Boletim "Saúde da População Negra" traz dados recentes sobre o tema e especialistas do CEJAM reforçam a importância de um olhar cada vez mais focado nesse grupo
As pessoas negras compõem 57% da população
brasileira. Apesar de constituírem a maioria, ainda são consideradas minoria
quando se trata de acesso à saúde. Esse grupo enfrenta diariamente diversas
questões relacionadas aos cuidados, sendo, no final das contas, o que mais
sofre com a carência de serviços adequados.
"É importante notar que as desigualdades nos indicadores de saúde
enfrentadas por pessoas negras podem ser atribuídas a uma série de fatores
complexos e interconectados. As raças têm características genéticas peculiares
que podem, ou não, tornar um grupo mais propenso a doenças, dependendo do
ambiente enfrentado. Portanto, o meio ambiente hostil, o racismo sistêmico,
disparidades sociais e os fatores psicológicos conflituosos tornam as pessoas
mais vulneráveis”, afirma o Dr. Jonatas Nunes, médico supervisor da Atenção
Primária do CEJAM – Centro de Estudos e Pesquisas “Dr. João Amorim”.
De acordo com o Boletim Epidemiológico "Saúde da População Negra",
com base em um recente levantamento divulgado pelo Ministério da Saúde e pela
Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente, entre 2010 e 2020, houve um
preocupante aumento de 5% nas mortes maternas por hipertensão entre mulheres
pretas. Além disso, a pandemia de Covid-19 impactou de maneira desproporcional,
com 63,4% das mortes maternas decorrentes do vírus ocorrendo em mulheres
pretas.
Outro ponto de destaque do estudo foi o aumento de casos de HIV na população
negra nos últimos dez anos, evidenciando um crescimento de 12%. Em 2011, os
negros representavam 52,6% do total de óbitos em relação às pessoas brancas,
enquanto em 2021 esse percentual aumentou para 60,5%.
Esse cenário de disparidades também é observado em casos de sífilis adquirida,
onde a proporção de ocorrências em pessoas negras é majoritária em todas as
faixas etárias analisadas, além da preocupante incidência de tuberculose, que
atingiu 63% da população em 2022.
"É necessário compreender que a saúde da população negra deve ser uma
prioridade nas práticas de saúde. Reconhecer as desigualdades é o primeiro
passo para combater a discriminação que exclui esse público de seu direito
constitucional. Apenas a efetivação de práticas que proporcionem o bem-estar
físico, mental e social mudará essa realidade", complementa Allan Gomes de
Lorena, supervisor sanitarista da APS do CEJAM.
Há ainda desafios como a prevalência da doença falciforme, uma patologia
genética que afeta principalmente a população negra. No Brasil, estima-se que
entre 60 mil e 100 mil pessoas negras sofram com ela. Ademais, quadros como
diabetes mellitus tipo II, hipertensão arterial e deficiência de
glicose-6-fosfato desidrogenase (G6PD) também afetam, em grande parte, essas
pessoas.
“No caso do diabetes, fatores genéticos desempenham um papel importante, mas as
disparidades socioeconômicas, que se refletem na falta de acesso a alimentos
saudáveis, na falta de tempo para a prática de atividades físicas e em um
estilo de vida menos saudável, contribuem para o aumento dessas taxas. O
estresse crônico intensifica tudo, colaborando também para o aparecimento de
hipertensão”, explica o Dr. Jonatas.
Para auxiliar essa população, o CEJAM vem realizando ações direcionadas a esse
público nas unidades de saúde pública que administra. Nelas, há um
acompanhamento ativo de pacientes com anemia falciforme e o monitoramento de
pessoas hipertensas em uma linha de cuidado específica, além da articulação em
rede para atender pessoas com deficiência de G6PD.
Ações de incentivo
Além dos serviços oferecidos, neste mês de
novembro, que inclui o Dia da Consciência Negra (20), o CEJAM realizará, nas
unidades que administra no M'Boi Mirim e Campo Limpo, diversas atividades
voltadas para a temática.
"A realização de ações direcionadas para a saúde da população negra é de
fundamental importância no cotidiano dos serviços públicos de saúde. E o CEJAM
quer reforçar ainda mais o seu propósito com a causa, a partir de diferentes
eventos abertos ao público", ressalta Raquel de Oliveira, gerente técnica
regional.
Serão oferecidas palestras, oficinas, rodas de
conversa e atividades culturais, com o objetivo de discutir e dar visibilidade
às questões que podem promover melhores práticas compartilhadas de cuidado em
saúde da população negra, como equidade e justiça social, reconhecimento das
particularidades e condições que os afetam, combate ao racismo estrutural e
sensibilização dos profissionais de saúde.
Os interessados podem buscar mais informações nos Hospital Dia Campo Limpo,
Hospital Dia M' Boi Mirim II - Vera Cruz, Hospital Dia M' Boi Mirim I - Jardim
Ibirapuera e demais UBSs e AMAs gerenciados pelo CEJAM em ambas as regiões da
zona sul de São Paulo. Todos podem ser conferidos no site da instituição, na
parte “Onde Atuamos”.
CEJAM - Centro de Estudos e Pesquisas “Dr. João Amorim”
@cejamoficial
cejam.org.br/noticias
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