Mesmo para uma organização como Médicos Sem Fronteiras, que tem no combate a epidemias uma de suas tarefas centrais, a pandemia de COVID-19, declarada há exatamente um ano pela Organização Mundial da Saúde (OMS), representa um desafio sem precedentes.
No último ano, MSF tem
respondido a uma demanda incessante por recursos materiais e humanos e buscado
estar presente nos lugares onde as carências são mais urgentes. No Brasil, a
necessidade por cuidados entre a população mais vulnerável ficou clara
rapidamente, e começamos a atuar no país no começo de abril. Desde então,
colocamos em marcha a maior resposta médica já realizada desde o início de
nossas atividades no país, no começo dos anos 90.
Centenas de trabalhadores humanitários de nossa
organização têm atuado na resposta à COVID no Brasil. Muitos
deles são brasileiros, uma parte com grande experiência internacional em
projetos de MSF, tendo a responsabilidade de trabalhar pela primeira vez em seu
próprio país. Outros vieram de diversos países e já trouxeram a experiência de
ter enfrentado antes o novo coronavírus em lugares como Europa, EUA ou Iêmen.
Começamos o nosso trabalho com pessoas em situação
de rua em São Paulo e logo depois no Rio de Janeiro.
Atendemos a populações migrantes, indígenas e pessoas privadas de liberdade. Estivemos
presentes também nos estados de Roraima, Amazonas, Mato Grosso do Sul, Mato
Grosso e Goiás e neste ano continuamos a atuar no Amazonas e em Roraima
para mitigar os impactos da doença sobre os sistemas de saúde locais.
Temos que admitir, entretanto, que o desafio que o
Brasil vive hoje e continuará enfrentando ao menos pelas próximas semanas é simplesmente
sem precedentes. Se em março do ano passado, quando havia menos de 300 mortos
no total e cerca de 6 mil casos, os números já pareciam preocupantes, o que
vemos agora é um quadro desolador: já ultrapassamos 2 mil mortes e mais de 70 mil
novas infecções notificadas em um só dia. O cenário que
enfrentamos é de uma epidemia fora de controle, com sistemas de saúde à beira
do colapso ou já colapsados na maioria dos Estados brasileiros.
Diante disso, cabe uma reflexão sobre como chegamos
até aqui. O Brasil é hoje o epicentro da doença no mundo, com o
maior número de mortes diárias. Enquanto somos cerca de 3% da população
mundial, atualmente respondemos por 15% dos novos casos. É óbvio que isso não é
uma fatalidade.
Está claro que desde o início da pandemia tem
faltado um direcionamento claro e coeso das autoridades em relação a medidas de
distanciamento social, interrupção de atividades, uso de máscaras e até mesmo
no que diz respeito à vacinação: em muitos momentos foram propagadas mensagens
desestimulando a população a vacinar-se e a utilizar máscaras e
investidos recursos públicos para a disseminação de tratamentos sem
eficácia contra a doença.
Valorizamos o papel essencial que o SUS (Sistema
Único de Saúde) tem tido na resposta à crise sanitária que atravessamos.
Observamos a excelência do trabalho e a excelência dos seus profissionais nos
locais em que atuamos de maneira conjunta, mas sabemos que o sistema está sendo
levado ao seu limite absoluto. Uma amostra disso é que, com a enorme sobrecarga
a que estão submetidos, os reflexos sobre a saúde mental de trabalhadores da
saúde de todas as especialidades já são evidentes.
Mesmo diante de um quadro tão difícil, acreditamos
que existem maneiras de diminuir o custo em vidas humanas que estamos pagando durante
a pandemia.
É possível melhorar as práticas de testagem, adotando
em maior escala os testes PCR ou, na ausência deles,
testes rápidos de antígeno. Estes testes detectam se a pessoa tem efetivamente
o vírus e permitem isolar de maneira mais eficiente quem está doente. Os testes
rápidos de anticorpos, muito usados no Brasil, não são adequados em muitos
casos, porque uma pessoa pode testar positivo e não ter mais o vírus ativo.
Como a própria vacinação infelizmente teve um
início moroso e o prazo até que uma parcela considerável da população esteja
imunizada é incerto, é essencial mantermos os cuidados de higiene e as
medidas de distanciamento social e uso de máscaras. Além destas
ações, que dependem do necessário engajamento de cada um, é preciso a adoção
imediata de medidas coletivas que permitam a redução da circulação de pessoas,
ao mesmo tempo em que sejam garantidos meios básicos de subsistência aos mais
vulneráveis para compensar a interrupção de suas atividades. Desta forma,
diminuiremos agora os contágios que certamente vão causar em pouco tempo um
aumento do número de casos que terão de ser acolhidos por um sistema de saúde
já extremamente saturado.
Por isso, mais do que nunca, é preciso que todos
estejamos unidos em torno das medidas necessárias para evitar uma escalada
ainda maior no número de casos e mortes que pode acontecer em poucas semanas. Como
organização médica, é nossa obrigação esclarecer que há mortes que são
evitáveis. Todos, tanto no nível de decisão individual de cada
um, assim como os detentores de poder na esfera pública, não têm mais tempo a
perder. É mais do que hora de agir.
Ana de
Lemos - Diretora executiva de MSF-Brasil
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