Especialistas
afirmam que ausência ou excesso de controle dos pais podem aumentar as chances
da criança sofrer ou praticar bullying
A
preocupação com todos os perigos que rodeiam crianças e adolescentes faz com
que um número cada vez maior de pais assumam uma postura altamente
controladora. O que essas pessoas talvez não saibam é que, agindo assim, em vez
de proteger, podem causar enormes prejuízos a seus filhos. Especialistas
afirmam que é natural que os pais se preocupem e queiram acompanhar de perto a
vida e rotina de suas crianças, mas, segundo eles, é preciso cuidado para que a
atenção e a participação permaneçam dentro de um limite saudável.
Na
outra ponta, a negligência também pode promover estragos. Especialistas sugerem
que a falta de supervisão e proteção, seja por meio de cuidados físicos,
emocionais ou sociais, pode acarretar insegurança e vulnerabilidade. "A
criança cresce achando que não é amada e sem estabelecer vínculos afetivos que
serão fundamentais para o amadurecimento emocional e para a construção das
relações que ela terá que criar e manter ao longo da vida", afirma a
psicóloga e consultora do Conquista Solução Educacional, Lidia Weber. Segundo
ela, em muitos casos, a omissão e ausência dos pais, derivadas da falta de
amor, de tempo e descaso, acabam fazendo com que os filhos desenvolvam
comportamentos hostis e agressivos.
Uma
pesquisa da Universidade de Warwick, nos Estados Unidos, aponta que o
comportamento dos pais tem influência direta nas atitudes dos filhos. Dados
coletados por 70 estudos diferentes, envolvendo mais de 200 mil crianças,
mostram que a forma como os pais conduzem a educação pode aumentar as chances
da criança sofrer e também praticar bullying. A pesquisa inclui entre os
comportamentos negativos dos pais a superproteção e a negligência. "Tal
constatação deixa claro que o bullying não é um problema apenas das escolas. Os
pais têm um papel muito importante nessa questão e devem ser alertados e
encorajados a adotarem práticas positivas na condução do ambiente
familiar", afirma Lidia.
A
psicóloga lembra que a ciência psicológica estuda as Práticas Educativas
Parentais há mais de 50 anos - tempo suficiente para se saber que os pais são,
sim, o principal fator de influência para o desenvolvimento infanto-juvenil e
que suas marcas - positivas ou negativas - podem ser levadas para a vida
adulta. “Embora não exista um manual para educar filhos, a ciência já sabe o
que traz resultados positivos e o que traz resultados negativos quando se trata
de educar crianças e jovens. Não é apenas opinião, é ciência”, ressalta Lidia.
Segundo
ela, as práticas educativas adotadas pelos pais podem ser consideradas fatores
de proteção ou de risco. “Envolvimento, relacionamento afetivo, comunicação
positiva, a existência de regras, monitoria e apresentação de bom modelo moral
são fatores que aumentam a probabilidade de resultados positivos. Por outro
lado, entende-se como fatores de risco a punição corporal, comunicação
negativa, como gritos e xingamentos, clima conjugal ruim por parte dos pais e a
ausência dos fatores positivos apontados acima”, descreve Lidia.
No
caso do bullying, a psicóloga ressalta que depende diretamente do que crianças
e jovens aprenderam com seus pais sobre valores morais, respeito, e
assertividade. Uma pesquisa do Núcleo de Análise do Comportamento da
Universidade Federal do Paraná (UFPR), realizada em cinco capitais brasileiras,
revela que crianças que mais praticam agressão direta têm pais permissivos (ou
superprotetores), seguidos por pais negligentes e, depois, pelos autoritários.
Segundo Lidia, a pesquisa mostra que as únicas que apresentam baixa
probabilidade de se envolver em bullying, seja como vítima ou como agressora,
são aquelas que têm pais que adotam práticas educativas positivas. “Educar e
socializar um filho é a tarefa mais complexa que existe e, na atualidade, é
muito mais difícil do que era há algumas décadas. É preciso se libertar de
modelos inadequados trazidos da nossa infância, olhar para os dados
apresentados pela ciência e se preparar adequadamente para a tarefa. As escolas
devem oferecer apoio aos pais, oferecendo cursos, palestras e estimulando o
debate sobre o tema”, finaliza Lidia.
O
professor Jacir Venturi, coordenador na Universidade Positivo, também coloca
como fundamental a relação entre família e escola. Para ele, é natural os pais
cometerem erros. Segundo Jacir, uma das formas dos pais equilibrarem isso é
estabelecerem uma parceria com a escola. “É necessário que tanto o familiar,
quanto a criança, valorizem o ambiente escolar, onde ela desenvolverá a
tolerância e a ponderação diante do erro, preparando-se para uma vida em que as
falhas e conflitos são inevitáveis” explica. Para Venturi, o comportamento dos
pais é o que irá definir a trajetória dos filhos. Ele coloca como essencial que
haja diálogo e sinergia entre família e escola. “Pais e professores são como
duas asas de um pássaro: se não tiverem a mesma cadência, não haverá uma boa
direção para nossas crianças e jovens”, defende o coordenador.
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