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quinta-feira, 16 de abril de 2026

Cuidados com os pacientes de Doença de Huntington no Brasil recaem principalmente para mães e esposas, aponta estudo

  

A condição rara e altamente incapacitante impacta toda a estrutura familiar, sem preparo prévio em saúde, sobrecarregadas emocional e financeiramente


O levantamento, conduzido em 2025 pela Associação Brasil Huntington (ABH), com apoio da Teva Brasil, mapeou pessoas com Doença de Huntington em 608 municípios brasileiros e evidencia que os impactos da doença vão muito além do paciente, alcançando de forma profunda seus cuidadores. Em sua maioria, são familiares diretos, que assumem a função sem preparo prévio. Intitulado Mapeamento da Doença de Huntington no Brasil: Perfil das Pessoas com DH, Cuidadores e Familiares em Risco, o estudo revela que o suporte a essas pessoas fica a cargo das mulheres (84%), com idade média de 48 anos, reforçando o peso da doença sobre o núcleo familiar próximo.

A Doença de Huntington (DH) é uma condição rara, hereditária, progressiva e neurodegenerativa, com idade média de início entre 30 e 50 anos, fase em que muitas pessoas estão em plena vida profissional e familiar. Entre os participantes do levantamento, a faixa etária média dos pacientes é de 52 anos, sendo a maioria mulheres (59%), pessoas brancas (62%) e residentes com familiares (74%). Os impactos socioeconômicos são expressivos. Apenas 23% recebem pensão por invalidez, enquanto 32% dependem de auxílio ou suporte financeiro da família.

Com a progressão da doença, o cuidado passa a ser uma responsabilidade majoritariamente do núcleo familiar mais próximo, sendo exercido principalmente por cônjuges (33%) e mães (28%), o que evidencia o impacto direto da DH na dinâmica familiar e na rotina. Do ponto de vista educacional, o estudo identificou que desses responsáveis pelos pacientes 63% têm ensino superior, mas isso não se reflete, necessariamente, em maior segurança financeira: 63% vivem de salário ou pró-labore, e 40% têm renda entre dois e três salários-mínimos.

“A Doença de Huntington provoca impactos profundos e progressivos não apenas na saúde dos pacientes, mas também na vida financeira, profissional e emocional de toda a família. À medida que os sintomas motores, cognitivos e psicológicos avançam, muitas pessoas com DH enfrentam redução da capacidade de trabalho ou afastamento precoce do mercado, o que compromete a renda familiar e aumenta a dependência de benefícios sociais ou do suporte de parentes”, explica Gladys Miranda, presidente da ABH.

O levantamento também aponta um desafio estrutural importante: três em cada quatro cuidadores não tinham nenhuma experiência prévia antes de assumir o cuidado com a pessoa diagnosticada. A falta de preparo, aliada à progressão da doença, amplia a sobrecarga emocional, financeira e social dessas famílias.

“Paralelamente, familiares, especialmente cônjuges e mães, passam a assumir o papel de cuidadores, muitas vezes interrompendo suas próprias carreiras ou reduzindo jornadas de trabalho, o que agrava a pressão econômica. Essas mudanças repercutem diretamente na qualidade de vida, com perda de autonomia, restrição de atividades sociais e de lazer, sobrecarga emocional, alterações no convívio familiar e impacto no bem-estar psicológico de todos os envolvidos”, conclui Gladys.

 

Conhecer para cuidar

A Doença de Huntington é uma condição hereditária rara, que afeta o sistema nervoso central e apresenta como características alterações motoras, comportamentais e cognitivas. É causada por uma mutação no gene que codifica a proteína huntingtina (HTT), que resulta em uma forma anormal da proteína. Essa mutação leva à morte de células nervosas em áreas específicas do cérebro e causa comprometimento em diversas funcionalidades do corpo.

A transmissão da doença segue um padrão de herança autossômica dominante: basta que um dos pais tenha o gene alterado para que cada filho tenha 50% de chance de herdar a mutação e desenvolver a doença. Homens e mulheres são igualmente afetados e, se a mutação não é herdada, a condição não é transmitida para as próximas gerações1.

A DH inicia, em geral, em pessoas entre os 30 e 50 anos, com sintomas comportamentais e/ou cognitivos e pode ser confundida com depressão, esquizofrenia e outros transtornos psiquiátricos. Porém, muitas vezes o diagnóstico só é fechado quando a coreia (movimentos involuntários rápidos e descoordenados) se inicia. O diagnóstico da DH é um processo multifacetado, normalmente feito por um médico neurologista, que envolve avaliação clínica, testes genéticos e, em alguns casos, exames neurológicos adicionais e teste genético confirmatório.

A agilidade na procura por acompanhamento médico auxilia o paciente e seus familiares a planejarem melhor sua assistência, prolongar a autonomia e a manter a qualidade de vida do paciente.

A DH é uma doença rara que afeta cerca de 1 em cada 10 mil pessoas na maioria dos países europeus. A incidência varia em diferentes regiões do mundo. Não existem estatísticas oficiais de casos de DH no Brasil, porém estima-se que existam entre 13 e 19 mil pessoas portadoras do gene da doença2. Há locais de alta prevalência como Feira Grande (AL), Ervália (MG) e o distrito de Salão (CE), que, provavelmente, decorrem do isolamento geográfico e casamentos entre parentes.

 

Referências  

1 ABH - Associação Brasil Huntington. Herança genética na Doença de Huntington: entenda o risco e a transmissão. Disponível em: Link

2 BRASIL. Ministério da Saúde. Biblioteca Virtual em Saúde. 27/9 – Dia Nacional da Doença de Huntington. Brasília: Ministério da Saúde, [2023?]. Disponível em:Link


Tela demais, fala de menos? Uso excessivo de dispositivos pode impactar linguagem infantil, alertam estudos

 

Especialista explica por que a interação humana é essencial e como o excesso de telas pode agravar atrasos, especialmente no TEA


O aumento do tempo de exposição a telas na infância tem acendido um alerta entre especialistas em desenvolvimento infantil. Pesquisas recentes apontam que o uso excessivo de dispositivos eletrônicos pode estar associado a atrasos na linguagem, um impacto ainda mais sensível em crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Para a fonoaudióloga Paula Anderle, especialista em TEA, o principal problema não é apenas o tempo de tela, mas a redução das interações humanas.

