Estudo da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto pode ampliar o aproveitamento do órgão, o mais procurado no Brasil: há quase 30 mil pessoas na fila de espera
Mais de 60 mil pessoas no
Brasil esperam por um transplante de órgão e quase 30 mil estão na fila por um
rim – o mais procurado entre todos os tipos de transplantes. Dados de 2024 da
Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO) mostram que o aproveitamento de rins de doadores falecidos no Brasil
ficou entre 68% e 70%, o que significa que quase um terço dos rins captados não
foram utilizados para transplante por critérios clínicos, anatômicos ou
logísticos e reforça a urgência de novas estratégias que melhorem a preservação
e o aproveitamento dos órgãos disponíveis.
O transplante continua sendo o
tratamento mais eficaz para a doença renal crônica, oferecendo maior sobrevida
e melhor qualidade de vida em comparação à diálise. Hospitais e centros de
pesquisa em todo o mundo têm buscado alternativas para ampliar o número de
órgãos utilizáveis, inclusive recorrendo a doadores com critérios estendidos,
cujos rins, embora viáveis, apresentam maior risco de complicações após o
transplante.
Pesquisadores da Faculdade de
Medicina de São José do Rio Preto (Famerp), com apoio da FAPESP (projetos 23/17655-1, 23/03915-1 e 23/08792-5), testaram o anakinra, um
medicamento já aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)
para o tratamento da artrite reumatoide, como forma de reduzir a inflamação em
rins de doadores falecidos antes do transplante, num processo que pode melhorar
a função do órgão e aumentar seu aproveitamento.
O estudo recebeu o prêmio de
melhor trabalho no Congresso
Latino-Americano de Transplantes, em
outubro de 2025 no Paraguai, em reconhecimento à sua relevância científica e ao
potencial impacto clínico na área de transplante renal. “Buscamos uma maneira
de melhorar a qualidade dos rins doados utilizando uma droga segura, acessível
e já aprovada para uso clínico”, explica Mário Abbud-Filho, orientador
do estudo.
Segundo o pesquisador, no
Brasil entre 60% e 70% dos pacientes que recebem um rim de doador falecido
desenvolvem insuficiência renal aguda temporária logo após o transplante, taxa
duas vezes maior do que a observada na Europa e nos Estados Unidos. Essa
diferença tem relação direta com o tempo e as condições em que o órgão é
preservado.
“O tempo que o rim passa
resfriado, a manutenção do doador na UTI, o transporte e a manipulação
influenciam muito o resultado. Esse período prolongado de isquemia fria causa
um tipo de ‘adormecimento’ no rim, o que pode levar o paciente a passar semanas
internado em diálise até que o órgão volte a funcionar plenamente”, diz
Abbud-Filho. “Isso significa maior tempo de hospitalização, mais comorbidades e
mais custo para o sistema de saúde.”
Além disso, os rins de doadores
classificados como “critérios estendidos” (geralmente mais idosos ou com outras
comorbidades) apresentam maior risco de mau funcionamento a longo prazo e são
frequentemente rejeitados pelos centros transplantadores. “A nossa pergunta
para iniciar esse estudo foi: como podemos melhorar a qualidade desses órgãos
para aumentar o aproveitamento e a oferta de rins viáveis para o transplante?”,
explica o pesquisador.
Atualmente, uma das tecnologias
mais promissoras para melhorar a preservação de órgãos é o uso da máquina de
perfusão, que mantém o rim continuamente irrigado com solução oxigenada e
nutrientes, simulando a circulação sanguínea até o momento do transplante. A
técnica reduz os danos causados pela falta de oxigenação e aumenta as chances
de o órgão funcionar adequadamente após o implante.
Apesar dos bons resultados, o
método ainda é pouco acessível no Brasil: apenas um centro transplantador
utiliza a perfusão de forma rotineira – reflexo do alto custo dos equipamentos
e insumos. No restante do país, o procedimento padrão continua sendo armazenar
o órgão a cerca de 4 °C em caixas de isopor com gelo – técnica simples e de
baixo custo, mas um pouco menos eficaz na preservação da função renal.
