O impacto da notícia, a solidão ao longo do tratamento e o acolhimento emocional como fator decisivo para a adesão e a continuidade do cuidado
Receber
o diagnóstico de câncer em um filho não é apenas receber uma notícia médica. É
atravessar uma ruptura profunda na vida, marcada pelo medo, pela insegurança e
por uma solidão que se instala silenciosamente. No Janeiro Branco, mês dedicado
à saúde mental, o Instituto Ronald McDonald chama atenção para um aspecto ainda
pouco discutido no câncer infantil: o sofrimento emocional de quem cuida.
Para
mães e pais, o diagnóstico inaugura um tipo de luto que acontece em vida. A
vida como era conhecida deixa de existir, enquanto o tratamento passa a ocupar
o centro de tudo. Consultas, exames, internações e incertezas passam a ditar os
dias, enquanto o mundo ao redor segue em movimento. Amigos continuam suas
rotinas, compromissos seguem acontecendo, e quem está cuidando fica, muitas
vezes, sozinho com o medo.
“A
notícia do câncer paralisa. A gente entra em um estado de alerta permanente,
vivendo entre a esperança e o medo. E, com o tempo, percebe que nem sempre há
espaço para falar dessa dor. As pessoas seguem, mas quem está cuidando fica
ali, tentando ser forte o tempo todo”, afirma Bianca Provedel, CEO do Instituto
Ronald McDonald.
Durante
o tratamento, esse isolamento tende a se intensificar. O medo da perda, a
exaustão física, a culpa por não conseguir dar conta de tudo e a sensação de
que o sofrimento incomoda fazem com que muitos cuidadores silenciem a própria
dor. Falar sobre a doença parece pesado demais para quem está de fora. Assim, o
sofrimento emocional passa a ser vivido de forma solitária.
Essa
sobrecarga tem impacto direto na adesão ao tratamento. A saúde mental
fragilizada afeta a capacidade de organização, a tomada de decisões e a
manutenção da rotina necessária para o cuidado contínuo da criança. Quando o
cuidador adoece emocionalmente, todo o processo se torna mais vulnerável.
Para
Bianca, reconhecer esse sofrimento é essencial para garantir um tratamento mais
efetivo.
“Cuidar
de uma criança com câncer exige força emocional constante. Quando não há
acolhimento psicológico, esse peso se acumula. A saúde mental do cuidador não é
um detalhe, ela interfere diretamente na continuidade do tratamento e no
bem-estar da criança”, destaca.
Esse
acolhimento não acontece apenas dentro do hospital. Ele também se constrói nas
relações do dia a dia. Amigos, parentes e colegas de trabalho muitas vezes
querem ajudar, mas não sabem como agir diante da dor do outro. Entender que
apoiar não exige palavras certas, mas presença constante, já é um primeiro
passo.
Como apoiar quem cuida de uma criança com câncer
Quando
uma família recebe o diagnóstico de câncer infantil, o impacto não se limita ao
tratamento médico. O apoio emocional do entorno pode fazer diferença real na
forma como essa jornada é atravessada.
Bianca
Provedel traz algumas atitudes simples que ajudam a sustentar quem está
cuidando:
•
Estar presente ao longo do tempo, não apenas nos primeiros dias após o
diagnóstico. O tratamento é longo e o apoio precisa acompanhar esse percurso.
•
Oferecer ajuda prática, como cuidar de irmãos, preparar refeições ou resolver
tarefas do dia a dia. Muitas vezes o cansaço impede até de pedir ajuda.
• Escutar sem tentar consertar, evitando frases prontas ou tentativas de minimizar a dor.
• Respeitar o silêncio, entendendo que nem sempre haverá energia para conversar ou explicar o que está acontecendo.
• Manter o vínculo para além da doença, falando de outros assuntos e preservando a vida em movimento.
• Não desaparecer com o tempo. Mesmo quando a rotina parece mais estável, o medo e a insegurança continuam presentes.
“Muitas famílias sofrem em silêncio porque sentem que o sofrimento incomoda. Quando alguém se mantém por perto, sem julgamento e sem cobranças, isso sustenta emocionalmente quem está cuidando. Apoiar também é um ato de cuidado”, afirma Bianca Provedel.
Nas
unidades dos programas Casa Ronald McDonald e Espaço da Família Ronald
McDonald, esse acolhimento acontece de forma estruturada e contínua. Além de
hospedagem, alimentação e transporte, as famílias encontram escuta, apoio
psicológico e um ambiente seguro para expressar medos, inseguranças e cansaço.
O convívio com outras famílias que vivem a mesma realidade reduz a sensação de
isolamento e fortalece redes de apoio.
“O
acolhimento muda a forma como essa jornada é vivida. Quando a mãe ou o pai se
sentem vistos, escutados e amparados, eles conseguem seguir. E seguir é o que
garante que o tratamento continue”, diz Bianca.
Ao
longo de mais de 26 anos de atuação, o Instituto Ronald McDonald observa que o
cuidado emocional é um dos pilares para reduzir o abandono do tratamento e
fortalecer a resiliência das famílias. Em um país marcado por desigualdades
sociais, oferecer suporte psicológico também é uma forma concreta de promover
equidade em saúde.
No
Janeiro Branco, o Instituto reforça que falar de saúde mental no câncer
infantil não é secundário. É falar de sobrevivência, de continuidade do cuidado
e de dignidade. Ninguém deveria enfrentar o medo de perder um filho em
silêncio.
“Cuidar
de quem cuida é um ato de responsabilidade e humanidade. A força que tanto se
espera dessas famílias só existe quando elas não precisam enfrentar tudo
sozinhas”, conclui Bianca Provedel.
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