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quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Como prevenir a violência digital entre crianças e adolescentes

A instituição social Casa do Zezinho desenvolve oficinas e atividades educativas para promover o uso seguro e consciente da tecnologia entre jovens

 

A Casa do Zezinho, organização social localizada na zona sul de São Paulo, realiza uma programação especial voltada para a prevenção da violência digital entre crianças e adolescentes. A iniciativa inclui oficinas de programação e criação de jogos, que abordam temas como segurança online, ética digital e respeito no ambiente virtual. 

Segundo a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2024, realizada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), uma parcela dos adolescentes entrevistados entre 9 e 17 anos relataram ter se sentido incomodados ou chateados com algo visto online, e disseram já ter sido alvo de bullying ou ofensas virtuais. Diante desse cenário, projetos como o da Casa do Zezinho buscam oferecer espaços de reflexão, acolhimento e aprendizado prático para promover um uso mais seguro e consciente da tecnologia. 

Nas oficinas de programação e criação de jogos, os Zezinhos e Zezinhas, como são chamados os atendidos pela Casa, dão vida a enredos e personagens que encaram dilemas reais do mundo online, como o cyberbullying, o vazamento de dados ou o assédio virtual. Esses jogos não só refletem suas experiências como também viram ferramentas de conscientização para outros grupos. Em cada etapa, conceitos como ética digital, vulnerabilidade de dados e cuidado coletivo, como não deixar logins abertos em máquinas compartilhadas, são trabalhados de forma prática e significativa. 

As oficinas são recorrentes e adaptadas para cada faixa etária. Para as crianças, o foco está em informática básica, enquanto os jovens participam de aulas de informática avançada e programação, que abordam essas temáticas de forma prática e acessível. 

Essa proposta faz parte da Pedagogia do Arco-Íris, metodologia desenvolvida pela Tia Dag, fundadora da Casa do Zezinho, que reconhece cada criança e adolescente como único, com saberes, emoções e vivências próprias. Antes de qualquer conteúdo, há escuta, acolhimento e espaço para reflexão sem julgamentos. É dessa base que surgem conversas sobre limites, respeito e proteção no ambiente digital, sempre considerando a realidade e o repertório de cada um. 

Para abordar temas sensíveis como cyberbullying e assédio virtual, os educadores passam por formação contínua. Trocam experiências em rodas de conversa, estudam casos reais e se mantêm atualizados com materiais confiáveis e legislações como o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e a lei de combate à intimidação sistemática. Essa preparação permite falar sobre o tema com cuidado e respeito às histórias e idades dos participantes.
 

Sinais de alerta:

Os educadores da Casa do Zezinho chamam a atenção para sinais que podem indicar que algo não vai bem no ambiente digital e merecem cuidado e escuta:

  • Retraimento ou isolamento repentino;
  • Mudanças bruscas de comportamento;
  • Medo ou vergonha de usar o celular perto de adultos;
  • Exclusão ou afastamento das atividades em grupo;
  • Evitar conversar sobre o que faz online ou com quem fala;
  • Apagar histórico de navegação constantemente ou esconder dispositivos;
  • Passar tempo excessivo online, especialmente à noite

O vínculo construído com os jovens é essencial para perceber essas mudanças e oferecer apoio de forma cuidadosa e preventiva. Em casos concretos de violência digital, a Casa conta com uma equipe multidisciplinar, com assistência social e coordenação pedagógica, para fazer o acolhimento, garantir o encaminhamento necessário, oferecer acompanhamento emocional e orientar as famílias. 

A tecnologia, que pode ser usada para atacar ou expor, também se torna aliada no trabalho educativo. Vídeos, podcasts, redes sociais educativas e ferramentas colaborativas entram nas oficinas para desenvolver um uso mais crítico, consciente e positivo. Ao mesmo tempo, surgem desafios constantes, como acompanhar a velocidade com que novas plataformas aparecem e incluir os adultos da rede de convivência dos jovens nesse processo de formação. Por isso, a instituição busca envolver as famílias em encontros, oficinas temáticas, rodas de conversa e envio de materiais informativos, reconhecendo que proteger é uma tarefa compartilhada, ainda que muitos responsáveis não saibam como lidar com a educação digital dos filhos. 

O protagonismo juvenil é outro aspecto essencial dessa estratégia. Os Zezinhos e Zezinhas são convidados a propor campanhas, criar materiais, participar de rodas de conversa e atuar como multiplicadores de informações entre os colegas. Essa participação ativa reforça o senso de pertencimento e torna as ações mais eficazes, porque nascem das necessidades do próprio grupo. 

“Acreditamos que quando os Zezinhos e Zezinhas são ouvidos e participam das decisões, eles se tornam parte real da solução. Eles aprendem, ensinam e cuidam uns dos outros, criando uma rede de proteção muito mais forte e verdadeira” afirma Tia Dag, fundadora da Casa do Zezinho. 

A instituição também adota uma abordagem interseccional, reconhecendo que as violências digitais frequentemente se cruzam com questões de raça, gênero, orientação sexual e classe. Para isso, os educadores se dedicam a criar espaços de fala respeitosos e empáticos, garantindo que todas as identidades sejam ouvidas e acolhidas. 

Apesar dos desafios, a Casa mantém firme o compromisso de oferecer um ambiente seguro, empático e transformador. Um lugar onde cada Zezinho e Zezinha possa aprender, crescer e se tornar protagonista da própria história, também no mundo digital.


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