“A linguagem não se desenvolve de forma passiva. Ela depende da troca, da resposta, da intenção comunicativa. A tela, quando em excesso, substitui essas experiências fundamentais”, explica.


O que dizem as evidências

Um estudo publicado no JAMA Pediatrics (Madigan et al., 2019) identificou que a maior exposição a telas em crianças pequenas está associada a piores resultados em testes de desenvolvimento, especialmente na área da comunicação.

Já uma pesquisa longitudinal conduzida no Japão com mais de 7 mil crianças (Takahashi et al., 2023) demonstrou que maior tempo de tela aos 12 meses está diretamente relacionado a atrasos no desenvolvimento aos 2 e 4 anos, com impacto significativo na linguagem.

Além disso, revisões sistemáticas indicam que a maioria dos estudos encontra associação entre uso excessivo de telas e prejuízos no desenvolvimento infantil, incluindo habilidades comunicativas (Stiglic & Viner, 2019).


Impacto ampliado no TEA

Crianças com TEA podem ser ainda mais vulneráveis. Isso porque já apresentam dificuldades na comunicação social e a diminuição das interações presenciais pode intensificar essas limitações.

A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda evitar exposição a telas antes dos 2 anos e limitar rigorosamente o uso após essa idade, justamente pelos potenciais impactos no desenvolvimento.


Equilíbrio é o caminho

A especialista reforça que não se trata de eliminar totalmente as telas, mas de usá-las com critério:

     Estabelecer limites claros de tempo

     Priorizar brincadeiras interativas

     Assistir junto, promovendo interação

     Evitar uso como principal forma de entretenimento

“O desenvolvimento da linguagem acontece na relação. Nenhum aplicativo substitui o olhar, a resposta e o vínculo”, conclui Paula Anderle.

 


Paula Anderle - fonoaudióloga analista do comportamento, especialista em Transtorno do Espectro Autista (TEA). Atua com avaliação e intervenção precoce, com foco na comunicação funcional, incluindo fala, linguagem e recursos de Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA). Seu trabalho é voltado à promoção da autonomia e da interação social de crianças autistas, com abordagem individualizada e baseada em evidências.

                                                            

 Referências citadas no texto:

      JAMA Pediatrics – Madigan, S. et al. (2019). Association Between Screen Time and Children’s Performance

      Takahashi, M. et al. (2023). Screen time and developmental delay (estudo longitudinal – Japão)

      Stiglic, N., & Viner, R. (2019). Effects of screentime on health and well-being

      Sociedade Brasileira de Pediatria – Manual de orientação: uso de telas                                                                         

Nem tudo é sobre TDAH: Às vezes, devemos considerar o Autismo na vida adulta

 Dra. Ana Aguiar, psiquiatra, palestrante e autista, compartilha sua experiência pessoal e profissional para ajudar a identificar sinais de autismo em adultos e a importância de um diagnóstico adequado

 

O diagnóstico de autismo tem sido, historicamente, mais associado à infância. No entanto, a realidade é que muitos adultos convivem com o transtorno sem nunca terem sido diagnosticados, muitas vezes confundindo os sinais com outras condições como o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Dra. Ana Aguiar, psiquiatra, autista, com altas habilidades e palestrante com 19 anos de experiência no acompanhamento de pessoas no espectro autista, explica como identificar sinais do transtorno no universo adulto e a importância de um diagnóstico adequado. 

"Nem todo comportamento que parece desatenção ou impulsividade é relacionado ao TDAH. Às vezes, o que estamos vendo são os sinais de autismo, que, por serem mais sutis na vida adulta, acabam sendo subestimados ou ignorados", explica Dra. Ana Aguiar. 

Segundo a Dra. Ana, os sinais de autismo na vida adulta podem ser bem diferentes dos observados na infância, o que dificulta o diagnóstico. "Enquanto crianças autistas, principalmente do sexo masculino, podem apresentar dificuldades claras de aprendizado ou comportamento, adultos frequentemente se adaptam às exigências sociais e profissionais, mas ainda enfrentam desafios invisíveis, como dificuldades de comunicação, entendimento de normas sociais e necessidade de uma rotina estruturada", afirma. 

Muitos adultos autistas, muitas vezes sem o diagnóstico, enfrentam desafios em interações sociais, como ler expressões faciais ou entender ironias, e também são excessivamente sensíveis a estímulos sensoriais. "A maioria de nós internaliza essas dificuldades ao longo da vida, o que pode resultar em estresse, ansiedade e até depressão. Isso é muitas vezes confundido com outros problemas, sem que se considere a possibilidade de que seja autismo", explica Dra. Ana. 

Como autista, Dra. Ana Aguiar sabe na prática como um diagnóstico tardio pode fazer toda a diferença. “Ao entender o que está por trás de suas dificuldades, muitos adultos autistas conseguem encontrar soluções personalizadas, desde terapias específicas até o uso de estratégias para melhorar a convivência social e profissional”, afirma. Ela reforça que a identificação dos sinais do autismo é crucial para que esses adultos possam viver uma vida mais plena e com maior compreensão de suas próprias necessidades. 

O diagnóstico tardio não precisa ser uma barreira. Pelo contrário, pode abrir portas para uma nova forma de viver, mais adaptada e compreendida. “O autismo adulto não é uma sentença, é uma parte da nossa identidade que, quando reconhecida e respeitada, nos permite florescer”, conclui a Dra. Ana.

 

Medicina preventiva ajuda a chegar à terceira idade com mais autonomia e qualidade de vida


 Com o aumento da expectativa de vida no Brasil, a importância de hábitos saudáveis e acompanhamento médico ao longo da vida se reforça


O envelhecimento da população brasileira tem avançado de forma acelerada nas últimas décadas, trazendo novos desafios para a saúde pública e para a qualidade de vida da população. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que a expectativa de vida no país chegou a 76,6 anos, o maior índice da série histórica recente.

