As chamadas “fases exóticas da
matéria” constituem, hoje, importante foco de atenção da pesquisa científica.
Por dois motivos: do ponto de vista da ciência básica, elas compõem um
continente quase inexplorado da física quântica; do ponto de vista da ciência
aplicada, são matrizes de tecnologias emergentes, entre elas, a computação
quântica robusta.
Um estudo recente conduzido por
colaboração internacional de pesquisadores mostrou que um composto de férmions
pesados, o CeRu₄Sn₆, abriga um estado eletrônico
inteiramente novo: um semimetal topológico, estabilizado não apesar, mas graças
à criticalidade quântica (descrições sumárias dos principais conceitos
físicos referidos nesta reportagem estão disponíveis em glossário no final do
texto). Artigo a respeito foi publicado quarta-feira
(14/01) na Nature Physics.
“O trabalho amplia o repertório
de fases exóticas da matéria e sugere que pontos críticos quânticos podem
funcionar como ‘berçários’ de estados topológicos fortemente correlacionados”,
diz o físico Julio Larrea Jiménez, professor do Instituto de Física da
Universidade de São Paulo (IF-USP), cofundador e chefe do Laboratory for
Quantum Matter under Extreme Conditions (LQMEC) do instituto e um dos autores
do artigo.
Materiais topológicos são
aqueles cujas propriedades eletrônicas são protegidas por simetrias: pequenas
impurezas, deformações ou flutuações não conseguem destruir facilmente o estado
quântico global. O interesse por esse tipo de material é fácil de entender,
pois, se a topologia protege o estado quântico contra perturbações locais, isso
pode se tornar um recurso para armazenar e manipular informação quântica com
menos decoerência: o grande desafio para o desenvolvimento da computação
quântica.
Segundo Larrea, o avanço
proporcionado pelo estudo foi mostrar experimentalmente que simetrias
sofisticadas, associadas a topologias não triviais, como a quiralidade, podem
promover estados quânticos diferentes daqueles estudados há quase um século por
meio da equação de Schrödinger. Vale dizer que, além dos estados anteriormente
conhecidos, existem outros, condicionados pela atuação de simetrias inusuais
sobre o sistema.
“A forma como os elétrons se
organizam em um material, a chamada topologia trivial’, gerada por simetrias
convencionais, costuma ser descrita por meio dos estados de Bloch. Em materiais
metálicos, as interações entre os elétrons normalmente são tratadas usando-se a
ideia de quase-partículas. Mas no composto de férmions pesados CeRu₄Sn₆, em um estado de criticalidade quântica genuína, essas quase-partículas
simplesmente deixam de existir. Mesmo assim, de maneira surpreendente,
encontramos, nesse regime extremo, o surgimento de um semimetal topológico”,
afirma Larrea.
Para compreender esse fenômeno,
os autores estudaram um modelo teórico de semimetal no ponto crítico em que o
efeito Kondo é destruído. Esse modelo mostra que, mesmo sem quase-partículas
bem definidas, ainda podem surgir cruzamentos topológicos nas bandas
eletrônicas, criados pelas próprias flutuações quânticas do sistema.
“Em condições normais, o
sistema CeRu₄Sn₆ exibe um entrelaçamento entre
elétrons de condução e elétrons da camada 4f do cério – o chamado efeito Kondo.
Mas, quando submetido a condições extremas de pressão, campo magnético e
temperaturas próximas do zero absoluto, esse entrelaçamento se rompe e o
material atinge um ponto crítico quântico, no qual as flutuações quânticas
passam a dominar toda a dinâmica. É nesse limite que surge a nova fase
topológica”, comenta Larrea.
Nesse cenário, os pesquisadores
observaram que o CeRu₄Sn₆ apresenta
um efeito Hall espontâneo – isto é, o aparecimento de uma voltagem transversal
sem a aplicação de um campo magnético externo. Esse tipo de resposta é típico
de semimetais de Weyl. No modelo teórico proposto no artigo, a equipe
considerou um semimetal de Weyl-Kondo no limite de destruição de Kondo, quando
as flutuações quânticas são tão intensas que dissolvem o fluido de férmions
pesados. No entanto, ao invés de desmontar completamente a estrutura
eletrônica, essas flutuações geraram novos tipos de cruzamentos topológicos.
Larrea ressalta que o cerne do
estudo foi combinar interações e simetrias. “Nosso experimento forneceu a
primeira demonstração empírica de um processo até então predominantemente
teórico”, sintetiza.
