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sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Caso de homem que marcou encontro com adolescente reacende urgência: como pais e escolas podem proteger crianças

Prisão de um homem de 32 anos que enviava mensagens e imagens de cunho sexual a uma menina de 13 anos expõe uma realidade alarmante no Brasil. Dados mostram que mais de 67 mil crianças e adolescentes foram vítimas de estupro em 2024. Para a pedagoga Mariana Ruske, enfrentar a adultização precoce e o aliciamento exige ação contínua, conjunta e coordenada entre família e escola especialmente no ambiente digital

 

A violência sexual contra crianças e adolescentes segue sendo uma das faces mais graves da vulnerabilidade infantil no Brasil. Em 2024, o país registrou 87.545 casos de estupro, sendo 67.200 classificados como estupro de vulneráveis crimes cometidos contra crianças e adolescentes menores de 14 anos ou pessoas incapazes de consentir. Esses casos representam 76,8% do total, e cerca de 75% das agressões ocorreram dentro da própria casa da vítima. Segundo dados do IPEA, a subnotificação chega a 91,5%, o que indica que o número real de ocorrências pode ultrapassar 700 mil casos não reportados.

Para Mariana Ruske, pedagoga e fundadora da Senses Montessori School, os números revelam que a violência contra crianças não está restrita ao mundo físico. “A internet se tornou mais um território de risco, especialmente quando falamos de aliciamento, sexualização precoce e exposição a conteúdos inadequados”, afirma.

“Crianças expostas cedo a conteúdos sexualizados apresentam maiores índices de ansiedade, depressão e distorção da autoimagem. A escola pode e deve criar espaços de diálogo, oficinas e guias sobre segurança digital, mas é fundamental lembrar que ela não resolve o problema sozinha. É preciso uma cultura familiar forte, capaz de orientar a criança mesmo quando os pais não estão presentes.”
 

O que a escola pode (e não pode) fazer

Segundo Mariana, o ambiente escolar tem papel essencial na educação digital e no desenvolvimento do senso crítico, desde que respeite o estágio de desenvolvimento cerebral de cada faixa etária. “Crianças na educação infantil não devem ser expostas a telas. Elas aprendem pelo concreto, pela interação real. O acesso livre às redes só deveria acontecer quando há maturidade emocional. Antes dos 16 anos, não existe estrutura psíquica suficiente para lidar com comparações constantes, validação externa e riscos do ambiente online.”

A pedagoga destaca ainda a importância de professores e funcionários estarem atentos a sinais de alerta, como vocabulário excessivamente adulto, brincadeiras sexualizadas, ansiedade com a aparência ou mudanças bruscas de comportamento.
“A exposição à pornografia ou a conteúdos libidinosos não é apenas preocupante é crime. Meninos e meninas reagem de formas diferentes: elas tendem a sofrer mais com questões de autoimagem; eles, com vício em games e pornografia. Mas, ambos estão vulneráveis ao aliciamento.”
 

Ação conjunta e contínua

Para Mariana, proteger não significa proibir, mas mediar e acompanhar. “Precisamos de constância. Em vez de ações pontuais, é necessário criar um calendário contínuo de encontros e trocas entre família e escola. Fortalecer autoestima, resiliência e autonomia emocional desde cedo é essencial para que a criança não dependa da aprovação externa e tenha segurança para dizer não.”

Ela também defende uma postura mais firme do país diante da sexualização infantil nas redes. “A indústria da pornografia, do aliciamento e da monetização da atenção infantil movimenta bilhões e está moldando o cérebro das próximas gerações. Quem ainda não percebeu que estamos em uma guerra, está dormindo. O preço da inércia será pago pelas crianças de hoje.”



Mariana Ruske - Pedagoga da Senses Montessori School


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