 

Esse cenário também se reflete no crescimento da população idosa. Em pouco mais de uma década, a proporção de brasileiros com 60 anos ou mais passou de 11,3% para 16,1% da população, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD), do IBGE. O avanço da longevidade reforça a necessidade de olhar para a saúde de forma preventiva ao longo da vida.

 

Para o médico Dr. André Guanabara, envelhecer com qualidade depende de um conjunto de fatores que começam muito antes da terceira idade. “Hoje sabemos que muitas doenças associadas ao envelhecimento, como diabetes, problemas cardiovasculares e alterações metabólicas, podem ser prevenidas ou controladas quando existe acompanhamento médico e atenção aos hábitos de vida”, explica.

 

Segundo o médico, a medicina preventiva tem justamente o objetivo de identificar riscos precocemente e promover mudanças que contribuam para um envelhecimento mais saudável. Entre os principais pilares estão alimentação equilibrada, prática regular de atividade física, sono adequado e controle de fatores metabólicos. 

A Organização Mundial da Saúde (OMS) destaca que a saúde ao longo da vida é um dos fatores que mais influenciam a forma como as pessoas envelhecem, impactando diretamente autonomia, bem-estar e participação social em idades mais avançadas.

 

Na prática, isso significa que viver mais não é necessariamente sinônimo de viver melhor. O acompanhamento médico regular permite monitorar indicadores importantes da saúde e ajustar estratégias antes que problemas mais graves se desenvolvam.

 

“Envelhecer faz parte do ciclo natural da vida, mas chegar à terceira idade com autonomia e disposição depende muito das escolhas feitas ao longo do caminho. A medicina preventiva permite agir antes que a doença apareça, preservando a qualidade de vida por mais tempo”, conclui o especialista.

 

Quando a “barriga inchada” vira sinal de alerta: médico explica causas e exames

 Gastroenterologista Nelson Cathcart Jr. explica que o sintoma comum pode estar relacionado a intolerâncias alimentares, disbioses, doenças inflamatórias e até tumores

 

 

A sensação de “barriga inchada” é tão frequente que muitas pessoas acabam normalizando o desconforto. No entanto, a distensão abdominal persistente pode ser um sinal de alerta. O gastroenterologista Nelson Cathcart Jr. explica que o sintoma, quando contínuo, não deve ser ignorado. “Sentir-se estufado todos os dias não é normal. Quando a distensão ultrapassa um mês ou vem acompanhada de perda de peso, sangue nas fezes, anemia ou alterações persistentes das fezes, a investigação deve ser imediata”, ressalta.

 

Segundo o especialista em doenças do estômago e intestino, a distensão abdominal pode ter diversas causas. Entre as mais comuns estão intolerâncias alimentares, que incluem não apenas lactose, mas também frutose e frutanos, que são carboidratos encontrados em diversos vegetais e cereais. Doenças funcionais, como síndrome do intestino irritável e constipação, também estão entre os motivos frequentes. Disbioses intestinais, como SIBO (Supercrescimento Bacteriano no Intestino Delgado) e IMO (Supercrescimento de Micro-organismos Metanogênicos), doenças relacionadas ao glúten, doenças inflamatórias intestinais e condições ginecológicas, como endometriose e tumores de ovário, completam a lista.

 

“Uma simples infecção pode alterar a microbiota e gerar distensão, mas também podemos estar diante de doenças como câncer de intestino, reto, fígado ou peritônio. Por isso, o contexto clínico é fundamental”, salienta.

 

Para auxiliar no diagnóstico, o médico destaca o uso dos testes respiratórios, exames modernos e não invasivos capazes de identificar intolerâncias alimentares e disbioses. Os aparelhos detectam gases produzidos no intestino e exalados pelos pulmões, permitindo avaliar fermentação e absorção de substâncias como lactose, frutose e frutanos. “Os testes respiratórios são ferramentas seguras e precisas. Eles ajudam a diferenciar intolerâncias de supercrescimento bacteriano, condições que muitas vezes se confundem”, explica.

 

Além dos respiratórios, o médico destaca que outros exames podem ser necessários dependendo do caso, como endoscopia, colonoscopia, ultrassonografia, tomografia ou ressonância, especialmente quando há suspeita de doenças estruturais, inflamatórias ou tumorais.


 

Prevenção e cuidados


A alimentação e os hábitos diários também influenciam o quadro. A distensão pode ocorrer por fermentação excessiva, retenção de água no intestino ou digestão lenta. No entanto, o especialista reforça que não se deve cortar alimentos por conta própria.

 

“Antes de suspender alimentos por conta própria, o que pode inclusive atrasar o diagnóstico de condições importantes, é fundamental ter uma avaliação adequada. O ideal é buscar acompanhamento médico”, orienta o especialista.

 

De acordo com o gastroenterologista, entre as medidas que ajudam a reduzir episódios de distensão estão: comer devagar, evitar grandes volumes de comida de uma só vez, reduzir bebidas gaseificadas, praticar atividade física, dormir bem, controlar o estresse e evitar hábitos que aumentam ar no intestino como mascar chiclete e fumar.

 

Dia Mundial da Voz: 8 mitos e verdades sobre a saúde vocal

 

Especialista esclarece hábitos comuns e orienta como proteger a saúde vocal 

Sussurrar para “descansar” a voz, pigarrear para limpar a garganta ou apostar em pastilhas como solução rápida: práticas comuns no dia a dia podem, na verdade, agravar problemas vocais. No Dia Mundial da Voz, celebrado em 16 de abril, especialistas chamam a atenção para mitos amplamente difundidos que colocam em risco a saúde vocal, especialmente entre quem depende da voz no trabalho.

Apesar da dificuldade de mensurar a incidência exata de distúrbios vocais, sintomas como a rouquidão podem decorrer de condições benignas como nódulos, cistos e pólipos nas cordas vocais mas também pode ser um primeiro sintoma de câncer de laringe, por exmplo.

Um levantamento apresentado no “IV Seminário Trabalho e Saúde dos Professores: Precarização, adoecimento e caminhos para a mudança”, em 2021, apontou que 57% dos professores da rede municipal de São Paulo relataram problemas de voz.

