidade no debate educacional, especialmente aquelas que ampliam
repertório cultural e ajudam estudantes a construir uma relação mais consciente
consigo mesmos e com o mundo.
É a partir dessa compreensão que uma escola
de São Caetano do Sul estruturou um currículo que integra conhecimento
acadêmico, formação social e desenvolvimento crítico por meio das artes
cênicas. Na Escola Villare, o teatro acompanha os alunos da educação infantil
ao ensino médio e funciona como uma linguagem que atravessa a experiência
escolar, organizando modos de aprender, conviver e se expressar.
O trabalho se desenvolve em processos
contínuos. “O ponto de partida é sempre o convite”, afirma Elaine Ferreira,
professora de artes cênicas da escola. A metodologia se ancora no brincar e no
jogo, com foco na construção de vínculo e presença. Desde os primeiros anos, os
estudantes se aproximam da linguagem teatral como espaço de experimentação,
curiosidade e escuta.
Ao longo do tempo, a cena passa a assumir outras
camadas. Corpo, voz e silêncio se transformam em ferramentas para formular
ideias, investigar conflitos e sustentar posições diante do coletivo. As
investigações não seguem um roteiro único. Cada grupo constrói suas próprias
perguntas, de acordo com o momento vivido.
Em um coletivo numeroso do ensino médio,
formado por alunos do 9º ano à 3ª série, a necessidade era reorganizar a
escuta. A provocação escolhida foi uma palavra simples: silêncio. A partir
dela, os estudantes pesquisaram poesia, música e literatura, escreveram
coletivamente e criaram uma cena autoral.
Em outro grupo, atravessado por relatos de
ansiedade e cansaço, a pergunta lançada foi o que é terapia. O processo deu
origem a vídeos, personagens e cenas que ajudaram os alunos a elaborarem medos
e tensões. Em alguns casos, o percurso se encerra no próprio processo.
“Enquanto processo, é saudável”, diz Elaine.
Conteúdos de outras áreas aparecem com
frequência na cena. Temas de História, Ciências, Língua Portuguesa ou
Matemática surgem como matéria-prima para reflexão. O humor ocupa lugar central
nesse percurso, usado pelos estudantes para questionar conceitos, brincar com
ideias e reorganizar experiências.
Os temas contemporâneos emergem das
inquietações dos próprios grupos e passam por um cuidado rigoroso. Antes de
levar questões como alcoolismo, violência, pobreza ou manipulação política ao
palco, os alunos pesquisam, leem reportagens e discutem contextos e limites de
representação. Em uma produção recente, estudantes articularam pesquisa sobre a
ditadura militar com vídeos autorais, criando sobreposições entre imagens
históricas e o presente.
A centralidade do corpo atravessa todo o
trabalho. Ao longo dos anos, os estudantes desenvolvem segurança para falar em
público, organizar ideias e escutar o outro. Professores de outras áreas
observam mudanças em alunos antes reservados. As famílias relatam avanços na
autonomia, na confiança e na forma como os filhos se comunicam.
Nos momentos de transição entre segmentos, o
teatro atua como espaço de pertencimento. O jogo favorece a construção de
vínculos e o reconhecimento do grupo como coletivo, criando um ambiente em que
experimentar faz parte do aprendizado.
O que se vê no palco resulta de um trabalho contínuo. A
cada ano, os estudantes ampliam repertório, refinam a expressão e aprofundam
perguntas. Ex-alunos relatam segurança em apresentações acadêmicas, entrevistas
e processos seletivos. “O teatro ajuda a formar pessoas que se entendem melhor
e conseguem
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