Na região crítica, o quadro
tradicional, de quase-partículas bem definidas e o parâmetro de ordem que
define um estado termodinâmico, falha. O que o novo trabalho mostrou foi que,
exatamente onde as bandas eletrônicas ficam “malcomportadas” e as excitações de
baixas energias “substituem” o parâmetro de ordem, um estado topológico pode
emergir. Não apesar da criticalidade quântica, mas como um produto direto dela.
Nos últimos anos, a topologia
virou uma nova linguagem da física. Estados protegidos por simetrias
topológicas são robustos contra perturbações e explicam fenômenos que antes
pareciam desconectados. Esse caminho de investigação já foi contemplado com o
Prêmio Nobel de Física em 2016, concedido a David Thouless, Duncan Haldane e
Michael Kosterlitz, “por descobertas teóricas de transições de fase topológicas
e fases topológicas da matéria”.
Do ponto de vista experimental,
pressões extremas, temperaturas da ordem do milikelvin, campos magnéticos
intensos e materiais 2D permitem fabricar estados quânticos inéditos. Isso abre
territórios antes inacessíveis à experimentação. E vem mostrando que há muito
mais possibilidades de organização quântica da matéria do que se supunha, o que
faz das fases exóticas um grande desafio conceitual e um caminho altamente
promissor para novas tecnologias.
O novo estudo se insere nessa
grande vertente. Foi apoiado pela FAPESP por meio de Auxílio a Jovem Pesquisador concedido a Larrea.
O artigo Emergent
topological semimetal from quantum criticality pode ser lido em: nature.com/articles/s41567-025-03135-w.
Glossário
Férmions
Pesados – Quase-partículas eletrônicas
cujo movimento, devido ao efeito Kondo, corresponde ao de uma massa efetiva
centenas de vezes maior que a massa do elétron livre.
Semimetal
Topológico – Material cuja estrutura
eletrônica apresenta pontos ou linhas de contato entre as bandas de valência e
de condução, protegidos por propriedades topológicas e simetrias. Nesses
materiais, os elétrons se comportam como quase-partículas relativísticas,
levando a fenômenos incomuns, como alta mobilidade eletrônica, estados
quânticos na superfície robustos etc.
Criticalidade
Quântica / Ponto Crítico Quântico –
Transição de fase contínua que ocorre na temperatura do zero Kelvin,
impulsionada por flutuações quânticas, em torno da qual surgem estados
eletrônicos não convencionais.
Quiralidade – Propriedade de um objeto que não pode ser sobreposto à sua
imagem no espelho, como acontece com a mão direita e a esquerda.
Equação de
Schrödinger – Fórmula matemática, proposta
pelo físico austríaco Erwin Schrödinger (1887-1961) em 1926, que descreve a evolução
de sistemas quânticos por meio de uma função de onda que contém toda a
informação sobre como um elétron, átomo ou qualquer sistema microscópico muda
no tempo, permitindo calcular probabilidades de posição, energia e outros
observáveis.
Estados de
Bloch – Funções de onda que descrevem
as partículas (como os elétrons) em um ambiente com potencial periódico (como
um cristal). São soluções da equação de Schrödinger nesse contexto e
fundamentais para entender as propriedades eletrônicas em sólidos, como a
formação de estruturas de banda.
Quase-partículas – Conceito introduzido pelo físico soviético Lev Davidovich Landau
(1908-1968) que descreve as excitações coletivas que surgem quando muitos
corpos interagem de modo organizado, fazendo o sistema comportar-se como se
partículas efetivas existissem. As quase-partículas têm propriedades bem
definidas (energia, momento etc.) e permitem descrever sistemas complexos (como
líquidos quânticos e sólidos) com a simplicidade de um gás de partículas
efetivas.
Efeito
Kondo – Fenômeno descrito pelo físico
japonês Jun Kondo (1930-2020), no qual a interação em baixas temperaturas entre
elétrons de condução e momentos magnéticos localizados gera uma quase-partícula
híbrida, muito massiva (férmions pesados).
Efeito
Hall espontâneo – Geração de voltagem
transversal sem aplicação de campo magnético externo.
Semimetal
de Weyl – Estado eletrônico topológico
em que pares de pontos de Weyl (cruzamentos lineares de bandas) dominam as
propriedades de transporte, levando a respostas anômalas, como o efeito Hall
espontâneo. Este estado topológico está protegido pela simetria quiralidade.
Semimetal
Weyl-Kondo – Versão fortemente
correlacionada do semimetal de Weyl, em que os nós topológicos emergem de um
fluido de férmions pesados e são nucleados pela criticalidade quântica.
Agência FAPESP
https://agencia.fapesp.br/flutuacoes-quanticas-fazem-emergir-um-novo-tipo-de-semimetal-topologico/56963

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