Para o otorrinolaringologista Gustavo Passerotti, do Hospital e Maternidade São Luiz Osasco, da Rede D’Or, a alta incidência está diretamente relacionada à desinformação. “Muitas pessoas acreditam que estão cuidando da voz, quando, na prática, adotam hábitos que podem causar ainda mais sobrecarga ou lesão”, explica.


Mitos e verdades sobre a voz

“No dia a dia, escutamos diversas recomendações sobre como cuidar da voz, mas nem todas são corretas”, afirma o especialista. Confira o que é mito e o que é verdade:

1 – Sussurrar ajuda a preservar a voz — Mito
Apesar de parecer mais leve, o sussurro aumenta a tensão nas cordas vocais e pode causar mais esforço do que a fala habitual.

2 – Rouquidão indica problema na voz — Verdade
A disfonia é um sinal de alteração no funcionamento da laringe. Se persistir por mais de 15 dias, deve ser investigada por um especialista.

3 – Pastilhas e gargarejos curam dor de garganta — Mito
Esses recursos aliviam os sintomas, mas não tratam a causa do problema.

4 – Maçã ajuda a melhorar a voz — Verdade
Frutas estimulam a produção de saliva, ajudando na lubrificação das pregas vocais. Alimentos como gengibre, mel e alho também podem auxiliar por suas propriedades anti-inflamatórias.

5 – Pigarrear limpa a garganta — Mito
O hábito provoca atrito entre as pregas vocais e pode favorecer o surgimento de lesões.

6 – Bebidas muito quentes ou geladas melhoram a voz — Mito
Temperaturas extremas podem prejudicar a mucosa da laringe e comprometer sua função.

7 – Álcool e cigarro ajudam a “aquecer” a voz — Mito
Ambos agridem a mucosa da laringe e aumentam o risco de doenças, incluindo o câncer.

8 – A voz gravada é a voz real — Mito
A percepção da própria voz muda porque também a ouvimos por condução interna do corpo, o que não ocorre em gravações.

Segundo o especialista, combater esses equívocos é essencial para evitar danos. “A desinformação pode levar as pessoas a adotarem hábitos prejudiciais acreditando que estão se cuidando. Esclarecer esses pontos é fundamental para a saúde coletiva”, destaca.


Como manter a saúde vocal em dia

Entre os principais fatores que impactam a voz estão alergias, uso inadequado da fala e refluxo gástrico.
Para preservar a saúde vocal, algumas medidas simples fazem diferença:

• manter boa hidratação ao longo do dia;

• controlar quadros alérgicos, como rinite;

• evitar excesso de café, álcool e alimentos irritativos, como pimenta, frituras e ultraprocessados.

“Além disso, sintomas persistentes como rouquidão, dor ao falar ou engolir e tosse frequente por mais de 15 dias devem ser avaliados por um médico”, orienta o médico do São Luiz Osasco.

Localizado em uma das áreas mais populosas da Grande São Paulo, o Hospital e Maternidade São Luiz Osasco, da Rede D’Or, possui a maior e mais completa estrutura hospitalar da cidade. A unidade conta ainda com corpo clínico renomado, tecnologia de ponta, hotelaria diferenciada, pronto-socorro e serviços de alta complexidade.

 

Rede D’Or

Coceira íntima nem sempre é candidíase: o risco do autodiagnóstico feminino

Automedicação e desinformação podem mascarar doenças ginecológicas e atrasar o tratamento correto

 

A coceira íntima é um dos sintomas mais comuns relatados por mulheres, mas tratá-la automaticamente como candidíase pode ser um erro com consequências importantes. O hábito de recorrer a medicamentos sem orientação médica ainda é frequente e pode mascarar diferentes condições, como vaginose bacteriana, infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) e até dermatites.

De acordo com a ginecologista Karoline Prado, o problema vai além do desconforto imediato. “Nem toda coceira é candidíase, embora essa seja a associação mais comum. Quando a mulher se automedica, ela pode aliviar temporariamente os sintomas, mas não resolve a causa e isso pode agravar o quadro”, explica.

Além do diagnóstico equivocado, o uso indiscriminado de antifúngicos pode contribuir para o desequilíbrio da microbiota vaginal, favorecendo infecções recorrentes. Outro fator que merece atenção é o excesso de produtos íntimos, como sabonetes específicos, duchas e fragrâncias, que podem alterar o pH natural da região.

“A vulva e a vagina têm mecanismos próprios de defesa. Interferir demais, seja com medicamentos ou produtos, pode ser prejudicial. O ideal é procurar avaliação médica sempre que houver mudança nos sintomas”, orienta a especialista.

Entre os sinais de alerta que exigem investigação estão corrimento com odor forte, dor, ardência ao urinar e recorrência dos sintomas. O diagnóstico correto é fundamental para um tratamento eficaz e seguro.

Caso tenha interesse na pauta, estou à disposição para fazer a ponte de entrevista com a ginecologista.

 

Karoline Prado - Médica ginecologista e obstetra, com atuação voltada à saúde íntima feminina em todas as fases da vida. Pós-graduada em procedimentos íntimos, incluindo laser e cirurgia íntima, trabalha com foco em bem-estar, funcionalidade e qualidade de vida da mulher. Defende uma abordagem humanizada, baseada em evidências, com ênfase no acolhimento, autonomia e educação em saúde.


Seu intestino não parou por causa do Mounjaro? Tem um erro muito comum por trás disso

Alice Paiva, nutricionista esportiva especializada em emagrecimento, alerta para os impactos do Mounjaro no intestino e como ajustar a alimentação para preservar a saúde intestinal

 

Quem já usou Mounjaro sabe que o medicamento tem um efeito claro na redução do apetite, mas poucos compreendem os impactos que ele pode ter no intestino. Alice Paiva, nutricionista esportiva especializada em emagrecimento, explica que o Mounjaro não afeta apenas o apetite, mas também altera o ambiente intestinal de forma significativa. A redução do apetite leva a uma ingestão menor de alimentos, mas o problema vai além disso: com menos comida, você reduz também os estímulos que são essenciais para o funcionamento adequado do seu intestino. 

