Prisão de um homem de 32 anos que enviava mensagens e imagens de cunho sexual a uma menina de 13 anos expõe uma realidade alarmante no Brasil. Dados mostram que mais de 67 mil crianças e adolescentes foram vítimas de estupro em 2024. Para a pedagoga Mariana Ruske, enfrentar a adultização precoce e o aliciamento exige ação contínua, conjunta e coordenada entre família e escola especialmente no ambiente digital
A
violência sexual contra crianças e adolescentes segue sendo uma das faces mais
graves da vulnerabilidade infantil no Brasil. Em 2024, o país registrou 87.545
casos de estupro, sendo 67.200 classificados como estupro de vulneráveis crimes
cometidos contra crianças e adolescentes menores de 14 anos ou pessoas
incapazes de consentir. Esses casos representam 76,8% do total, e cerca de 75%
das agressões ocorreram dentro da própria casa da vítima. Segundo dados do
IPEA, a subnotificação chega a 91,5%, o que indica que o número real de
ocorrências pode ultrapassar 700 mil casos não reportados.
Para
Mariana Ruske, pedagoga e fundadora da Senses Montessori School, os números
revelam que a violência contra crianças não está restrita ao mundo físico. “A
internet se tornou mais um território de risco, especialmente quando falamos de
aliciamento, sexualização precoce e exposição a conteúdos inadequados”, afirma.
“Crianças
expostas cedo a conteúdos sexualizados apresentam maiores índices de ansiedade,
depressão e distorção da autoimagem. A escola pode e deve criar espaços de
diálogo, oficinas e guias sobre segurança digital, mas é fundamental lembrar
que ela não resolve o problema sozinha. É preciso uma cultura familiar forte,
capaz de orientar a criança mesmo quando os pais não estão presentes.”
O que a escola pode (e não pode) fazer
Segundo
Mariana, o ambiente escolar tem papel essencial na educação digital e no
desenvolvimento do senso crítico, desde que respeite o estágio de
desenvolvimento cerebral de cada faixa etária. “Crianças na educação infantil
não devem ser expostas a telas. Elas aprendem pelo concreto, pela interação
real. O acesso livre às redes só deveria acontecer quando há maturidade
emocional. Antes dos 16 anos, não existe estrutura psíquica suficiente para
lidar com comparações constantes, validação externa e riscos do ambiente
online.”
A
pedagoga destaca ainda a importância de professores e funcionários estarem
atentos a sinais de alerta, como vocabulário excessivamente adulto,
brincadeiras sexualizadas, ansiedade com a aparência ou mudanças bruscas de
comportamento.
“A exposição à pornografia ou a conteúdos libidinosos não é apenas preocupante
é crime. Meninos e meninas reagem de formas diferentes: elas tendem a sofrer
mais com questões de autoimagem; eles, com vício em games e pornografia. Mas,
ambos estão vulneráveis ao aliciamento.”
Ação conjunta e contínua
Para
Mariana, proteger não significa proibir, mas mediar e acompanhar. “Precisamos
de constância. Em vez de ações pontuais, é necessário criar um calendário
contínuo de encontros e trocas entre família e escola. Fortalecer autoestima,
resiliência e autonomia emocional desde cedo é essencial para que a criança não
dependa da aprovação externa e tenha segurança para dizer não.”
Ela
também defende uma postura mais firme do país diante da sexualização infantil
nas redes. “A indústria da pornografia, do aliciamento e da monetização da
atenção infantil movimenta bilhões e está moldando o cérebro das próximas
gerações. Quem ainda não percebeu que estamos em uma guerra, está dormindo. O
preço da inércia será pago pelas crianças de hoje.”
Mariana Ruske - Pedagoga da Senses Montessori School
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