Em
um mundo hiperconectado, onde a comparação social acontece em tempo real pelas
redes, emoções como inveja e o chamado schadenfreude (o prazer pelo
fracasso alheio) tornaram-se mais frequentes — e mais estudadas pela ciência.
Segundo a neurocientista Daiana Petry, essas emoções não são
sinais de falha moral, mas respostas automáticas do cérebro diante de estímulos
sociais.
“A
inveja é tratada como um tabu, mas do ponto de vista cerebral ela é
extremamente comum. É uma reação automática quando percebemos que alguém tem
algo que desejamos — seja status, conquistas, beleza ou oportunidades”, explica
Daiana.
A dor social da comparação
Pesquisas
mostram que, ao sentir inveja, uma região específica do cérebro tende a ser
ativada: o córtex cingulado anterior, área ligada à dor emocional, ao
desconforto e ao conflito interno.
“É
como se o cérebro interpretasse a superioridade do outro como uma ameaça
simbólica ao nosso próprio valor”, afirma a neurocientista. Quanto maior a
exposição a comparações — como acontece no ambiente digital —, mais intensa
costuma ser essa ativação.
Essa
resposta se conecta à rede de modo padrão, sistema cerebral responsável por
construir a identidade, projetar o futuro e refletir sobre quem somos. Quando
equilibrada, essa rede favorece criatividade e propósito. Mas quando
hiperativada, ela produz o efeito contrário:
- ruminação;
- comparação excessiva;
- sensação de inadequação;
- impressão persistente de que “todo mundo está indo melhor”.
“É
exatamente esse desequilíbrio que transforma a inveja em sofrimento
psicológico”, completa Daiana.
Por que o fracasso alheio pode gerar prazer
O
fenômeno seguinte — e mais desconfortável — é a schadenfreude, o alívio ou
prazer sentido quando alguém que despertava inveja enfrenta uma queda.
Segundo
estudos de neuroimagem, nesses momentos ocorre ativação do estriado ventral,
uma das principais regiões do sistema de recompensa do cérebro — a mesma
associada ao prazer de comer, ganhar ou ser elogiado.
“O
dado mais impressionante é que a intensidade da inveja prediz a intensidade da
schadenfreude. Quanto maior a dor da comparação, maior tende a ser o alívio —
e, portanto, o prazer — quando aquela ameaça simbólica desaparece”, explica
Daiana.
Para
o cérebro, a queda do outro reduz a sensação de risco social e restaura,
temporariamente, o equilíbrio interno.
Como entender a biologia da inveja
Daiana
ressalta que entender esses mecanismos não serve para justificar comportamentos
destrutivos, e sim para compreendê-los com honestidade.
“O
cérebro monitora o tempo todo nossa posição social. A inveja surge
automaticamente, mas o que fazemos com ela é uma escolha ética”, afirma.
Reconhecer
esses processos — em vez de negá-los — é o primeiro passo para lidar com a
comparação de forma mais consciente e menos reativa. A neurocientista destaca
que práticas de autoconsciência, regulação emocional e presença plena ajudam a
diminuir a hiperativação da rede de modo padrão e reduzem tanto a dor da inveja
quanto a tendência ao prazer com o fracasso alheio.
A
ciência mostra que inveja e schadenfreude não são desvios de caráter, mas
respostas neurobiológicas profundamente humanas, ativadas por mecanismos que
regulam pertencimento, valor social e identidade.
Para Daiana Petry, compreender isso abre espaço para relações mais maduras:“Quando entendemos que a comparação é um reflexo cerebral, e não um defeito pessoal, conseguimos agir com mais responsabilidade emocional — e transformar essas respostas automáticas em escolhas conscientes”, finaliza.
Daiana Petry @daianagpetry - Aromaterapeuta, perfumista botânica, naturóloga e especialista em neurociência. Professora dos cursos de formação em aromaterapia, perfumaria botânica e psicoaromaterapia. Autora dos livros: Psicoaromaterapia, Cosméticos sólidos e Maquiagem ecoessencial. Fundadora da Harmonie Aromaterapia.
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