Quando você come menos, está diminuindo automaticamente a fibra, que é um substrato fundamental para a microbiota intestinal. Isso leva a um desequilíbrio que começa no ambiente intestinal, afetando diretamente o processo digestivo”, afirma Alice. Segundo a especialista, o efeito do Mounjaro sobre o apetite cria um contexto metabólico que afeta o intestino, gerando uma desaceleração no seu funcionamento. 

O intestino depende de estímulos para manter seu ritmo, e esses estímulos não se limitam a comer alimentos saudáveis. “Fibra, gordura e volume alimentar são essenciais para manter o intestino ativo. A fibra fermentar e nutre a microbiota; as gorduras ativam reflexos intestinais; e o volume gera movimento. Sem esses estímulos, o intestino simplesmente desacelera”, explica Alice. 

Em vez de apenas focar na perda de peso, Alice Paiva destaca que é fundamental considerar o que está acontecendo no intestino durante o processo de emagrecimento. “Emagrecer não é só sobre diminuir a quantidade de comida, mas sim sobre ajustar a alimentação para garantir que o intestino continue funcionando bem”, afirma a nutricionista. 

Para quem está usando Mounjaro ou qualquer outro tratamento para emagrecimento, Alice sugere ajustes estratégicos na alimentação para evitar esses efeitos negativos no intestino. “Se eu fosse sua nutricionista, recomendaria incluir alimentos ricos em fibra, como chia, linhaça e kiwi, além de fontes de magnésio e probióticos. A hidratação também é essencial, e deve ser distribuída ao longo do dia, em horários estratégicos, para garantir que o intestino tenha o que precisa para funcionar de maneira eficiente", orienta. 

A chave está em equilibrar a reeducação alimentar com estímulos que mantenham a microbiota intestinal saudável, garantindo resultados duradouros e sem efeitos adversos no longo prazo. “Intestino não funciona por acaso, ele responde ao que você oferece. Emagrecer sem estratégia intestinal é o caminho mais rápido pra travar resultado e inflamar o corpo sem perceber”, finaliza a nutricionista.

 

Saúde ocular entra na discussão sobre canetas emagrecedoras


A relação entre as canetas emagrecedoras e a saúde ocular
está diretamente ligada ao metabolismo e ao controle glicêmico
Crédito: Isabelle Venceslau

Alterações visuais podem ocorrer, especialmente em contextos de mudanças rápidas no organismo 


O uso crescente de medicamentos injetáveis para emagrecimento, popularmente conhecidos como “canetas emagrecedoras”, tem levantado alertas também na oftalmologia. Embora eficazes em determinadas indicações, essas medicações podem estar associadas a alterações visuais, especialmente quando utilizadas sem acompanhamento adequado ou em contextos de mudanças metabólicas rápidas. 

De acordo com o oftalmologista Rodrigo Carvalho, os efeitos oculares não são frequentes, mas já vêm sendo observados na prática clínica e em estudos recentes. “Existem relatos de alterações visuais associadas ao uso dessas medicações, principalmente em situações em que há oscilações rápidas da glicemia ou perda de peso acelerada”, explica. 

Pesquisas observacionais e análises de grandes bases de dados apontam possíveis associações entre os chamados agonistas de GLP-1 — como a semaglutida — e alterações oculares, incluindo edema macular e, em casos mais raros, neuropatia óptica isquêmica. Segundo o especialista, essas conclusões surgiram a partir da observação clínica e vêm ganhando atenção à medida que o uso dessas substâncias se torna mais difundido. 

O Dr. Carvalho frisa que entre os sintomas mais relatados estão visão borrada, dificuldade de foco e oscilações na qualidade visual. Em situações menos comuns, podem ocorrer perda súbita da visão ou o surgimento de manchas no campo visual. “Na maioria das vezes, essas alterações são temporárias e relacionadas a variações metabólicas. No entanto, sintomas persistentes ou de início súbito devem ser investigados com urgência”, orienta.
 


Qual a relação? 

A relação entre essas medicações e a saúde ocular está diretamente ligada ao metabolismo e ao controle glicêmico. A retina, estrutura essencial para a visão, é altamente sensível a essas variações. Por isso, pacientes com diabetes ou doenças oculares prévias exigem atenção redobrada. “Mudanças rápidas na glicemia podem descompensar quadros já existentes e aumentar o risco de complicações visuais”, destaca. 

Diante de qualquer alteração na visão, como embaçamento persistente, queda súbita ou presença de manchas, a recomendação é procurar avaliação oftalmológica o quanto antes. O acompanhamento durante o uso dessas medicações também é indicado, especialmente para pacientes com fatores de risco, com a frequência definida de forma individualizada. 

O especialista reforça que o tratamento não deve ser interrompido por conta própria. “A decisão deve ser tomada em conjunto com o médico assistente e o oftalmologista, considerando o quadro clínico do paciente”, enfatiza.

Embora ainda pouco comuns, esses efeitos vêm sendo cada vez mais reconhecidos. Para o médico, o principal ponto é a condução responsável. “São medicamentos eficazes no tratamento da obesidade e do diabetes, mas, como qualquer terapia sistêmica, podem ter repercussões oculares. A integração entre as especialidades médicas é fundamental para garantir segurança ao paciente”, conclui.

 

Rodrigo Teixeira de Campos Carvalho (CRM-SP107.838, RQE 37070) - médico formado pela Faculdade de Medicina de Botucatu da Unesp, com residência em Oftalmologia pela Unicamp. Possui título de especialista pelo CNRM/MEC e pela Associação Médica Brasileira/Conselho Brasileiro de Oftalmologia, além de especialização em cirurgia refrativa pela USP. Atua há mais de duas décadas na área, com experiência clínica e cirúrgica, e é proprietário da Alpha Oftalmologia Avançada, em Campinas. Também desenvolve doutorado na área de cirurgia refrativa pela USP.
@dr_rodrigotccarvalho
site

Alpha Oftalmologia Avançada

 

Outono, vacinação e o alerta para o sistema de saúde


Opinião


A chegada do outono, no Rio Grande do Sul, tradicionalmente acende um sinal de alerta para o aumento das doenças respiratórias e, consequentemente, para a elevação das internações hospitalares e a superlotações dos serviços de emergência. É um movimento previsto e que exige organização dos serviços de saúde, mas que neste momento vem acompanhado de uma preocupação adicional: a queda nas coberturas vacinais no Brasil. 

