Constatação foi feita por pesquisadores da USP ao comparar células de defesa de pacientes com DPOC, idosos saudáveis, fumantes e adultos jovens. Achado ajuda a explicar por que esses indivíduos são menos responsivos a vacinas e mais suscetíveis a infecções (imagem: Wikimedia Commons)
Pesquisa desenvolvida na Faculdade de
Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP) e publicada na revista Immunity & Ageing coloca
a doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) entre as que levam a um
envelhecimento precoce do sistema imunológico. O achado pode ser um caminho
para explicar o motivo de indivíduos com a doença apresentarem menor resposta a
vacinas e serem mais suscetíveis a processos infecciosos, por exemplo.
Os pesquisadores concluíram que
pacientes com DPOC apresentam um conjunto de alterações ligadas ao
envelhecimento celular, processo chamado de imunossenescência, que afeta os
linfócitos T CD4+ e CD8+, prejudicando a resposta imunológica.
Para realizar o estudo, foram
recrutadas 92 pessoas, distribuídas em quatro grupos: pacientes com DPOC,
fumantes sem evidência de doença pulmonar, idosos saudáveis e adultos jovens.
Os cientistas analisaram sete marcadores associados à diferenciação tardia,
senescência e exaustão celular para cada um desses grupos.
Concluíram que os pacientes com doença
pulmonar obstrutiva crônica têm células que expressam uma gama completa de
fenótipos senescentes ou esgotados, consistente com características do
envelhecimento prematuro do sistema imunológico.
A DPOC é uma doença inflamatória
crônica caracterizada pela obstrução do fluxo aéreo e comumente induzida pela
fumaça do cigarro e pela poluição atmosférica. Afeta cerca de 64 milhões de
pessoas no mundo, segundo estimativa da Organização Mundial da Saúde (OMS),
sendo aproximadamente 6 milhões no Brasil, dos quais 60% dos casos seriam de
fumantes ou ex-fumantes.
“Com o aumento da população idosa,
entender os mecanismos envolvidos na imunossenescência é importante em vários
aspectos. Compreender como lidar com o organismo dessas pessoas, mais propenso
a cânceres, infecções e menos responsivas a vacinas, pode abrir caminhos para
buscar um melhor funcionamento do sistema imunológico. Esse trabalho ajuda a
entender o que acontece e onde é possível tentar atuar”, explica o
professor Gil Benard, do Laboratório de Dermatologia e
Imunodeficiências da FM-USP e orientador do estudo, que teve o apoio da FAPESP.
Primeira autora da pesquisa, resultado
de seu doutorado, Juliana Ruiz Fernandes explica que, ao comparar dados de pessoas da
mesma idade, as com DPOC tiveram envelhecimento das células T acelerado. “O
fenótipo dos linfócitos desses indivíduos parece mais velho se comparado aos
que não têm o processo inflamatório crônico”, diz Fernandes à Agência
FAPESP.
Já no grupo de fumantes, os resultados
sugerem que o tabagismo crônico moderado a intenso não acelerou o ritmo da
imunossenescência em comparação com os idosos saudáveis. “A DPOC acabou
interferindo mais nos pacientes do que a idade, afetando drasticamente o
sistema imune”, completa a doutoranda Thalyta Nery Carvalho Pinto, também autora do artigo.
Em sua tese de mestrado, em 2016,
Fernandes havia mostrado o efeito do exercício físico na resposta imune de
pacientes com DPOC, concluindo que o programa de reabilitação foi capaz de
desacelerar alguns parâmetros da senescência celular, melhorando a resposta
imunológica de linfócitos.
À época, os resultados já sugeriam que indivíduos com a doença apresentavam
maior proporção de células com perfil de exaustão e menor capacidade funcional.
“Agora tentamos entender os tipos celulares envolvidos na DPOC e nos
idosos”, diz a pesquisadora.
Para entender
A imunossenescência é marcada pela
diminuição do total de células T jovens (chamadas pelos cientistas de naive)
e pelo aumento dos linfócitos de memória, que têm três dinâmicas de fase
durante a vida humana.
A primeira é caracterizada por um pool de
células jovens, que ao longo do tempo se tornam células de memória em resposta
à estimulação com antígenos específicos. A segunda fase (chamada de homeostase
de memória) é caracterizada pela circulação de células T de memória, que
atingem um platô e são mantidas durante a vida adulta.
Na terceira etapa, após um longo
período de estabilidade, a frequência e a funcionalidade das células T de
memória mudam, aumentando a suscetibilidade a infecções causadas por
desregulação imunológica como parte do declínio fisiológico.
No trabalho, os pesquisadores
detectaram uma “desordem” nesse ciclo do sistema imune em pacientes com DPOC.
Eles apresentaram não apenas um pool reduzido de células naive disponíveis
para respostas imunes, mas também, paradoxalmente, frações aumentadas dessas
células com características de diferenciação, senescência ou exaustão quando
comparados aos idosos saudáveis e aos fumantes.
“Vimos também que a imunossenescência e
as alterações registradas em indivíduos com DPOC são mais acentuadas nos
linfócitos T CD8+, que atuam como uma espécie de ‘soldado’ responsável por
executar a resposta imune no organismo humano”, afirma Benard.
Agora, com uma amostra de indivíduos
diferente da anterior, o grupo de cientistas está estudando como é a resposta
dos linfócitos do tipo B em pacientes com DPOC. Também busca avaliar como
essas pessoas estão respondendo à vacina da COVID-19.
O artigo Age-associated
phenotypic imbalance in TCD4 and TCD8 cell subsets: comparison between healthy
aged, smokers, COPD patients and young adultspode ser lido em: https://immunityageing.biomedcentral.com/articles/10.1186/s12979-022-00267-y#Bib1.
Luciana Constantino
Agência FAPESP
https://agencia.fapesp.br/doenca-pulmonar-obstrutiva-cronica-causa-o-envelhecimento-precoce-do-sistema-imune-sugere-estudo/38399

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