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| IMAGEM: Zé Carlos Barretta/DC |
Torcedor que é torcedor gosta
de se instrumentar para apoiar a seleção brasileira durante a Copa do Mundo.
Vale vuvuzela, bandeira, chapéu, roupa, gravata, óculos e qualquer produto para
entrar no clima. E como fica o lado empreendedor nessa história? Transformar
essa emoção coletiva em faturamento real, e não apenas movimento ou
visibilidade, exige mais do que bandeirinhas, cardápio verde-amarelo ou
promoções improvisadas.
A diferença entre lucro e
prejuízo está no planejamento, na clareza do modelo de negócio e no controle do
tempo, fator crítico em eventos sazonais, segundo especialistas ouvidos pela
reportagem.
A Copa do Mundo não gera
oportunidades automaticamente, mas concentra consumo em um curto período, o que
pode resultar tanto em ganhos rápidos quanto em prejuízos acelerados,
dependendo da estrutura do negócio, segundo Leonardo Leão, CEO e cofundador da
Brave Educação.
“A diferença entre quem ganha
dinheiro e quem sai frustrado quase nunca está na ideia, mas na capacidade de
planejar, executar e encerrar a operação corretamente”, diz Leão.
Na mesma linha, Vera Ruthofer,
consultora de negócios do Sebrae-SP, afirma que o mercado não está saturado de
oportunidades, e sim de propostas genéricas. Segundo ela, a Copa favorece quem
entende o comportamento do cliente e entrega conveniência, experiência ou uma
solução clara. Não vale apenas apostar em uma decoração temática.
Marcus Rizzo, diretor da Rizzo
Franchise, reforça essa visão ao afirmar que eventos esportivos como a Copa
mexem fortemente com o consumo e que não há saturação prevista; ao contrário,
há potencial de crescimento, desde que o empreendedor entenda o impacto do
tempo limitado do evento.
“O tempo, nesse tipo de
negócio, que deve ser de apenas três meses, é o principal fator para determinar
o investimento para montar e instalar o negócio, pois o valor não poderá ser
diluído ao longo de anos de operação. Além disso, as despesas com locação,
taxas, utilidades (luz, água e internet) e pessoal (salários, indenizações e
extras) também influenciam”, sinaliza Rizzo.
Ele continua: “depois de
calcular com precisão ‘o tempo’, você poderá projetar as compras e as vendas de
acordo com o público passante e/ou frequentador do local onde o negócio será
provisoriamente instalado.”
Como
transformar emoção em faturamento
Um dos erros mais comuns,
segundo os especialistas, é confundir fluxo de pessoas com resultado
financeiro. O faturamento aparece quando a emoção vira estratégia comercial.
Do ponto de vista do Sebrae,
isso passa por ofertas objetivas como combos, kits, pacotes fechados, vendas
antecipadas e ações pensadas para elevar o ticket médio. “Ter muito movimento
sem estratégia gera caixa momentâneo, mas não garante lucro nem sustentabilidade”,
sinaliza Vera.
Leão complementa que negócios
que faturam de verdade na Copa costumam ter três características: ticket médio
elevado; recebimento antecipado, que reduz o risco de caixa e oferta simples;
controle rigoroso de custos e desperdícios. Segundo ele, a Copa favorece quem
vende experiências organizadas, e não quem depende de fluxo espontâneo.
Já Rafael Souza, consultor da
Empreender Dinheiro, destaca que o evento movimenta diversos setores,
especialmente turismo, alimentação e varejo, mas ressalta que ideias criativas
“fora da caixa” podem destravar mais valor. Para ele, o ponto de partida deve
ser sempre as competências do próprio empreendedor, transformadas em negócio
com planejamento.
Quando o
negócio temático vira uma furada
A sazonalidade é o principal
ponto de atenção. Ignorá-la pode transformar rapidamente uma boa ideia em
prejuízo.
Os sinais de alerta, segundo
Vera, incluem custos fixos elevados, estoques grandes, contratações sem prazo
definido e ausência de cálculo do ponto de equilíbrio. “Investimentos de curto
prazo precisam gerar retorno no curto prazo.”
Leão aponta riscos como
investimento alto em estrutura fixa, estoque personalizado sem plano de
liquidação, dependência do desempenho da seleção e falta de projeções
financeiras para cenários ruins, como eliminação precoce ou jogos em horários
desfavoráveis. Quando o lucro depende de tudo sair perfeitamente, o risco está
mal dimensionado.
Para Rizzo, o tempo é o fator
mais crítico. Ele estima que a janela real da Copa seja de cerca de três meses,
o que dificulta diluir investimentos e despesas como aluguel, taxas, utilidades
e pessoal. Sem considerar esse limite temporal, o negócio tende a nascer
desequilibrado.