Dados do Ministério da Saúde apontam uma redução consistente nos índices de imunização ao longo dos últimos anos. Esse cenário não pode ser relativizado. A diminuição da adesão fragiliza a proteção coletiva e cria um ambiente propício para o retorno de enfermidades que já estavam sob controle. Um exemplo recente ajuda a dimensionar e visualizar esse risco: o registro de casos de sarampo no Rio de Janeiro reacende um alerta que não pode ser ignorado. Trata-se de uma doença considerada controlada no país, mas que encontra espaço para reaparecer justamente quando a cobertura vacinal diminui. Esse episódio ilustra, de forma concreta, as consequências da baixa procura por vacinas. 

Ao combinar a sazonalidade típica do outono com a baixa cobertura vacinal, ampliamos o risco de agravamento de quadros clínicos e de sobrecarga no sistema de saúde. O efeito prático é sentido na ponta, mais pessoas adoecendo, aumento da procura por pronto atendimento, pressão sobre emergências e maior ocupação de leitos hospitalares. 

A vacinação é uma das ferramentas mais eficazes da Medicina moderna. Ela salva vidas, reduz complicações e evita hospitalizações. No entanto, seu impacto depende diretamente da população. Quando essa adesão diminui, todos ficam mais vulneráveis, especialmente crianças, idosos e pessoas com doenças crônicas. 

Também é preciso reconhecer que a desinformação tem papel relevante nesse contexto. Narrativas equivocadas sobre imunizações ainda circulam e influenciam decisões, muitas vezes afastando a população de uma proteção segura e comprovada cientificamente. Combater esse cenário exige dados qualificados e responsabilidade coletiva. Não se trata apenas de uma escolha individual. Vacinar-se é um ato de cuidado com o outro. É uma medida que protege famílias, comunidades e contribui para a sustentabilidade do sistema de saúde. 

O outono chega como um lembrete claro: a prevenção precisa estar no centro das nossas prioridades. Retomar níveis adequados de cobertura vacinal é urgente para evitar retrocessos e preservar conquistas históricas da saúde pública.

 

Dr. Gerson Junqueira Jr. - Presidente da AMRIGS

 

Câncer de colorretal: exame lançado por laboratório brasileiro identifica no DNA o risco do tumor

Voltado para o rastreamento da doença em estágio inicial, método não invasivo é disponibilizado pela Bioma Genetics

 

O câncer colorretal é o terceiro tipo de neoplasia maligna mais comum no mundo, segundo dados da Organização Mundial de Saúde¹. Diante desse cenário, a Bioma Genetics, laboratório brasileiro especializado em genética humana, lança um novo exame para rastreamento da doença, para auxiliar no diagnóstico precoce do câncer colorretal. 

O ColoSeek é um exame genético não invasivo, realizado a partir de amostra fecal, que apresenta alta sensibilidade (85%) para a detecção de alterações genéticas associadas ao câncer colorretal. O teste identifica marcadores moleculares relacionados a células tumorais ainda em estágios iniciais de desenvolvimento, posicionando-se como uma ferramenta para rastreamento da doença. 

De acordo com o Dr. Guilherme Lugo, médico geneticista da Bioma Genetics, o fato de ser um exame não invasivo favorece a maior adesão ao rastreamento. “Embora a colonoscopia seja considerada o padrão-ouro, uma parcela significativa dos pacientes com indicação para o exame acaba não o realizando, por se tratar de um procedimento invasivo que exige preparo intestinal e sedação. É nesse contexto que o ColoSeek surge como uma ferramenta inicial para o rastreamento do câncer colorretal. Caso o resultado seja positivo, o médico assistente pode recomendar a colonoscopia como método adicional”, explica Lugo. 

Um levantamento conduzido pelo A.C. Camargo Cancer Center², referência nacional em oncologia, a partir de dados do Registro Hospitalar de Câncer (RHC), aponta um aumento progressivo na incidência de câncer colorretal em adultos com menos de 50 anos, grupo historicamente considerado de menor risco para a doença. Entre 2000 e 2023, o crescimento médio anual nessa faixa etária foi de 7,6%. Já entre indivíduos com mais de 50 anos, o aumento observado no mesmo período foi de 8,1% ao ano, reforçando a tendência de elevação da incidência em diferentes grupos etários. 

“O padrão observado no Brasil contrasta com o de muitos países desenvolvidos, onde a incidência de câncer colorretal em pessoas acima de 50 anos tem apresentado queda, em parte atribuída à implementação de programas estruturados de rastreamento. Esse cenário reforça a importância de ampliar as estratégias de prevenção e vigilância, tanto entre profissionais de saúde quanto na população em geral”, destaca a Dra. Karla Pelegrino, bióloga e gerente de estratégia e inovação da Bioma Genetics. 

O tema também ganhou repercussão recente com o caso da cantora Preta Gil, que faleceu em 2025, aos 50 anos, após mais de dois anos de tratamento para câncer colorretal, contribuindo para ampliar o debate sobre diagnóstico precoce e conscientização.

 

Coleta simples e domiciliar

Aprovado pela Anvisa, o ColoSeek já está disponível no Brasil e pode ser utilizado por pacientes a partir dos 45 anos. O exame é indicado principalmente para indivíduos assintomáticos com fatores de risco para câncer colorretal, como histórico familiar da doença, obesidade, diabetes, consumo frequente de álcool ou tabaco, além de padrões alimentares associados a maior risco, incluindo alta ingestão de alimentos ultraprocessados e carne vermelha. 

Para o paciente, a coleta pode ser realizada de forma simples e segura por meio de auto-coleta domiciliar, utilizando um kit específico, disponibilizado pelo laboratório, mediante solicitação médica. O procedimento não exige preparo intestinal nem restrições alimentares, o que facilita a adesão e o conforto durante a realização do exame. Após a coleta, a amostra é encaminhada para a Bioma Genetics, onde todo o processamento e as análises genéticas são conduzidos em uma infraestrutura tecnológica avançada, garantindo alto padrão de qualidade e confiabilidade nos resultados.

