
Crédito_Filipe Berndt
Composta
por 22 pinturas inéditas, além da série Nbimda, dedicada a 16
divindades do candomblé de Angola de matriz Bantu, a mostra, que tem texto de
catálogo assinado por Renato Menezes, evidencia a maturação do artista, que
amplia repertórios, técnicas e subjetividades após o impacto de Lapidar
Imagens
Aberta ao
público em 5 de março, com visitação até 11 de abril, a exposição Rafael Pereira: A Cabeça de Zumbi inaugura a
programação de 2026 da Galeria Estação, reafirmando a força
poética e a crescente complexidade do trabalho do artista paulistano de 39
anos. Ao longo de sua trajetória Rafael percorreu diversos Estados do Brasil,
viveu por 14 anos decisivos em Teófilo Otoni (MG) e, atualmente, reside em
Caraguatatuba, no litoral norte de São Paulo.
Desde Lapidar Imagens, sua primeira exposição individual na galeria, realizada
em 2023, o artista atravessou um ciclo de amadurecimento que ampliou seu
vocabulário visual ao revisitar aspectos estruturantes de sua trajetória — da
formação como lapidador de pedras preciosas às experiências de circulação pelo
país. Esse percurso se desdobra agora em uma mostra que articula memória,
identidade e subjetividade.
“Desde que Rafael
entrou na Estação, em 2023, acompanhamos de perto seu processo consistente de
amadurecimento. Ele é um artista que cresceu em segurança, em repertório e em
consciência do próprio trabalho. Entre Lapidar
Imagens e
esta nova individual sua obra ganhou densidade. A exposição reflete um salto
real em sua trajetória. Quando um artista como ele encontra um espaço
institucional que o apoia, ele ganha o mundo. No caso dele, nosso respaldo foi
fundamental para que ele se sentisse mais livre para arriscar, aprofundar
processos e ampliar sua linguagem”, defende Vilma Eid, sócia-fundadora da
Galeria Estação.
Produzidas no
biênio 2024 – 2025, as pinturas inéditas incorporam um universo multicolorido
de retratos, paisagens e elementos simbólicos que, segundo o artista, emergem
de uma escuta profunda de si mesmo, em um processo consciente de desaceleração:
“Hoje eu sinto que o meu trabalho acontece em outro tempo. Antes, eu tinha
muita urgência, uma necessidade de produzir o tempo todo, quase como se eu
precisasse provar alguma coisa. Agora eu entendo que esses processos devem ser
mais lentos, que a pintura precisa de tempo para maturar, assim como eu”,
explica.
Composta por
dois núcleos expositivos, a mostra reúne 22 pinturas no 2º andar da Galeria
Estação — sendo 20 retratos e duas naturezas-mortas — e apresenta, no mezanino,
a série Nbimda, formada por 16 pinturas de cabeças de
dimensões variáveis. Cada obra representa uma divindade (nkisi)
cultuada no candomblé de Angola de matriz Bantu. Ao abordar esse conjunto, o
historiador da arte Renato Menezes, autor do texto crítico do catálogo da
mostra, destaca a centralidade simbólica da cabeça como elo entre o corpo, a
ancestralidade e o divino:
“O que para os
europeus se apresentou unicamente como fisionomia, isto é, como emanação da
personalidade, revela-se, na pintura de Pereira, como elo com o divino: a
cabeça, orí para os Iorubá e mutuê para
os Bantu. É na cabeça onde reside a força vital do indivíduo; está ali sua
conexão com o nkisi, a energia ancestral e destino individual
que cada sujeito traz consigo ao nascer. O tema da cabeça ancestral organiza a
série Nbimda”, destaca Menezes.
Ao exaltar e
ressignificar a ancestralidade afrodiaspórica que constitui parte
majoritária da sociedade e da formação cultural brasileira, Rafael também
explicita sua intenção de dar maior complexidade às discussões sobre
racialidade, afastando-se de leituras reducionistas em favor da construção de
uma subjetividade negra.
“Não quero que
meu trabalho seja lido só a partir de um corte racial. Não quero que um corpo
negro sorrindo seja visto como um acontecimento, enquanto um corpo branco
sorrindo é só uma imagem. O que me interessa é construir uma subjetividade
negra que seja complexa, íntima e contraditória. Não quero negar a questão
racial. Quero ir além dela. Quero que meu trabalho seja visto como imagem e
experiência, e que a negritude esteja ali de forma profunda, não como um
rótulo”, provoca o artista.
Segundo Menezes,
essa produção recente, marcada pela força intuitiva do gesto pictórico, amplia
ainda mais as leituras possíveis sobre a obra de Rafael, já insinuadas na
interpretação de caráter modernista dos trabalhos presentes em Lapidar Imagens.
“Em um primeiro
momento, sua obra parece resultar diretamente da absorção desses códigos da
retratística tradicional para, a partir deles, imaginar futuros,
reconstituir histórias e inventar identidades, superando o modo como a vida
negra foi avaliada. Por outro lado, o artista cria fisionomias a partir de sua
imaginação, como em um exercício de ajuste de contas com a história e de acesso
a uma dimensão da memória neutralizada pelo trauma: a intuição é uma tecnologia
ancestral. Assim, ele faz reexistir, por meio de suas cores, a presença viva de
pessoas atravessadas por sentimentos, pensamentos e desejos silenciosos”,
observa Menezes no catálogo.
A exposição
evidencia, ainda, a ampliação de técnicas experimentadas durante o período
formativo de Pereira, como o uso de bastão de giz pastel óleo sobre papel,
revelando processos investigativos de um trabalho em transformação. Parte das
obras foi produzida em março de 2025, durante a residência artística realizada
por ele em Goiânia (GO), no Sertão Negro Ateliê e Escola de Artes, projeto
idealizado pelo artista visual e educador Dalton Paula e pela professora e
pesquisadora de cinema Ceiça Ferreira. Localizado em um quilombo do bairro
conhecido como Setor Shangri-lá, o espaço articula tradições culturais
afro-brasileiras e práticas de arte contemporânea, com atividades em cerâmica,
gravura, capoeira angola, agroecologia e cineclube.
“A residência no
Sertão Negro foi decisiva para o Rafael, não apenas no plano técnico, mas como
experiência de troca com outros artistas e abertura de mundo. Ele voltou mais
seguro, mais consciente da própria voz — e isso aparece com força nesta
exposição, que mostra um Rafael mais amplo com trabalhos diferentes reunidos em
dois núcleos distintos. São quase duas exposições que se complementam e ajudam
a entender melhor o artista. Abrir a programação de 2026 com o Rafael foi uma
decisão muito consciente. Ele tem um público forte, seu trabalho tem ótima
circulação e esse é o momento exato para fazermos sua segunda individual”,
conclui Vilma Eid.
SERVIÇO
Exposição Rafael Pereira: A Cabeça de Zumbi
Quando: de 5 março a 11 de abril de 2026
Onde: Galeria Estação
Endereço: Rua Ferreira Araújo, 625 - Pinheiros, São Paulo
Vernissage: 05/3 (quinta-feira), a partir das 18h
Horários
de funcionamento da galeria: segunda
a sexta, das 11h às 19h; sábados, das 11h às 15h; não abre aos domingos.
Tel: 11 3813-7253
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