Pode parecer estranho, mas a dificuldade para arrotar
não é apenas um incômodo: pode ser um sinal de uma condição médica pouco
conhecida, chamada Disfunção Cricofaríngea Retrógrada (DCF-R). Embora só tenha
sido oficialmente reconhecida em 2019, a disfunção afeta pessoas em várias
partes do mundo, e o número de casos relatados tem crescido rapidamente,
especialmente graças às redes sociais e à troca de experiências entre
pacientes.
“É uma síndrome que só recentemente começou a ser melhor
compreendida, com sintomas bem definidos”, explica o Dr. Geraldo Santana,
ex-presidente da Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia
Cérvico-Facial (ABORL-CCF) e otorrinolaringologista. “Muitos pacientes passam
anos convivendo com os sintomas sem saber que se trata de uma doença".
Quem tem essa condição sente o ar preso no estômago, causando
barriga estufada, dor, sensação de pressão no peito, dificuldade de engolir e
até ruídos estranhos na garganta. Esses sintomas, que podem parecer apenas
desconfortos digestivos, acabam afetando também o bem-estar emocional e social.
“Muitos pacientes relatam constrangimento, ansiedade e até depressão, porque
evitam sair, participar de encontros ou até mesmo comer em público”, acrescenta
o especialista.
Como
a DCF-R chegou à atenção do público
O que chama atenção é que a DCF-R ganhou destaque primeiro nas
redes sociais, antes mesmo de ser amplamente discutida pela comunidade
científica. O médico americano Robert W. Bastian, de Chicago, identificou o músculo
cricofaríngeo como a origem do problema e propôs um tratamento inovador com
toxina botulínica.
“O primeiro paciente relatou melhora em plataformas online, como o
Reddit, é o caso viralizou rapidamente”, a Dra. Luciana Miwa Nita Watanabe, é a Diretora Vice-Presidente
da Academia Brasileira de Laringologia e Voz. “Antes mesmo de artigos científicos serem publicados,
pacientes estavam trocando informações, compartilhando experiências e buscando
ajuda, um fenômeno que se repete hoje, também no Brasil”.
No país, existem grupos de apoio online e comunidades em
aplicativos de mensagens, onde pacientes compartilham dicas, experiências e
orientações. “Muitos dos pacientes que atendemos chegam por indicação de outros
pacientes. Essa troca tem sido fundamental para aumentar a conscientização e
reduzir o sofrimento de quem ainda não sabia que tinha uma condição
reconhecida”, explica a Dra. Luciana.
O
tratamento que transforma vidas
O tratamento mais conhecido hoje é minimamente invasivo. Com
pequenas aplicações de toxina botulínica no músculo cricofaríngeo, é possível
relaxar a musculatura e permitir que o ar preso seja liberado naturalmente.
“Não é uma cirurgia aberta, o procedimento é rápido, seguro e traz alívio quase
imediato para muitos pacientes”, diz o Dr. Geraldo.
Além do procedimento, em alguns casos, os médicos indicam
exercícios de respiração e acompanhamento contínuo, para ajudar a manter os
resultados e reduzir o desconforto diário. “O tratamento pode mudar
completamente a rotina do paciente, melhorando tanto a saúde física quanto o
bem-estar emocional”, acrescenta o especialista.
Impacto
real no dia a dia
Embora pareça algo simples, não conseguir arrotar pode afetar praticamente todos os aspectos da vida do paciente. Comer se torna um desafio, viagens e passeios podem gerar ansiedade, e a vida social muitas vezes é prejudicada. “A condição interfere na alimentação, no convívio social e na saúde mental. A qualidade de vida é bastante comprometida se não houver diagnóstico e tratamento adequados”, afirma a Dra. Luciana.
Além disso, o reconhecimento da doença é relativamente novo, o que
faz com que muitos pacientes se sintam incompreendidos ou desacreditados.
“Quando conseguimos explicar o que está acontecendo e oferecer tratamento, a
mudança na vida do paciente é enorme”, conclui.
Se você percebe barriga estufada, gases em excesso e dificuldade
de arrotar, é importante procurar um médico especialista, preferencialmente um
otorrinolaringologista, que possa avaliar a condição corretamente. Informação,
diagnóstico precoce e tratamento adequado são essenciais para aliviar um
problema que, embora pouco conhecido, é mais comum do que se imagina.
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