Como
calcular o investimento em um negócio da Copa do Mundo?
Souza acrescenta que é
fundamental colocar todos os custos na ponta do lápis, desde aquisições e
impostos até cenários conservadores e pessimistas, e, principalmente, retirar o
viés emocional da decisão. Segundo ele, interromper uma ideia inviável ainda no
papel é um sinal de inteligência financeira.
Em investimentos, ele explica,
existe um conceito de Taxa Mínima de Atratividade (TMA), que varia de pessoa
para pessoa. “Dado que temos uma taxa de juros de cerca de 15% ao ano, qualquer
investimento de risco deveria remunerar um excedente, principalmente quando
envolve negócios na economia real em que, além de investirmos dinheiro, temos
que investir nosso tempo também. Logo, ao simular cenários, valide se o capital
empregado vai ter um retorno maior do que uma boa TMA para justificar o tempo e
o dinheiro empregados.”
Para quem
esse tipo de negócio faz mais sentido
Há consenso entre os
especialistas de que negócios temáticos de Copa do Mundo funcionam melhor para
quem já empreende.
Vera explica que empreendedores
em atividade conseguem aproveitar estrutura, fornecedores e base de clientes,
enquanto iniciantes devem optar por modelos enxutos, digitais ou temporários,
com baixo investimento inicial.
Leão reforça que empresas
existentes conseguem diluir custos fixos, testar ofertas com menos risco e
errar menos em um evento curto, em que não há tempo para aprender com tentativa
e erro.
Rizzo é ainda mais direto:
negócios sazonais exigem profissionais experientes e o risco é triplicado para
aventureiros.
Souza, por outro lado, avalia
que pode funcionar tanto para quem já empreende quanto para quem quer começar,
desde que o empreendedor tenha disposição para dedicar energia intensa no início
e não delegue demais antes de o negócio estar estruturado.
Quais
modelos tendem a funcionar melhor
Os modelos mais citados pelos
especialistas têm características em comum:
- Baixo custo fixo;
- Flexibilidade;
- Prazo claro de início e fim;
e
- Controle rigoroso da
operação.
Entre os formatos com melhor
desempenho estão:
- Alimentação;
- Delivery com cardápio
reduzido;
- Produtos personalizados sob
demanda;
- Eventos pagos;
- Experiências premium;
- Ativações corporativas; e
- Serviços ligados ao consumo
pontual da Copa.
Leonardo Leão alerta que
estruturas grandes montadas exclusivamente para o evento exigem volume
constante e margem alta, algo difícil de sustentar. Já Rizzo destaca que, mais
do que o produto, é a operação profissional (entrega, atendimento e oferta) que
determina o sucesso, pois não há tempo para corrigir erros.
Souza reforça que não existe
resposta pronta: o melhor modelo depende do contexto, da aptidão do
empreendedor e da matemática do negócio. Sem planejamento financeiro, a iniciativa
deixa de ser investimento e vira aposta.
O pós-Copa
começa antes do apito inicial
Planejar o fim é tão importante
quanto planejar o começo. Segundo Vera, estratégias como reaproveitar
estrutura, manter relacionamento com clientes, capturar contatos e adaptar o
mix de produtos ajudam a garantir saúde financeira após o evento.
Leão afirma que todo negócio
sazonal precisa nascer com uma estratégia clara de encerramento: converter
clientes, reaproveitar ativos ou simplesmente encerrar a operação com lucro e
zero passivos.
Souza amplia essa visão ao
dizer que o objetivo do empreendedor não deve ser renda temporária, mas
perenidade. Para isso, é essencial pensar desde o início em como o negócio pode
continuar após a Copa, seja participando de outros eventos, seja fortalecendo
marca e presença digital para futuras vendas.
Rizzo conclui que cuidar da
operação e do atendimento é fundamental, pois produtos serão rapidamente
copiados. Ele também alerta para práticas que geram rejeição do consumidor,
como preços abusivos em locais confinados (shoppings, aeroportos, galerias),
erros que deixam marcas negativas difíceis de apagar.
Dicas
práticas dos especialistas para não errar na Copa
- Planeje o negócio para se
pagar durante o evento, não depois;
- Priorize custos variáveis e
evite estrutura fixa pesada;
- Trabalhe com ticket médio
alto e ofertas organizadas;
- Faça projeções financeiras
para cenários ruins, não só otimistas;
- Comece pelo que você já tem
expertise ou aptidão;
- Formalize o negócio e entenda
os impostos envolvidos para evitar problemas futuros;
- Cuide da operação e do
atendimento: produto sozinho não salva o negócio; e
- Defina desde o início como o
negócio vai terminar ou se transformar após a Copa do Mundo.
https://www.dcomercio.com.br/publicacao/s/copa-do-mundo-vale-a-pena-abrir-um-negocio-tematico

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