Especialistas recorrem
às letras do alfabeto como uma analogia para ilustrar previsões econômicas e a
influência do controle da pandemia para o crescimento das empresas
O ano começou otimista com perspectivas de
desenvolvimento econômico após um 2020 frustrante e cheio de percalços. Mas
para que o Brasil tenha um crescimento na ordem de 3,0%, ainda há muita água
para rolar debaixo da ponte, na visão de Carlos Primo Braga, professor
associado da Fundação Dom Cabral e ex-diretor de Política Econômica e Dívida do
Banco Mundial.
Na visão dele, é o controle da pandemia que irá
ditar os rumos do crescimento econômico nos próximos meses. O especialista usa
como referência o fator K, indicador que mede o grau da dispersão associado com
o vírus. “Quanto menor o valor de K, maior é a tendência de que o surto seja
explicado por um número limitado de eventos/pessoas com características “super
propagadoras”, ou seja, que disseminam o contágio em larga escala”, afirma
Braga. Ele acrescenta que estudos realizados em diferentes países estimam esse
valor para o Sars-CoV2 em índices bem inferiores a 1. Isto significa que 10% a
20% das pessoas infectadas são responsáveis por cerca de 80% das novas
infecções.
Teoricamente, essa seria uma boa notícia porque a
super propagação poderia ser controlada por meio da limitação das aglomerações
e testagem generalizada. Essa é uma maneira de evitar quarentenas draconianas,
como observamos na Europa e na China, por exemplo. No entanto, em países nos
quais há uma grande polarização política e um setor informal substantivo, como
é o caso do o Brasil, há um favorecimento da “super propagação” do vírus. A
aparição de novas cepas do vírus (como a variante P1 que surgiu no Brasil), que
parecem ser mais contagiosas, torna a situação ainda mais preocupante. É consenso
entre cientistas e autoridades sanitárias que a queda da curva de contágio
dependerá não apenas de medidas de distanciamento social – além do uso de
máscaras e higienização –, mas principalmente da vacinação em massa.
Evidentemente, acelerar o cronograma de vacinação e evitar a politização do
debate sobre as medidas de saúde pública devem ser prioridades no caso
brasileiro.
Um alfabeto de possibilidades
De acordo com o professor da FDC, em meio à
pandemia, analistas elaboraram um “alfabeto” de previsões para a retomada do
crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), conforme a variação dos cenários
impostos pela Covid-19 e sua relação com setores específicos da economia. “Na
maioria dos países, a indústria vinha se recuperando em V, em comparação com o setor
de serviços, que seguia o curso da letra U. No entanto, com o surgimento de uma
nova cepa, além do relaxamento das medidas de distanciamento social, e os danos
crescentes nos balanços das empresas e a interrupção de programas de
transferência de renda, o espectro da trajetória do PIB é mais acidentado,
semelhante ao desenho da letra K”, explica Braga.
Qual a perna da letra K que
representa sua empresa?
O especialista destaca também que a analogia à
letra K permite uma leitura alternativa para os contornos da crise com ênfase
no impacto sofrido pelas diferentes classes de rendas e empresas. “Na
recuperação em K, as pessoas ou empresas que tendem a ganhar fôlego mais rápido
representam a perna ascendente da letra, são aquelas bem dotadas com ativos financeiros
e liquidez e que estão melhor preparadas para operar em ambientes digitais. Já
as camadas mais pobres da sociedade e as empresas que não estão preparadas para
operar no mundo digital, dependendo de interações físicas para suas operações,
tendem a seguir uma trajetória contracionista como capturado pela perna
descendente do K”, avalia.
Braga relata ainda que, na maioria dos países, a
trajetória em K foi influenciada pela expansão monetária e fiscal. Isso porque
programas governamentais voltados para aliviar o impacto da pandemia tanto com
relação a pessoas físicas como jurídicas amenizaram o impacto da crise mesmo
num cenário de recessão e desemprego. O Brasil, por exemplo, fez um esforço
fiscal ímpar entre economias emergentes em 2020. “Além disso, mudanças de
comportamento dos consumidores, principalmente a queda de consumo no setor de
serviços, a influência na queda dos juros sobre o serviço de dívidas, por sua
vez, promoveu um aumento da poupança”, reflete o especialista.
