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quarta-feira, 4 de março de 2026

Pesquisadores identificam ‘assinatura neuroimune’ que pode prever complicações da hepatite

Estudo analisou os dados de mais de 1.800 amostras de bancos
 públicos  dos Estados Unidos, Itália, China, Espanha, França,
Alemanha, Reino Unido e Taiwan
 Freepik

Rede de genes ligada aos sistemas nervoso e imunológico pode antecipar risco de câncer e até explicar sintomas como fadiga e depressão decorrente de infecção provocada por hepatite viral

 

 Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) descobriram um conjunto de genes capaz de indicar como a hepatite viral pode evoluir no organismo. Essa rede de genes, que eles chamaram de neuroimunoma, conecta o sistema nervoso ao sistema imunológico e pode servir como um biomarcador para prever desde a gravidade da lesão no fígado até o risco de câncer hepático decorrentes da infecção pelos vírus da hepatite.

O estudo, apoiado pela FAPESP e publicado no Journal of Medical Virology, analisou os dados de mais de 1.800 amostras de bancos públicos dos Estados Unidos, Itália, China, Espanha, França, Alemanha, Reino Unido e Taiwan. A análise incluía informações sobre tecidos do fígado e células de sangue infectadas por diferentes vírus da hepatite.

“Nossa primeira descoberta foi que as células de defesa no sangue [leucócitos] de pacientes com hepatite começam a expressar genes que são tipicamente associados ao sistema nervoso. Isso mostra que, em vez de operarem como dois sistemas independentes, eles parecem estar muito integrados por essa rede de genes e outras moléculas, que coordena respostas por todo o corpo, especialmente durante uma inflamação crônica como a da hepatite”, conta Otávio Cabral-Marques, professor da Faculdade de Medicina (FM) da USP e coordenador da investigação.

A partir de uma análise que usou técnicas de aprendizado de máquina, os pesquisadores identificaram que, à medida que a hepatite viral progride para o câncer de fígado (hepatocarcinoma), ocorre uma desregulação desses genes, com alguns deles sendo mais ou menos expressos.

“Com isso, esse conjunto de genes pode vir a se tornar um biomarcador da progressão da doença. Há mudanças claras nessa desregulação entre os estágios iniciais e avançados do tumor, o que permite monitorar o agravamento da hepatite viral”, afirma Adriel Leal Nóbile, cientista de dados e bolsista da FAPESP.

A hepatite viral é uma doença sistêmica, capaz de afetar vários órgãos além do fígado. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a enfermidade, negligenciada, é a segunda principal causa infecciosa de morte no mundo, responsável por aproximadamente 1,3 milhão de óbitos por ano.


Saúde mental

As análises mostraram que genes específicos (NRG1 e DBH) ficam progressivamente alterados conforme a gravidade do câncer aumenta. “O DBH é um gene associado à produção de noradrenalina, um neurotransmissor da resposta ao estresse. Isso indica que essa via de sinalização ligada ao estresse é potencializada no ambiente do tumor avançado, mostrando uma possível relação bidirecional entre o estresse e o crescimento do tumor”, diz Nóbile.

Além disso, genes do neuroimunoma (NRG1OLFM1 e WDR62) aparecem tanto na progressão do hepatocarcinoma quanto em condições de saúde mental como depressão e ansiedade.

“Sabe o conceito de [patologia] psicossomática de Freud segundo o qual o corpo seria influenciado pela mente? Com o neuroimunoma mostramos que não é só uma interferência do sistema nervoso no sistema imune. É uma rede muito conectada”, afirma Cabral-Marques.

O estudo foi feito a partir de dados de infectados por hepatites virais, mas os pesquisadores acreditam que essa conexão do neuroimunoma pode ocorrer também em doenças diferentes.

De acordo com os pesquisadores, embora o trabalho não tenha analisado a relação entre hepatite, sistema neuroimune e a gravidade de depressão ou ansiedade, há evidências de uma forte associação entre o neuroimunoma e manifestações psiquiátricas na hepatite.

“Futuramente, o neuroimunoma pode servir como um marcador tanto para prever a gravidade da doença hepática quanto para indicar possíveis complicações psiquiátricas, tão frequentes em pessoas com hepatite. Dessa forma seria possível comprovar de forma mais assertiva a relação desses sintomas com uma base biológica, e não apenas emocional”, afirma Nóbile.

O artigo The neuroimmunome of hepatitis patients associates with disease severity pode ser lido em: onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1002/jmv.70742.

 


Maria Fernanda Ziegler

Agência FAPESP
https://agencia.fapesp.br/pesquisadores-identificam-assinatura-neuroimune-que-pode-prever-complicacoes-da-hepatite/57322

 

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