Opinião
A velocidade e o dinamismo com que os fenômenos se sucedem em
meio ao contexto da pandemia de COVID-19, é um dos maiores desafios para nós
médicos. Avançamos muito nos protocolos de atendimento aos pacientes graves,
mas temos muitas incertezas nos estágios iniciais da doença. Diferentemente do
que vimos com as vacinas, onde as pesquisas andaram de forma muito rápida, em
relação a drogas que sejam efetivas contra o coronavírus não há nada muito
claro ainda.
Sabemos que o contraditório e o debate são inerentes ao
desenvolvimento médico-científico e incentivamos a argumentação técnica nestas
situações. Ao contrário, consideramos inaceitável qualquer tentativa de
politização ou judicialização de modalidades terapêuticas à Covid-19, em
detrimento da discussão científica.
O que a Associação Médica do Rio Grande do Sul defende e reitera
à comunidade gaúcha, é que os médicos tenham liberdade para tratar seus
pacientes, evidentemente que de forma consensual, e sempre fundamentados pela
ciência médica e pelas melhores práticas. A prescrição de medicamentos é de
inteira responsabilidade do profissional médico, respeitando-se os preceitos de
autonomia, da beneficência e da não-maleficência.
Porém, o cenário atual é complexo e muitos fatores exigem
reflexão e debate. É preocupante o número crescente e acelerado de pacientes
graves que necessitam internação em leitos de UTIs, rompendo de forma sem
precedentes a casa dos 100% de ocupação em praticamente todo o sistema de saúde
do RS. E temos aqueles que aguardam vagas em emergências dos hospitais ou fora
deles, agravando ainda mais as possibilidades. Esta situação é a ponta final de
uma cadeia que precisa, mais do que nunca, ser analisada com atenção. Como
podemos atuar preventivamente para que as pessoas não se contaminem e não
desenvolvam a COVID-19?
Precisamos canalizar os esforços em três frentes. A primeira, é
a responsabilidade social de cada cidadão com as medidas protetivas amplamente
alardeadas desde o início da pandemia: adequada higienização das mãos, usar
máscaras corretamente e respeitar o distanciamento social, evitando
aglomerações. É indispensável reduzir a contaminação e a propagação do vírus! O
segundo aspecto é que precisamos investir mais em testagem, para diagnóstico e
rastreamento dos casos suspeitos. Com mais informação, fica mais fácil entender
como a doença se propaga. A terceira e última frente é a vacinação. Precisamos
de mais celeridade no envio de doses pelo poder público e, principalmente,
previsibilidade do envio para melhor planejameno dos gestores locais.
Chegamos a esta alarmante situação em meados de fevereiro.
Comparados com o restante do país, nosso Estado tinha números mais brandos até
então. Um dos fatores que podem estar relacionados com a aceleração na
disseminação da COVID-19 talvez seja a identificação da cepa P.1 (variante de
Manaus) em casos no RS, por ter maior transmissibilidade. Mas esta é uma
variável que não está sob nosso controle. O outro fator é comportamental. As
pessoas relaxaram e passaram a interagir mais, por conta de uma falsa sensação
de tranquilidade.
São números crescentes e inquietantes e que mostram uma piora da
situação pandêmica em todo o Estado. O momento é crítico e o colapso na saúde
público-privada é real. Cada tomada de decisão, infelizmente, só irá se
refletir dentro dos próximos 15 dias. Vivenciamos hoje, o resultado de ações
que foram tomadas há duas semanas. Sendo assim, medidas urgentes e mais
contundentes precisam ser bem debatidas e avaliadas. Talvez, no cenário atual,
a excepcionalidade de medidas sociais mais restritivas deva ser aventada e
amplamente discutida.
Gerson Junqueira Jr - Presidente da AMRIGS
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