Sempre que se inicia um projeto de produto ou de solução tecnológica, como um aplicativo, um sistema ou um site, as primeiras perguntas que surgem são “quem é o público?”, “qual a definição de perfil?” e, como se diz no desenho do plano de ação, “qual a persona?”.
Entende-se que, ao definir um conjunto
de atributos, qualidades, desejos, local de moradia, condição social ou grau de
instrução, pode-se direcionar as soluções a esse perfil amplo e representativo
de uma categoria de pessoas, como os indivíduos que pertencem a essa classe
devem preferir ou querer e, com isso, aumentar de sobremaneira a chance de
“acertar na mosca” e, assim, oferecer de modo muito preciso as soluções
desejadas, seja na forma, no conteúdo ou no detalhe.
O que normalmente se faz é estabelecer
essas características segundo algumas dimensões. Por exemplo:
Demográfica: Mulheres, de meia idade,
alta renda, boa formação profissional, mães, moradoras de bairros de classe
alta B.
Econômica: Renda acima dos 40 salários
mínimos, alto poder de compra, gosto pelo luxo ou marcas diferenciadoras.
Costumes: Gostam de viajar, são
independentes, têm grande círculo de amigos, trocam de carro no máximo a cada 3
anos.
E assim por diante, podendo classificar
viés político, gosto por arte, opiniões nas redes sociais, time de preferência,
gosto por praia ou campo, esporte praticado, estado civil, modelo de
relacionamento, entre tantos outros atributos que qualifiquem e permitam o
agrupamento em torno de uma predição de consumo ou tendência de decisão.
Mas como lidar com isso quando o grande
prestador de serviço é o Estado, o governo, seja federal, estadual ou
municipal? O Estado não pode se dar ao luxo desses recortes, classificações ou
escolhas. O estado é para todos e, aqui, todos deve significar absolutamente
todos.
Não importa para o serviço público
prestado quais os atributos demográficos, salvo os que definem se o serviço
pode ou não ser entregue a alguém, como restrição maior ou menor de idade, por
exemplo. Não cabe uma oferta para os abastados e outra para os mais humildes
ou, ainda, para os que concordam com as premissas políticas de um governo em
detrimento aos que dela discordam. Pelas paixões, pelas decisões de cunho
íntimo, pela profissão escolhida ou pelo time de preferência.
Ou seja, e repetindo, quando dizemos
que a oferta de serviços públicos é para todos, é para absolutamente
todos. Como, então, tratar as diferenças? As necessidades específicas? As
capacidades individuais? Os diferentes modelos mentais? Idades, crenças,
gêneros? Eis aí o enorme desafio que gostaria de chamar a atenção do leitor.
Derivada dessa generalidade e amplitude
de alcance dos serviços públicos ofertados a uma população inteira, também é
ampla e irrestrita a fronteira de atributos dos usuários dos sistemas, soluções
e canais de relacionamento com os governos - mediados pela tecnologia que
claramente deve dar cobertura às condições diferentes de quem é igualmente
cidadão.
Na proposta de digitalização de
determinados serviços de balcão, não raro nos defrontamos com pessoas de mais
idade que não lidam bem com a tecnologia. No uso dos novos modelos de
comunicação é comum encontrarmos quem tem restrições no acesso, na leitura ou
entendimento do conteúdo. Ou ainda que está limitado por uma restrição motora
temporária ou permanente. É comum a tentação de oferecermos soluções que funcionem
num aparelho de smartphone com capacidades elevadas, acima das mais simples
do mercado. Fato é que a cidadania não se importa com o modelo do smartphone
disponível, ou seja, as soluções tecnológicas do serviço público devem se
orientar pelo mais amplo, pelo mais acessível e pelo mais democrático.
Isso pode nos fazer crer que o estudo
do uso (usabilidade) perdeu sua importância. Nada disso. Na verdade, ganha
muito em espaço e assume um desafio muito maior do que o original: o de ser
inclusivo, engajador e útil a um número muito maior de perfis teoricamente
desenhados e de proporcionar o crescimento impactante da cidadania
independentemente de critérios escolhidos.
Por isso, tomo a liberdade de adaptar,
mas repetir, algo dito nas linhas acima: “A tecnologia ofertada aos cidadãos
como serviço público deve atender a todos, absolutamente todos”. Este é mais um
desafio do que um método.
Mauricio Pimentel -
diretor de Sistemas e Inovação no Instituto das Cidades Inteligentes.
Palestrante, professor de MBA, apaixonado por gente e por tecnologia.
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