“Estamos apresentando o ColoSeek com o objetivo de ampliar o leque de ferramentas de rastreamento oncológico disponíveis aos médicos. Nosso método se destaca como uma alternativa especialmente relevante para pacientes que apresentam resistência à colonoscopia ou que buscam opções menos invasivas. Além disso, pode ser incorporado em estratégias de check-up preventivo, programas de rastreamento populacional e na rotina de clínicas voltadas à medicina preventiva e à longevidade”, explica o Dr. Guilherme Lugo. 


Autismo em Mulheres: diagnóstico costuma chegar apenas na vida adulta

 Especialista em Psicologia da UNIASSELVI explica como fatores sociais e comportamentais como pressão e adaptação do ambiente no entorno, contribuem para o subdiagnóstico, gerando consequências para vida adulta.

 

No Brasil, onde se estima que a população com TEA possa chegar a 2 milhões de pessoas de acordo com último levantamento da Agência IBGE. Esse cenário de subdiagnóstico feminino tem se agravado de forma remanescente. O problema é que fatores sociais e comportamentais, como a pressão para que meninas sejam mais quietas e sociáveis, criam uma cortina de fumaça que esconde os sinais, levando a uma vida inteira de dificuldades não diagnosticadas, como ansiedade e depressão.

De acordo com a professora de Psicologia da UNIASSELVI, Gabriela Inthurn, a explicação para essa lacuna está na forma como os traços autistas se manifestam socialmente no público feminino. “O grande desafio no diagnóstico feminino é que ele é frequentemente mais sutil e camuflado por um enorme esforço de adaptação social, conhecido como ‘masking’. Muitas mulheres aprendem a imitar comportamentos para se encaixar, o que mascara os traços clássicos do autismo e engana até mesmo avaliadores menos experientes”, pontua a especialista.

Esse fenômeno, portanto, é um dos principais responsáveis por uma legião de mulheres que chegam à vida adulta sem respostas. Já o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, da Associação Americana de Psiquiatria, aponta que o Transtorno do Espectro Autista (TEA) é diagnosticado de três a quatro vezes mais no sexo masculino do que no feminino. Essa disparidade ocorre mesmo que os critérios diagnósticos, ou seja, os sinais observados e os sintomas informados pela pessoa, sejam os mesmos para todos os gêneros, e que o diagnóstico em mulheres tende a ser mais tardio.

 

O peso do "masking"

Desde cedo, meninas no espectro aprendem a observar e imitar comportamentos neurotípicos para se encaixarem, tornando-se verdadeiras "atrizes sociais". Esse processo, muitas vezes inconsciente, envolve um conjunto de estratégias exaustivas: forçar o contato visual mesmo que seja desconfortável, ensaiar conversas mentalmente, suprimir movimentos repetitivos (stims) e imitar expressões faciais de colegas. Embora seja uma tática de sobrevivência para evitar o isolamento e o preconceito, essa performance constante desconecta a mulher de sua identidade autêntica e drena sua energia mental e emocional.

“O masking é a tentativa da pessoa autista, especialmente as mulheres, de mascarar os comportamentos autistas. É um conjunto de estratégias que a pessoa utiliza para tentar ocultar ou minimizar comportamentos do transtorno, muitas vezes para evitar julgamentos, e isso pode dificultar o diagnóstico”, pontua Gabriela.

 

Sinais sutis e os impactos na saúde mental

Uma das razões para essa dificuldade no diagnóstico está na natureza dos interesses restritos, ou hiperfocos. Enquanto em meninos é comum o foco em temas como dinossauros ou meios de transporte, em meninas, esses interesses podem se voltar para assuntos considerados mais “comuns”, como literatura, artes ou animais, passando despercebidos.

O esforço contínuo para se adaptar, somado à falta de um diagnóstico que explique suas dificuldades, tem um custo elevado para a saúde mental. “Um diagnóstico tardio traz prejuízos, independente do gênero, porque em muitos casos a intervenção só acontece após o diagnóstico. A importância da intervenção precoce é sempre comentada na literatura, e quando ela não ocorre pode trazer prejuízo na aprendizagem, nos relacionamentos, na vida profissional do adulto e principalmente na autoestima”, explica a professora.

 

Diagnóstico e seus desafios   

O modelo de diagnóstico do autismo foi, por muito tempo, construído a partir de um protótipo masculino. Como consequência, muitos profissionais de saúde não foram treinados para reconhecer as manifestações mais internalizadas ou socialmente camufladas do transtorno em meninas e mulheres. Com isso, os sinais que não se encaixam no estereótipo clássico são frequentemente descartados ou atribuídos a outras condições, como ansiedade, depressão ou transtorno de personalidade, reforçando o ciclo do subdiagnóstico.

"Na história do próprio transtorno, os conhecimentos e critérios de diagnóstico estiveram sempre baseados no gênero masculino, que era aquele mais prevalente, levando para que muitos sinais e sintomas sejam ainda baseados no comportamento conhecido como masculino", afirma a psicóloga.

 

Como buscar ajuda

A jornada para o diagnóstico em mulheres adultas geralmente começa com a autoidentificação, muitas vezes impulsionada por relatos e conteúdo em redes sociais. Embora esse movimento de reconhecimento seja um passo inicial importante e validador, a etapa seguinte é crucial: buscar uma avaliação clínica estruturada. O objetivo vai além de confirmar um rótulo; um profissional especializado poderá fazer o diagnóstico diferencial, ou seja, distinguir o TEA de outras condições com sintomas sobrepostos, como TDAH ou transtornos de ansiedade e, principalmente, traçar um plano de suporte terapêutico personalizado.

“O diagnóstico de autismo pode ser realizado por um psicólogo ou médico. É recomendado que, ao suspeitar, o adulto ou os pais (no caso de crianças) procurem um profissional da Psicologia para realizar uma avaliação. É importante ressaltar que não existe autodiagnóstico em saúde mental, é preciso que a pessoa passe por uma avaliação de um profissional qualificado”, finaliza a professora.

