A médica Isabela Schiffino, da Oncologia D’Or, afirma que a prática deve começar com o diagnóstico de uma doença grave.
A
Organização Mundial de Saúde define o cuidado paliativo como uma abordagem multidisciplinar que busca a qualidade de vida do
paciente e seus familiares diante de doenças ameaçadoras da vida. Visa prevenir
e aliviar todas as esferas do sofrimento humano, por meio da identificação
precoce, avaliação e tratamento de sintomas físicos, psicossociais e
espirituais1. Estudos recentes mostram que essa prática é
capaz de promover a percepção de bem-estar e aumentar a sobrevida dos
pacientes, quando aplicada logo após o diagnóstico da enfermidade.
“O
paciente com efetivo controle dos sintomas físicos, emocionais, psicológicos,
sociais e espirituais vive mais. Cuidado paliativo não é falar sobre morte. É
falar sobre a vida, sobre aquilo que ainda faz sentido, que importa, que
conecta e que dignifica cada dia vivido”, afirma a médica intensivista Isabela
Schiffino, especialista em Cuidados Paliativos da Oncologia D’Or.
Apesar de sua importância, a Medicina Paliativa é desconhecida por parte da
população, por ser relativamente recente — há 15 anos foi reconhecida pelo
Conselho Federal de Medicina como área de atuação médica. Só em 2022 foi
incluída na grade curricular do curso de Medicina a fim de formar profissionais para integrar equipes
multidisciplinares capacitadas para elaborar
planos de cuidados em conjunto e sempre calcados nos princípios da bioética
enfatizados no Código de Ética Médica.
![]() |
| Estudo publicado no JAMA aponta sobrevida superior a dois anos em pacientes que receberam esses cuidados, em comparação àqueles não beneficiados com essa prática. |
Com o passar do tempo, os cuidados paliativos ganharam relevância e viraram objeto de estudos científicos. Um deles2, publicado no prestigiado Journal of American Medical Association (JAMA), envolveu 144 pacientes com câncer avançado, que não estavam em fase terminal e não eram suscetíveis à quimioterapia. De acordo com os resultados, os indivíduos que receberam pelo menos dez intervenções de cuidados paliativos tiveram sobrevida superior a dois anos em comparação àqueles que não foram beneficiados com essa prática.
“Os cuidados paliativos são como um guarda-chuva numa tempestade, que se forma a partir dos desafios da doença, do tratamento e das incertezas do futuro”, descreve Isabela Schiffino. Para ajudar no enfrentamento da tormenta — que é vivenciada de forma única por cada paciente — é necessária uma equipe formada por médicos, enfermeiros, psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, nutricionistas, assistentes sociais, farmacêuticos, terapeutas ocupacionais e capelania. Cada um deles, na sua especialidade, fomenta medidas de enfrentamento para cada paciente e seus familiares.
![]() |
| Cada membro da equipe multidisciplinar fomenta medidas de enfrentamento da doença para o paciente e seus familiares |
Cuidados paliativos e o câncer
O
câncer é uma das principais causas de mortalidade no Brasil, ficando apenas
atrás das doenças cardíacas e circulatórias. Em 2024, foram 266.692 óbitos4.
Não por acaso, a Medicina Paliativa é muito empregada na Oncologia. “A
precocidade dos cuidados paliativos impacta diretamente na qualidade do
tratamento oncológico. Reduz a sobrecarga de acionamentos do especialista, por
exemplo, para controle de sintomas físicos, emocionais e sociais “, declara a
médica.
Isabela
Schiffino afirma que às vezes, o paciente recepciona sua equipe acreditando que
os médicos desistiram dele, por causa da interrupção do tratamento curativo.
“Mas com uma comunicação técnica, sutil e empática, esclarecemos que estamos
apoiando e torcendo pela sua recuperação. Ao mesmo tempo, se ela não vier,
mostramos que ele e seus familiares estarão acolhidos e assistidos
independentemente do desfecho”, observa.
Um
estudo belga5 com 186 indivíduos com câncer avançado e expectativa
de vida estimada em um ano evidenciou como os cuidados paliativos podem fazer a
diferença para os pacientes. Os pesquisados foram divididos em dois grupos: 92
receberam cuidados paliativos precoces e sistemáticos, e os demais, apenas os
cuidados oncológicos padrão.
Em
12 semanas, todos foram submetidos ao questionário que mensura a qualidade de
vida adotado pela Organização Europeia para a Pesquisa e Tratamento de Câncer
(EORTC, em inglês). Os resultados revelaram que o primeiro grupo apresentou
61,98 pontos, superando os 54,39 pontos registrados pelo segundo.
Oncologia D'Or
Referências
- Organização Mundial da Saúde. Disponível em https://iris.who.int/items/803bf528-2d21-4435-8ba1-d2c483df4d62
- Kang EK, et al. Early integrated palliative care in advanced
cancer. JAMA Net Open. 2024.
- Temel JS, et al. Early palliative care for metastatic
non-small-cell lung cancer. N Engl J Med. 2010; 363:733-742
- Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Disponível em Link
- Vanbutsele G, et al. Effect of early and systematic
integration of palliative care. Lancet Oncol. 2018;19(3)


Nenhum comentário:
Postar um comentário