“Cada órgão perfundido custa
cerca de R$ 15 mil a mais, o que elevaria em 50% o valor do transplante no SUS
[Sistema Único de Saúde]”, afirma Abbud-Filho. Mas, embora o custo inicial seja
mais elevado, estudos internacionais indicam que o uso da máquina de perfusão
pode diminuir complicações, encurtar o tempo de internação e, a longo prazo,
representar economia para o sistema de saúde.
Foi por isso que a equipe
decidiu testar o potencial do anakinra como alternativa usando as máquinas de
perfusão como meio ideal para levar o fármaco diretamente ao tecido renal.
“Sabemos que a inflamação começa ainda no doador, logo após a morte cerebral”,
explica Heloísa Cristina Caldas,
pesquisadora responsável pelo auxílio FAPESP. “Esse processo é agravado pelo
tempo em que o órgão fica armazenado em baixa temperatura. Então decidimos
adicionar a droga à máquina de perfusão, buscando reduzir a resposta
inflamatória e preservar melhor o rim.”
A pesquisa foi realizada na
University Medical Center Groningen (UMCG), nos Países Baixos, em parceria com
o grupo da Famerp e dentro da colaboração internacional estabelecida no âmbito
do projeto. Foram utilizados 24 rins de suínos, escolhidos por sua semelhança
com os humanos. Os órgãos foram divididos em três grupos: o primeiro não
recebeu tratamento; o segundo teve a droga adicionada durante a perfusão
hipotérmica (a frio, cerca de 4 °C); e o terceiro recebeu o medicamento durante
a perfusão normotérmica (a 37 °C), simulando o momento do transplante.
Os resultados foram animadores.
“Conseguimos reduzir significativamente a expressão de citocinas inflamatórias
nos rins tratados, tanto na perfusão a frio quanto na reperfusão”, relata Ludimila Leite Marzochi, autora principal do estudo. “O anakinra
bloqueou a inflamação e melhorou o perfil molecular dos órgãos.”
Outro dado importante é que a
droga se mostrou segura, sem causar danos aos tecidos renais. “A análise de
toxicidade mostrou que a anakinra não provoca lesão nem afeta a função do órgão,
o que é um passo importante para que possa ser testada em rins humanos”,
acrescenta a pesquisadora.
Teste em
humanos
O próximo passo do grupo será testar o medicamento em rins humanos descartados, em parceria com um centro de pesquisa em Indiana (EUA), onde Marzochi realizará uma nova etapa do projeto a partir de 2026. “A ideia é avançar para um cenário mais próximo da prática clínica e avaliar a viabilidade de uso em transplantes reais”, explica.
Abbud-Filho acredita que, se os
resultados se confirmarem na pesquisa com rins humanos, o próximo passo será
testar o uso desse medicamento no método tradicional de preservação estática,
em que o rim é mantido em uma solução fria dentro da caixa de isopor, prática
usada em quase todos os centros transplantadores do país.
“Se conseguirmos adicionar o
anakinra à solução usada hoje, poderíamos melhorar a qualidade dos rins sem
grandes investimentos em tecnologia. Isso reduziria o tempo de internação,
melhoraria os desfechos dos transplantes e seria economicamente viável”,
afirma.
Para os pesquisadores, o estudo
reforça a importância de buscar soluções viáveis e de alto impacto capazes de
unir inovação tecnológica e aplicabilidade clínica. “O Brasil precisa avançar
no uso das máquinas de perfusão, que já demonstram benefícios concretos na
preservação dos órgãos, mas também desenvolver estratégias que possam ser
incorporadas à realidade do SUS”, observa Abbud-Filho.
O resultado da pesquisa
demonstra que inovação também pode surgir da otimização de tecnologias
disponíveis. “O anakinra pode ser uma ferramenta importante para tratar os rins
antes do transplante e ampliar as chances de sucesso”, diz Marzochi. “Nosso
desafio é transformar esse conhecimento experimental em benefício real para os
pacientes.”
Fernanda Bassette
Agência FAPESP
https://agencia.fapesp.br/droga-para-artrite-reumatoide-tem-potencial-para-melhorar-qualidade-de-rins-para-transplante/56790

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