Uso de telas sobe até 70% nas férias, apontam estudos; especialistas alertam para irritabilidade, piora do sono e desregulação emocional infantil
O tempo de tela entre crianças cresce de forma
acentuada durante as férias escolares, elevando sintomas como irritabilidade,
dificuldades de sono e maior desregulação emocional, segundo levantamentos
recentes. Um estudo publicado no JAMA Pediatrics identificou que o uso diário
de dispositivos digitais chega a aumentar entre 40% e 70% nesse período. Dados
do Common Sense Media mostram que o tempo médio de entretenimento
digital infantil já supera 5h40 por dia, número que tende a crescer quando a
rotina escolar é suspensa.
A luz azul emitida por dispositivos reduz a produção de melatonina
e pode atrasar o início do sono em até duas horas, apontam estudos da Sleep
Foundation. Pesquisadores da University of Toronto observaram que crianças
que utilizam telas à noite apresentam maior fragmentação do sono REM, associado
à consolidação de memória e regulação emocional.
Do ponto de vista psicológico, o impacto não se limita à
estimulação sensorial. A literatura aponta que estímulos digitais intensos
ativam circuitos de recompensa no cérebro infantil, especialmente o sistema
dopaminérgico, aumentando a busca por gratificação imediata e reduzindo a
capacidade de autorregulação. Estudos da American Academy of Child &
Adolescent Psychiatry mostram que o uso prolongado de telas está associado a
maior impulsividade, menor tolerância à frustração e dificuldades de transição
entre atividades, todos quadros que se acentuam quando a rotina está menos
estruturada, como nas férias.
A psicóloga Dra. Andrea Beltran explica que o aumento repentino de
exposição digital altera o equilíbrio emocional dos pequenos. “As telas ativam
o sistema nervoso de maneira intensa e contínua. Quando essa excitação não é
compensada por descanso ou atividades físicas, aparecem irritabilidade,
agitação e baixa tolerância à frustração”, afirma. “O sono prejudicado agrava
tudo, porque é durante a noite que o cérebro infantil processa estímulos e
estabiliza o humor.”
Além do impacto individual, há efeitos familiares. Pesquisas
conduzidas pela University of Michigan mostram que conflitos domésticos
relacionados ao uso de dispositivos tendem a aumentar durante as férias,
especialmente em casas onde não há regras claras. “Rotinas flexíveis são parte
do descanso, mas a ausência total de limites cria um ambiente de tensão”,
reforça a Dra.
A especialista recomenda pausas regulares, supervisão ativa e o
uso moderado de dispositivos antes de dormir. “Não é sobre proibir, mas sobre
reposicionar as telas para que deixem de ocupar o lugar de outras experiências
fundamentais da infância, como brincar, explorar e descansar.”

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