No Mês de Conscientização sobre o Autismo, especialistas explicam por que a integração entre família, escola e terapias é a chave para o progresso de pacientes atípicos
Para
Ernani de Oliveira Ladeira, de 44 anos, o diagnóstico de autismo do filho,
Heitor, não foi apenas uma definição clínica, mas o início de uma
reestruturação familiar. Neste Abril Azul, mês voltado para a conscientização
sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA), a trajetória deles exemplifica os
desafios emocionais e logísticos de quem busca garantir uma vida independente
para os filhos atípicos.
Os
primeiros sinais surgiram quando Heitor tinha cerca de 2 anos. Ernani, que é
professor e tem experiência com crianças, e sua ex-esposa, Luciene Souza,
notaram atrasos na fala e estereotipias, como o flapping (movimento de
agitar os braços) e gritinhos repetitivos quando o pequeno estava animado ou
nervoso.
Então,
o que a família seguiria dali em diante era uma jornada fragmentada e
desgastante por diferentes clínicas e terapias. “Encontrar um local cujas
terapias fossem cobertas pelo meu plano era a principal dificuldade”, recorda
Ernani.
Essa
fragmentação no cuidado, segundo o neuropediatra Tarcizio Brito, do laboratório
Bronstein, da Dasa, no Rio de Janeiro, é um dos maiores obstáculos para o
prognóstico de crianças autistas, já que a evolução do tratamento depende da
integração entre os ambientes clínico, escolar e familiar.
“Os
maiores anseios das famílias que buscam atendimento terapêutico para os filhos
com TEA é encontrar uma equipe de confiança pela qual a criança se sinta acolhida
e ter acesso a diversas modalidades de terapia concentradas em um só lugar.
Poder contar com um espaço que consiga unificar o atendimento clínico e o
suporte familiar e escolar acaba funcionando também como uma rede de apoio para
pais e cuidadores”, comenta Tarcizio.
A
dedicação exclusiva aos tratamentos de um filho com TEA impõe desgastes que vão
além do financeiro. Ernani relata que, no início, o casal focou tanto os
cuidados de Heitor que acabou negligenciando a vida conjugal. “A gente se esqueceu
da vida como casal, e isso acabou gerando conflitos e cobranças”, desabafa.
Hoje, separados, Ernani e Luciene mantêm uma comunicação próxima e colaborativa
em prol do bem-estar do filho. O conselho de Ernani para outras famílias é
direto: “Não se esqueçam de que, apesar de ter a criança autista, é preciso
cuidar do casamento e buscar ajuda profissional para o casal.”
Tratamento para além da clínica: como o suporte familiar e escolar fazem
diferença na rotina e no desenvolvimento das crianças com autismo
Mas
há dois meses, a rotina da família ganhou uma nova perspectiva com o início do
tratamento especializado de Heitor – hoje com 6 anos e classificado no nível 3
de suporte – na Clínica de Terapias Especiais do Bronstein, unidade no Méier.
Em um único local, a família passou a contar com o apoio de uma equipe
multidisciplinar que inclui psiquiatras da infância ou neuropediatras, além de
psicólogos, fonoaudiólogos, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais,
psicopedagogos, psicomotricistas e nutricionistas.
Para
Tarcizio Britto, o progresso terapêutico e o desenvolvimento de habilidades
comportamentais, de comunicação e de interação social do paciente com TEA
dependem da integração de todos os ambientes de convívio nos quais ele está
inserido – clínica, família, rede de apoio e escola.
“É
fundamental disponibilizar para os pais, responsáveis e cuidadores um espaço de
apoio para compartilhar experiências e receber orientações qualificadas. A
ideia é oferecer ajuda mútua: facilitar a rotina dos pais e trabalhar, em
conjunto, a evolução da criança dentro e fora da clínica, com foco constante na
autonomia”, revela o neuropediatra.
Para
a família Ladeira, o suporte profissional que recebem hoje é o que sustenta a
esperança. “Em apenas dois meses, já observamos um progresso muito grande no
Heitor. Ele está mais centrado, mais independente e mais interessado em
brincar. A criança autista evolui, sim. Só que ela precisa de um suporte que os
pais, sozinhos, não estão preparados para oferecer”, finaliza Ernani.
Genética
amplia a precisão e reduz o tempo até o diagnóstico
Diante
da complexidade dos quadros de TEA, a genômica tem se consolidado como aliada
na investigação do autismo, especialmente nos casos sindrômicos, nos quais há
associação com alterações genéticas.
“Com
exames mais avançados, que analisam genes específicos relacionados com o
autismo, todos os genes do indivíduo ou ainda todo o genoma (ou seja, todo o
conjunto de informações genéticas do indivíduo), vem sendo possível identificar
alterações relevantes e encurtar uma jornada que, muitas vezes, levava anos
para chegar a uma conclusão”, afirma Gustavo Guida, geneticista do laboratório
Bronstein e Dasa Genômica.
Exames
como o Painel NGS para Autismo Sindrômico, Sequenciamento do Exoma Completo e
Sequenciamento do Genoma Completo permitem analisar regiões específicas do DNA
responsáveis pela codificação de proteínas, justamente onde se concentra a
maioria das mutações associadas a condições genéticas complexas, incluindo o
autismo.
“Painéis
genéticos por NGS permitem a análise simultânea de centenas de genes associados
ao neurodesenvolvimento, permitindo identificar alterações relevantes e apoiar
condutas clínicas mais direcionadas. Mesmo analisando cerca de 2% do genoma, o
exame sequencia aproximadamente 85% das variantes genéticas relacionadas com
doenças. Já o Exoma vai além, pois sequencia todo o material genético do
indivíduo, facilitando o diagnóstico precoce”, finaliza Guida.
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