 

Disfagia: quando engolir se torna um desafio e exige atenção médica

Especialistas explicam a condição e apontam sinais que merecem análise e  investigação

 

A disfagia é uma condição caracterizada pela dificuldade para engolir alimentos, líquidos ou até mesmo saliva, podendo ter diferentes causas, como doenças neurodegenerativas, pneumonia aspirativa e acidente vascular cerebral (AVC), entre outras. Essa dificuldade ocorre quando há alterações nas estruturas ou nos movimentos envolvidos na deglutição, processo que se inicia na boca, passa pela garganta e segue pelo esôfago até chegar ao estômago. Dados publicados no Brazilian Journal of Otorhinolaryngology indicam que a prevalência da condição varia entre 2,3% e 22% na população geral, podendo atingir de 10% a 30% entre idosos, o que reforça a importância do diagnóstico precoce e do acompanhamento médico adequado.

De acordo com a Dra. Daniela Antenuzi da Silva, médica e professora da pós-graduação em Gastroenterologia da Afya Brasília, muitas vezes o problema está relacionado a alterações no esôfago. “A disfagia deve sempre ser investigada. Trata-se de um sintoma que pode comprometer a rotina alimentar e estar associado a diferentes condições, como inflamações, estreitamentos (estenoses), distúrbios de motilidade, alergias e até neoplasias. Em alguns casos, também pode ter relação com doenças neurológicas, efeitos colaterais de medicamentos ou alterações no eixo cérebro-intestino”, explica.

Entre as causas digestivas mais comuns estão a doença do refluxo gastroesofágico, inflamações no esôfago, cicatrizes provocadas pelo refluxo crônico e distúrbios de motilidade, como a acalasia. Nessa condição, há comprometimento da inervação esofágica, o que dificulta a passagem do alimento do esôfago para o estômago e pode levar ao alargamento do órgão. Já em outros casos, a dificuldade ocorre na fase inicial da deglutição, envolvendo boca e garganta, situação conhecida como disfagia de transferência,  que muitas vezes leva o paciente a buscar inicialmente avaliação com o otorrinolaringologista.

Segundo a professora Daniela, a investigação clínica é essencial para identificar a origem do sintoma. “A causa mais frequente da disfagia está relacionada ao refluxo gastroesofágico, que pode provocar espasmos no esôfago, inflamações ou até estreitamentos decorrentes do refluxo crônico. Por isso, uma boa anamnese é fundamental para diferenciar se a dificuldade está na passagem do alimento da boca para a faringe ou se ocorre ao longo do esôfago, o que orienta a escolha do especialista e dos exames necessários”, afirma.

De acordo com  o Dr. Alexandre Martins, médico professor de otorrinolaringologia da Afya Centro Universitário Itaperuna, sintomas como engasgos e tosse durante as refeições podem indicar alterações na fase inicial da deglutição. “Quando o paciente relata engasgos frequentes, tosse ao engolir ou sensação de alimento parado na garganta, é importante investigar possíveis alterações na fase orofaríngea da deglutição, que envolve estruturas como boca, língua, faringe e laringe”, explica. 

Segundo o especialista, durante o ato de engolir a laringe se fecha para impedir que alimentos entrem nas vias aéreas; quando esse mecanismo não funciona adequadamente, pode ocorrer penetração ou aspiração alimentar, provocando tosse, engasgos ou a sensação de alimento preso na garganta. Nesses casos, a avaliação com o otorrinolaringologista é fundamental para identificar a causa e orientar o tratamento adequado.

Para investigar a causa do problema, podem ser solicitados exames específicos que avaliam as diferentes etapas da deglutição. Entre eles estão a nasofibrolaringoscopia flexível, realizada em consultório e que permite visualizar a faringe e a laringe por meio de uma microcâmera; o videodeglutograma, exame radiológico dinâmico que analisa em tempo real o trajeto do alimento da boca até o esôfago; e a videoendoscopia da deglutição, que avalia como o alimento passa pela garganta e identifica possíveis episódios de aspiração. 

Na investigação das causas digestivas  da disfagia, a endoscopia alta é um dos principais exames, pois permite avaliar a anatomia e a mucosa do esôfago, identificando inflamações, estreitamentos (estenoses), lesões ou neoplasias. Quando há suspeita de distúrbios motores, pode ser indicada a manometria esofágica de alta resolução, exame que analisa o funcionamento da musculatura do esôfago. 

A impedanciometria também pode ser utilizada quando há dúvida sobre a relação entre a doença do refluxo gastroesofágico e os sintomas. Já nos casos de disfagia de transferência, o esofagodeglutograma pode ser especialmente útil, pois realiza uma avaliação dinâmica da deglutição, permitindo identificar alterações anatômicas ou funcionais da faringe e do esôfago que nem sempre são observadas na endoscopia.

Segundo os especialistas, o tratamento depende da causa da disfagia. Em alguns casos, mudanças na alimentação e reabilitação com fonoaudiologia são suficientes. Em outros, pode ser necessário tratamento medicamentoso ou procedimentos médicos. Quando diagnosticada precocemente, a condição costuma ter boa resposta ao tratamento.

 

12 Sinais e sintomas que podem indicar disfagia, de acordo com os especialistas 

1.       Sensação de alimento preso na garganta ou no peito

2.       Engasgos frequentes durante as refeições, ao comer ou beber

3.       Tosse ao engolir alimentos ou líquidos ou durante a deglutição

4.       Dor ou desconforto ao engolir

5.       Necessidade de beber líquidos para ajudar a comida a descer

6.       Necessidade de engolir várias vezes o mesmo alimento

7.       Alteração da voz após engolir

8.       Sensação de impactação do alimento na garganta ou no tórax, com ou sem dor

9.       Necessidade de reduzir a consistência dos alimentos ou mastigar por mais tempo

10.   Refeições que demoram mais que o habitual para serem concluídas

11.   Pneumonias de repetição

12.   Perda de peso sem causa aparente ou progressiva

 

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