Economistas concordam que, no Brasil, as
transferências emergenciais de renda atenuaram a crise e seu impacto nos níveis
de pobreza e desigualdades sociais. “Entretanto, não podemos ignorar a
realidade do desequilíbrio e deixar de lado as âncoras fiscais, como o teto de
gastos, por exemplo. Tudo isso afetará a credibilidade do setor público. Por
isso, o governo deve ser competente na administração da situação fiscal. Cabe
salientar que a perda de confiança no poder público pode contribuir para uma
trajetória em k mais acentuada nesse ano de 2021”, ressalta Braga.
Previsões para a economia
mundial
De acordo com informações recentes divulgadas pelo
Banco Mundial e pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico
(OCDE) a economia global deve crescer de 4 a 5,6% em 2021 após um recuo da
ordem de 4% no ano passado. A previsão é de que os Bancos Centrais continuarão
adotando políticas expansionistas que contribuirão para a manutenção de taxas
de juros nominais próximas a zero se as expectativas inflacionárias continuarem
sob controle.
“Caberá aos governos decidirem sobre a operação das
políticas fiscais expansionistas. Se essas políticas forem reduzidas a
trajetória em K ficará mais evidente, já que à recuperação do mercado de
trabalho tende a acontecer num ritmo menos acelerado do que a valorização de
ativos de riscos em meio a políticas monetárias expansionistas”, argumenta o
professor da FDC.
A grande questão, no momento, segundo ele, diz
respeito à dramática expansão fiscal nos EUA, com o recém aprovado programa de
US$1,9 trilhões da administração do presidente Joe Biden, e o potencial impacto
desse programa sobre expectativas inflacionárias.
Taxa de juros X taxa de
crescimento
Analistas de mercado acreditam que desde que a taxa
de juros seja menor que a previsão da taxa de crescimento da economia, a
administração do desequilíbrio fiscal pode ser realizada sem maiores surpresas.
Contudo, levando em conta a realidade brasileira, o aumento do déficit primário
– de 1,3% do PIB em 2019 para 11,3% em 2020 – encaminhou a dívida pública para
uma trajetória insustentável. “O custo e serviço da dívida caiu de quase 15% em
2016 para 5% em 2020, mas a inclinação crescente da curva de juros de longo
prazo é um alerta”, finaliza Braga.
Fórum Econômico
O professor Carlos Braga é um dos palestrantes do
2º Fórum Empresarial, realizado em parceria entre a JValério Gestão e
Desenvolvimento e a Fundação Dom Cabral (FDC). O evento será online,nos dias 24
e 25 de março, com inscrições gratuitas no site Fórum Empresarial - 2021
- JValério FDC (jvalerio.com.br).
Na palestra “Família, família, negócios a parte”, o
professor da FDC Dalton Sardenberg, que é especialista em Gestão de empresas
familiares, aborda justamente a importância de encontrar, entre os herdeiros,
alguém com habilidade para dar continuidade à gestão do negócio. Afinal, o
planejamento sucessório deve envolver a formação de sucessores e o treinamento
ou contratação de um executivo para gerir a empresa, e vai além das questões
burocráticas para a transferência de propriedade.
A transformação digital também estará em voga no
Fórum Empresarial e Gil Giardelli, que estuda a cultura digital, ministra a
palestra “Globotics e a Sociedade 5.0 – e as transformações do Brasil?”. O
evento contará ainda com a participação de outros profissionais renomados, como
o jornalista e palestrante Clóvis de Barros Filho, Adriana Netto (Coach de
executivos e herdeiros de empresas familiares e professora da FDC), Beto
Madalosso (empresário no ramo da gastronomia) e Marcio Viana (CEO da TOTVS
Unidade Curitiba e membro do Conselho de Administração da multinacional EXAGO,
de Portugal).
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