É só falar de dentes do siso em qualquer conversa que logo surgem muitas dúvidas e opiniões. Tem quem extraiu, quem segue com eles intactos e até aqueles que nunca ‘tiveram’. O tal dente do juízo é cercado de questões e cada pessoa tem uma experiência para contar, mas o que se sabe sobre ele não é nenhum mistério e sim ciência.
Quem desvenda as histórias mais comuns sobre os
terceiros molares, como são tecnicamente chamados esses dentes,
é o cirurgião-dentista e professor Cássio Edvard Sverzut,
integrante da Câmara Técnica de Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial do
Conselho Regional de Odontologia de São Paulo (CROSP).
Quando o dente do siso deve ‘nascer’?
Geralmente, a erupção desses dentes acontece entre
os 17 e 25 anos de idade, mas também pode ser depois disso. “Acredita-se que o
nome dente do juízo ou do siso é
devido ao fato de que, na maioria das pessoas, ele tende a erupcionar nessa
faixa etária, quando estaríamos adquirindo juízo ou amadurecimento”, explica o
especialista.
O próprio termo siso já
remete a isso, pois, na Língua Portuguesa, significa boa capacidade de
avaliação e bom senso.
Por que tem gente que não tem dente do siso?
Isso acontece porque os dentes do siso
tendem a desaparecer por agenesia, um processo evolutivo devido às mudanças no
estilo de vida dos seres humanos. “Não precisamos mais dos terceiros molares,
apenas dos primeiros e segundos molares. Com essa evolução, nossas arcadas
dentárias diminuíram de tamanho ao longo das gerações, não tendo mais espaço
para todos os dentes. Alguns estudos recentes observaram
que a agenesia de pelo menos um dos dentes do siso aconteceu em 20% a 25% da população em geral”, comenta. E,
como os terceiros molares são os últimos dentes
permanentes a erupcionar, eles acabam ficando sem espaço. Além da herança
genética, que é um outro fator que colabora para a falta de espaço, pois o
tamanho da arcada pode ser “herdado” dos progenitores. “Mesmo quando há espaço
suficiente, a erupção dos dentes do siso
pode variar muito. Ele pode não nascer, como comumente é dito, ou erupcionar
parcialmente, e é aí que ocorre parte dos problemas”, completa.
Problemas mais comuns
Cárie, doença periodontal, inflamação por pericoronarite, reabsorção da
raiz do segundo molar, tumores, erupção parcial ou não erupção devido à falta
de espaço na arcada dentária são alguns dos problemas relacionados aos
terceiros molares. Essas condições podem surgir uma vez que o dente
é o último da boca, o que dificulta a visualização pelo paciente ou mesmo pelo
profissional, levando à higienização inadequada e incidência de cárie maior do
que os demais dentes das arcadas. Dependendo da
gravidade, é possível que haja a indicação de extração, o que leva a mais um
tópico dos temas discutidos sobre os dentes do siso.
Os dentes do siso podem “empurrar” os dentes da frente?
Outra questão muito comentada é de que os dentes
do siso ‘empurram’ os demais dentes
ao erupcionar. “Muitas pessoas têm os dentes da frente
das arcadas (incisivos) fora da posição, o que tecnicamente é chamado de
apinhamento dentário anterior, e isto pode ocorrer durante a época de erupção
dos dentes do siso. Por este
motivo, eles acabaram, já que se creditava a eles esta ocorrência”, argumenta.
Mas, estudos atuais mostram que pessoas que nasceram sem os dentes
do siso ou removeram eles antes do período de erupção
também tiveram esse problema. “Portanto, se os dentes do siso participam desse processo em algum momento, essa
participação não é relevante quando comparada aos outros fatores”, completa. O
que não mais justifica a indicação da remoção dos dentes
do siso para se evitar o apinhamento dentário anterior.
Extrair ou não extrair: eis a questão
A remoção do dente do siso,
assim como de qualquer outro dente, depende da avaliação
e indicação profissional. Entre os exemplos indicativos, como os problemas
citados, o cirurgião-dentista fala sobre a cárie. “Um dente do siso que esteja com pequena
cárie é menos difícil de ser removido quando comparado ao mesmo dente
com cárie extensa ou com infecção grave. Por isso é importante que, ao ter
indicação, a remoção seja realizada. Caso contrário, o procedimento terá que
ser feito no futuro e, possivelmente, em piores condições”.
Se a extração é impedida por medo, existem
alternativas, como a sedação consciente ou por anestesia geral, para solucionar
problemas bucais e garantir o conforto e segurança do paciente. Já o total de dentes a ser removido depende da situação: se o paciente tiver
os quatro dentes do siso com
indicação de remoção, a quantidade de extração por sessão dependerá do
posicionamento dos dentes e do tipo de anestesia. “Um dente em posição vertical (normal e erupcionado) tem menor
dificuldade de remoção quando comparado ao dente em
posição horizontal (deitado). Isso deve ser levado em consideração, bem como a
quantidade de anestesia permitida para aquele paciente por procedimento cirúrgico,
pois há um limite de injeção de anestesia local que não pode ser ultrapassado.
Se for utilizada a anestesia geral, é possível remover todos os quatro dentes do siso em uma única sessão, mas,
nesse caso, a cirurgia deve ser realizada em hospital”, detalha.
A recuperação pós-cirúrgica, tanto para anestesia
local quanto geral, está diretamente relacionada aos fatores locais e
sistêmicos de cada paciente. “Um fator local é a cárie e um fator sistêmico é a
idade. Por exemplo, pacientes jovens geralmente se recuperam mais rápido e têm
um pós-operatório melhor com menos complicações quando comparados a pacientes
adultos”, conta.
Além disso, todas as demais condições do paciente
precisam ser avaliadas de forma criteriosa. “Em pacientes sem nenhum problema
de saúde e com dentes em posição vertical e erupcionados,
a extração pode ser feita pelo cirurgião-dentista clínico
geral habilitado. Entretanto, para dentes nas demais
posições, por exemplo, a horizontal, e para pacientes com problemas sistêmicos,
por exemplo, hipertensão arterial, diabetes, que tenham sofrido infarto ou
façam uso de medicações, a recomendação é realizar a remoção com um
profissional especializado em Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial”,
sugere.
Em todos os casos, somente a avaliação e atuação de
um profissional da Odontologia levará ao sucesso do procedimento, seja para
tratar do dente do siso, monitorar
seu impacto na saúde bucal do paciente ou realizar a extração.
Conselho Regional de
Odontologia de São Paulo (CROSP)
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