As iniciativas de diversidade, equidade e inclusão são importantes e refletem direto na sociedade. Quando existe um ambiente acolhedor e inclusivo em um país, onde os cidadãos desfrutam de oportunidades equalitárias, seja através de educação pública de qualidade, cuidados com a saúde adequados, acesso a moradias e saneamento básico em condições satisfatórias, alimentação saudável e sem a sensação de viver com medo da polícia ou das milícias, o país possibilita que todos, independentemente de sua raça/etnia, orientação sexual ou religiosa, possam chegar à uma posição de destaque na sociedade e até, em certas situações, em posições executivas nas empresas.
Infelizmente,
não tem sido essa a realidade no Brasil. Temos que mudar a forma de pensar. A
diversidade somos nós! Ou seja, milhões de pessoas diferentes habitando nosso
território nacional e cada uma do seu jeito, com suas crenças, times, valores,
princípios, orientações sexuais, religiões, interesses econômicos, níveis
sociais, profissões, trajetórias e afins. Nenhuma história se repete, cada um é
um universo dentro da sua realidade e essa é a diversidade, a nossa diferença
interna ou externa, visíveis ou não, notáveis ou discretas. Todos somos seres
humanos distintos e únicos.
Imagine
se uma pessoa afrodescendente, oriunda de uma escola pública e família de baixa
renda, consiga chegar à uma alta posição executiva em uma empresa? Os reflexos
disso na sociedade são extremamente importantes. Estamos diante de uma mensagem
de que “é possível” ou uma dose reforçada de esperança nos sonhos de
muitas pessoas. Portanto, não basta falar em diversidade, precisamos tê-la na
prática diária.
Quando
você se interessa pelos temas de diversidade, equidade e inclusão é natural que
você fique mais sensível e observador, principalmente se você atua no ambiente
corporativo, pois o mesmo carece de informação em respeito à diversidade e às
diferenças. Todos os dias, as e empresas perdem talentos importantes para o
negócio, devido ao preconceito ou por não se sentirem em um ambiente seguro e
acolhedor. Falta a sensação de pertencimento, empatia e de
importância/reconhecimento.
Dar
início ao primeiro programa de Diversidade e Inclusão é
um grande desafio, principalmente pelo fato de muitas empresas terem uma
mentalidade conservadora. Apesar de terem um discurso sobre estes temas, não
praticam as atitudes necessárias e, muitas vezes, existe o preconceito ou
racismo disfarçado ou enrustido. Portanto, um dos primeiros passos para iniciar
um programa de diversidade e inclusão deve ser a conscientização de todos em
relação aos temas. Literalmente descontruir estereótipos e rótulos existentes,
abrir-se para o diferente e dar voz, vez e visibilidade.
Falar sobre diversidade, equidade e inclusão é um desafio gigante, a alta gestão precisa estar junto com as iniciativas internas, entender o potencial que a diversidade tem para o negócio, estudos apontam que as empresas com práticas de DE&I obtém resultados cada vez mais diferentes se destacando de seus concorrentes e stakeholders, dar oportunidade para que talentos diferentes dos tradicionais é um ótimo investimento para o negócio.
Quantos
casos temos visto na mídia de racismo, pessoas negras morrendo asfixiadas por
funcionários despreparados no estacionamento da empresa... alarmes instalados
em lojas para sinalizar que pessoas “suspeitas” adentraram às lojas, entre
outros casos não tão distantes. São danos seríssimos para imagem destas empresas.
Retaliações tem ocorrido, as mídias sociais não perdoam e os consumidores
deixam de comprar produtos destas empresas. Então, um abalo a imagem ou
reputação pode até ser fatal para os negócios.
Agora,
pensem nos programas que podem dar oportunidades para egressos (pessoas que
passaram pelo sistema carcerário), ou seja, abrir oportunidades sem
retaliações, sem preconceitos e discriminações, enxergando ali apenas o ser
humano sendo reinserido na sociedade, com direitos e deveres iguais aos demais.
Nota-se que, não estou falando sobre seus crimes ademais, estou falando sobre a
pessoa que busca mudança de vida, mas tem consigo um antecedente criminal
carimbado pelos próximos anos.
Empresas
que possibilitam que pessoas em processo de reinserção à sociedade tenham
oportunidades, não desenvolvem apenas práticas internas, mas refletem
direto na sociedade e cumprem um grande papel social. Ademais demostram empatia
para a sociedade e isso influencia diretamente a decisão de compras ou
investimentos nestas empresas.
Podemos
relembrar também sobre a inclusão da comunidade LGBT+, o grupo gay da Bahia fez
um estudo onde aponta que aproximadamente 93% das pessoas Trans vivem às
margens da prostituição, pelos mais diversos motivos, em sua maioria
encontramos a falta de oportunidade, LGBTfobia, consequências de uma juventude
marcada por violência (física e psicológica), opressão, ameaças, exclusão e as
dificuldades de uma conclusão dos núcleos escolares (fundamental/ médio e
superior).
Sabemos
que o Brasil é o país que mais mata LGBT’s no mundo e só deixaremos este
ranking alarmante, após termos a nossa sociedade consciente, respeitosa,
inclusiva e longe de discriminação e preconceito. Infelizmente, ainda temos um
ambiente de racismo e preconceito sistêmico e endêmico no Brasil. As empresas
precisam atuar como exemplo para a sociedade para que esta mentalidade
ultrapassada e desumana mude o mais rápido possível
O nosso trabalho dentro das organizações terá reflexos diretos em nossa sociedade, isso é inevitável, afinal a empresa é composta por uma fatia de nossa sociedade. As empresas possuem cada vez mais responsabilidade em relação aos referidos temas e devem atuar de forma bastante assertiva para cada vez mais ter a inclusão e diversidade não apenas como valores em um quadro na parede, mas viverem os mesmos diariamente através de suas atitudes. Como diz o ditado popular: “não basta apenas convidar para a festa, tem que chamar para dançar também”.
Patricia Punder - advogada, compliance officer com experiência internacional. Professora de Compliance no pós-MBA da USFSCAR e LEC – Legal Ethics and Compliance (SP). Uma das autoras do “Manual de Compliance”, lançado pela LEC em 2019 e Compliance – além do Manual 2020.
Thiago Pena
– Líder e embaixador de Diversidade, Equidade e Inclusão na Otis Elevadores e
Prof.º convidado na Lec News em DE&I.
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