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sábado, 10 de janeiro de 2026

O desafio invisível das mulheres ao usar banheiros em eventos

Garantir banheiros iluminados, acessíveis e seguros é um passo essencial para transformar o setor em um ambiente de respeito e igualdade para todos os públicos

 

Em todos os tipos de eventos, sejam pequenos, médios ou grandes, a experiência de ir ao banheiro pode se transformar em um momento de tensão para muitas mulheres. A iluminação precária, os trincos frágeis e a falta de privacidade tornam o uso dos sanitários públicos um desafio que mistura desconforto e insegurança. O simples ato de fechar a porta e garantir que ninguém a abra torna-se um exercício de vigilância constante. Somada à ausência de condições básicas de higiene, a disposição dos banheiros em áreas isoladas ou mal sinalizadas reforça a sensação de vulnerabilidade. Embora a pauta da acessibilidade tenha avançado nos últimos anos, o debate sobre a infraestrutura sanitária feminina ainda carece de atenção, reforçando o quanto os organizadores dos eventos ignoram as especificidades e as necessidades reais das mulheres. 

O desconforto enfrentado pelas mulheres nesses espaços não se resume à falta de higiene. As cabines portáteis, em sua maioria, apresentam design que ignora as necessidades femininas: o espaço interno é limitado, a iluminação é insuficiente e os trincos, muitas vezes frágeis, não oferecem a segurança necessária. À noite, a ausência de luz e a localização afastada de muitas dessas estruturas ampliam a sensação de vulnerabilidade, fazendo com que o simples ato de usar o banheiro se torne um momento de alerta constante. Diante desse cenário, é comum que mulheres evitem o uso dos sanitários por longos períodos, causando desconforto físico e impacto direto no bem-estar durante eventos de todos os portes. 

Garantir conforto e segurança no uso dos banheiros femininos em eventos exige planejamento e atenção a detalhes que costumam passar despercebidos. A instalação das cabines deve considerar áreas bem iluminadas, de fácil acesso e com fluxo constante de pessoas, contando com segurança feminina, evitando locais isolados ou mal sinalizados. É essencial que os trincos ofereçam um travamento firme e visível, garantindo privacidade e tranquilidade a quem utiliza o espaço, além de não apresentarem vãos ou aberturas desnecessárias que comprometam a segurança. Para Wéber Moreira, sócio e fundador da Ativa Locação, a escolha do toalete é um ato de respeito e cuidado. “A mulher precisa se sentir segura em todos os aspectos, inclusive dentro do banheiro. Um evento só é bem-sucedido quando oferece condições reais de conforto e dignidade para todos os públicos”, destaca. 

O compromisso com a segurança feminina deve estar presente desde o planejamento até a instalação final. Detalhes como a escolha do terreno, a iluminação noturna e a manutenção constante das cabines fazem parte de uma cultura de responsabilidade que ainda precisa ser fortalecida no setor de eventos. Garantir espaços seguros e adequados não é um diferencial, mas uma necessidade básica para promover experiências verdadeiramente inclusivas e humanas.

Em 2017, a então estudante Zaza Scopel, do Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC), analisou a infraestrutura dos banheiros portáteis sob a ótica do público feminino em seu trabalho de conclusão de curso e revelou o quanto o tema ainda é negligenciado. O estudo mostrou que a estrutura desses sanitários, em sua maioria, não contempla aspectos ergonômicos e de segurança essenciais às mulheres. A falta de iluminação adequada, os trincos e estruturas frágeis e a ventilação insuficiente criam um ambiente desconfortável e, muitas vezes, inseguro. Oito anos após a publicação, o cenário permanece praticamente o mesmo: as decisões sobre instalações sanitárias nos eventos seguem pautadas pela economia, em detrimento da segurança e da integridade das mulheres, evidenciando o quanto ainda podemos avançar na construção de espaços verdadeiramente inclusivos. 

“Como produtora de eventos, eu entendo os motivos da escolha do modelo mais barato. Existe uma relação clara entre custo-benefício, estrutura do evento, preço do ingresso e o conforto oferecido ao público. Não houve mudanças significativas, nem no modelo, nem no formato. Desde a época da minha pesquisa até hoje, o que aconteceu foram pequenas evoluções em termos de alternativas e de conscientização. As soluções adotadas hoje giram em torno da forma como os sanitários são alocados e configurados, geralmente em formato de ‘U’, com uma equipe de segurança próxima”, explica Zaza Scopel, produtora de eventos e responsável pelo Trabalho de Conclusão de Curso “Banheiro químico feminino: pensando a segurança, higiene e o conforto da mulher em eventos públicos”. 

Garantir segurança e conforto às mulheres em eventos exige mais do que a simples instalação de cabines sanitárias. É necessário um planejamento que considere iluminação adequada, posicionamento estratégico dos banheiros e manutenção constante ao longo do evento. Essas medidas, embora pareçam básicas, são decisivas para evitar situações de vulnerabilidade e desconforto. No entanto, o que se observa na prática é que muitas decisões ainda priorizam a economia e a logística em detrimento da experiência do público. Para Zaza, essa mudança de mentalidade é urgente. “Desde a época em que realizei minha pesquisa e, depois, com a oportunidade de ver isso de perto, percebi claramente a diferença na estrutura dos banheiros, por exemplo, do The Town, evento do qual participei e posso falar com mais propriedade. Esses banheiros são construídos ou instalados em contêineres, o que já garante uma logística de manutenção muito melhor. Eles possuem um sistema de esgotamento próprio, que recolhe tanto os resíduos dos vasos quanto os direciona para caminhões responsáveis pela coleta, como os de fossa séptica. Isso faz com que o ambiente seja completamente diferente: o cheiro é controlado, o visual é mais limpo e a iluminação é bem planejada. Essa solução de banheiro em contêiner, sem dúvida, seria a mais adequada para eventos de todos os tipos de porte e ao ar livre”, explica Zaza. Mas ela alerta: “Quando analisamos a realidade atual, a diferença de orçamento entre um modelo e outro é significativa. Esses banheiros em contêiner são conhecidos como ‘banheiros VIP’ ou ‘banheiros VIP luxo’, conforme os fornecedores denominam”. 

Promover a equidade em espaços coletivos passa, necessariamente, por repensar a infraestrutura que acolhe o público. Quando o planejamento de um evento considera a segurança e o conforto das mulheres, ele reafirma o respeito à diversidade e à integridade de todos os participantes. A experiência de ir ao banheiro, algo tão cotidiano, não deveria despertar medo ou desconforto. Tratar essa questão como prioridade, e não como detalhe, é um passo essencial para transformar eventos em ambientes verdadeiramente inclusivos, em que cada pessoa viva o momento com tranquilidade, respeito e pertencimento. “Quando falamos de estrutura para o público feminino, falamos de segurança, respeito e dignidade. Cada detalhe, da luz ao trinco da porta, influencia a sensação de proteção e no bem-estar de quem frequenta o evento”, finaliza Moreira.

 

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