Psicanalista explica a diferença entre eles e
orienta como lidar com a situação
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Se para adultos,
uma noite de sono interrompida por pesadelos já é perturbador, para crianças,
esses eventos e o chamado terror noturno são ainda mais impactantes. Saber
lidar com esse tipo de situação é importante, já que, quando acontece, os pais
são imediatamente procurados pelos filhos em busca de acolhimento e um porto
seguro.
“O período de
maior incidência dos pesadelos infantis acontece entre os dois e oito anos de
idade. Nesse período, a imaginação fértil somada às descobertas diárias do
mundo que as rodeia turbina a mente. O cérebro ainda imaturo da criança tem
dificuldade de distinguir entre o real e a ficção nesse processo de desenvolvimento
emocional”, explica Yafit Laniado, psicanalista e hipnoterapeuta, criadora da
Relacionamentoria, consultoria especializada no relacionamento entre pais e
filhos.
“É claro que os
pais gostariam de proporcionar e garantir aos seus pequenos uma infância 100%
feliz, sem sofrimento, sem medo e sem angústias, poupando os filhos de
situações adversas. Contudo, os conflitos e medos surgirão e eles devem ser
vistos justamente como parte desse processo de desenvolvimento, capacitando as
crianças para superá-los”.
De acordo com
Yafit, “embora frequentemente sejam vistos como algo negativo, assustador ou
até prejudicial, os pesadelos eventuais possuem uma função importante no
desenvolvimento psíquico infantil. Eles ajudam a criança a elaborar emoções, organizar
experiências internas e desenvolver recursos emocionais para lidar com medo,
insegurança e frustração.”
No sono, enquanto o corpo descansa, a mente continua trabalhando. Paralelamente, na infância, o mundo emocional é intenso, novo e frequentemente difícil de nomear.
“A criança sente muito antes de conseguir compreender ou verbalizar o que sente
e o pesadelo funciona, muitas vezes, como uma tentativa do aparelho psíquico de
processar as diversas experiências por ela vividas, desde mudanças na rotina,
medos naturais do crescimento, excesso de estímulos, inseguranças, conflitos
familiares, ciúmes e até descobertas cognitivas, que podem aparecer
simbolicamente durante o sono”, detalha Yafit.
Como, então, pais devem lidar com a situação?
“Quando uma criança acorda assustada após um pesadelo e encontra acolhimento, segurança e regulação emocional através do adulto, ela aprende algo muito importante: ‘eu senti medo e ainda assim fiquei segura’. Esse processo fortalece mecanismos internos de autorregulação emocional. Com o tempo, a criança desenvolve maior tolerância à angústia, aprende a diferenciar fantasia e realidade, aumenta sua percepção de segurança interna e constrói recursos psíquicos para enfrentar desafios emocionais futuros”, afirma a especialista.
Do outro lado, a
excessiva proteção à criança de qualquer experiência emocional desconfortável
não produz força emocional, mas fragilidade. “O amadurecimento emocional
depende da possibilidade de experimentar pequenas doses de medo, frustração e
insegurança em contextos seguros e acompanhados”, diz Yafit.
Terror noturno
Nessa questão do
sono perturbador, é importante diferenciar experiências normais do
desenvolvimento de sinais clínicos que merecem investigação.
Após um pesadelo, em geral, a criança desperta, chora, busca acolhimento, se acalma e gradualmente volta a dormir. Contudo, se ela não desperta completamente, grita, se senta na cama, aparenta pânico intenso acompanhado de taquicardia, sudorese e agitação entre outras características, estamos diante de um episódio de terror noturno.
“Muito diferente do pesadelo comum, o terror noturno é um fenômeno do sono classificado como parassonia. Os pais ficam realmente aterrorizados, pois não conseguem acalmar a criança, que muitas vezes nem os reconhece”, exemplifica Yafit.
O terror noturno
costuma ocorrer nas primeiras horas do sono profundo, enquanto os pesadelos
acontecem mais frequentemente durante o sono REM, próximo ao despertar. Outra
diferença está no manejo diante da situação.
Durante um episódio de terror noturno, tentar acordar a criança à força geralmente aumenta a desorganização.
“O mais indicado costuma ser garantir segurança física, reduzir estímulos, manter a calma e aguardar o episódio passar. Enquanto muitas vezes a criança se lembra do pesadelo no dia seguinte, nos episódios de terror noturno não há lembrança nenhuma. Esse tipo de perturbação é comum na infância e costuma desaparecer com o crescimento da criança. Ainda assim, consultar um médico pediatra, neurologista ou especialista em sono pode ajudar os pais a lidar melhor com os episódios”.
“Talvez um dos maiores desafios dos pais contemporâneos seja suportar o desconforto emocional das crianças sem tentar eliminar imediatamente toda experiência difícil. Nem todo medo é traumático, nem toda angústia é sinal de dano, assim como nem todo sofrimento precisa ser evitado. Algumas experiências emocionais existem justamente para ensinar o psiquismo a crescer. Os pesadelos eventuais fazem parte disso. Porque amadurecer também significa descobrir, pouco a pouco, que é possível sentir medo, sem deixar de estar seguro”, conclui a especialista.
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