Especialistas explicam os benefícios da convivência com animais na infância e os cuidados que as famílias devem considerar antes da adoção
O desejo das crianças por um animal de estimação costuma surgir cedo, seja após
conviver com amigos que têm pets, assistindo a filmes ou simplesmente
demonstrando interesse por cuidar de um bichinho. Mas a decisão de adotar um
animal exige planejamento, alinhamento familiar e avaliação da rotina da casa.
Segundo
Marcelo Freitas, psicólogo e orientador educacional do Brazilian
International School – BIS, de São
Paulo (SP), a convivência com pets traz benefícios importantes para o
desenvolvimento emocional, social e até cognitivo das crianças. Mas os pais e
responsáveis devem agir de forma consciente, e refletir se a família está realmente
preparada para assumir essa responsabilidade.
“Os
pets favorecem o desenvolvimento da empatia, da afetividade e do senso de
responsabilidade. A criança aprende, na prática, que existe um outro ser com
vontades e necessidades de alimentação, atenção, carinho e cuidados. Isso
contribui para a construção de vínculos afetivos mais saudáveis e para o
amadurecimento emocional”, explica.
A
convivência com animais também pode ajudar crianças a lidarem melhor com
emoções, ansiedade e até frustrações do dia a dia. Outro ponto importante é que
o vínculo com os animais pode ensinar valores importantes de forma natural,
como respeito, cuidado, paciência e compromisso.
“A
presença de um pet também tende a estimular brincadeiras, interação e reduzir o
tempo excessivo diante das telas e dispositivos. É verdade que o animal não
substitui relações humanas, mas pode funcionar como uma importante fonte de
acolhimento emocional. Além disso, muitas crianças que têm animais de estimação
se sentem mais seguras, confiantes e até mais comunicativas, impactando
positivamente o relacionamento com outras crianças e adultos”, afirma o
especialista.
Segundo
Freitas, a convivência com um animal pode ser ainda uma oportunidade importante
para ensinar responsabilidade às crianças, desde que as tarefas sejam
compatíveis com a idade e sempre supervisionadas pelos adultos. “A criança pode
participar de pequenas rotinas, como ajudar a colocar água e comida, acompanhar
passeios, organizar os brinquedos do pet ou participar dos momentos de cuidado.
Isso contribui para desenvolver compromisso, organização e senso de cuidado com
o outro”.
Mas
é fundamental que os pais entendam que a responsabilidade principal nunca deve
ser transferida para a criança, e não se pode cobrar dela atitudes e tarefas
das quais ela não está preparada emocionalmente e fisicamente para desempenhar.
“O adulto é quem deve ser o responsável principal pelo bem-estar do animal.
Questões como saúde, higiene, alimentação adequada, gastos e bem-estar do
animal precisam permanecer sempre sob responsabilidade dos adultos”, alerta o
psicólogo.
Se
a família decidir não adotar um pet naquele momento, é importante conduzir essa
conversa com honestidade e acolhimento, sem tratar a decisão como punição ou
desvalorização do desejo da criança. “Os pais podem explicar, de forma didática
e adequada para a idade, que ter um animal exige tempo, rotina, recursos
financeiros e disponibilidade emocional. Mostrar que a decisão envolve
responsabilidade ajuda a criança a compreender limites e a lidar melhor com
frustrações. Além disso, existem outras formas de estimular o contato saudável
com animais, como conviver com pets de familiares, participar de atividades
educativas ou visitar espaços apropriados”, acrescenta.
Pet não é
brinquedo!
Já do ponto de vista
prático, a adoção de um animal exige planejamento e adaptação da rotina
familiar. Segundo Julia Vieira, veterinária responsável pelos animais da
PetFarm do colégio Progresso Bilíngue de Indaiatuba (SP), antes de escolher um pet é importante avaliar
fatores como espaço disponível na casa, tempo para cuidados diários, custos
envolvidos e perfil da família.
É importante que os
adultos façam uma reflexão prática e sincera sobre o que essa adoção vai
representar no dia a dia da casa: quem será responsável pelos cuidados do
animal se a família costuma viajar nos finais de semana e nas férias; ou ainda,
o sofrimento que o bicho pode ser exposto, sem companhia, em casos onde a
família passa pouco tempo em casa.
“Um pet precisa de
tempo, atenção, acompanhamento veterinário, alimentação adequada, higiene e
cuidados constantes. Muitas famílias pensam apenas no momento da chegada do
animal, mas é importante lembrar que ele fará parte daquela rotina”, explica
Julia.
A veterinária destaca
ainda que a escolha do animal não deve ser feita apenas com base no desejo da
criança ou na aparência do pet. “Nem sempre o pet que a criança deseja é o
ideal para aquela realidade. Animais muito agitados, por exemplo, podem não ser
adequados para famílias com crianças muito pequenas. Da mesma forma, algumas
espécies demandam cuidados específicos e uma rotina mais estruturada. Por isso,
pesquisar antes e entender as necessidades do animal é essencial para evitar
frustrações e dificuldades futuras”, afirma.
Porte, nível de energia,
necessidade de espaço e perfil comportamental fazem diferença na adaptação. A
profissional destaca que o conhecimento da etologia — ou seja, do comportamento
natural de cada espécie — é fundamental para garantir bem-estar tanto ao animal
quanto à família. Compreender como aquele pet se comunica, interage, gasta
energia e reage ao ambiente ajuda na escolha mais adequada e contribui para uma
convivência mais saudável, segura e respeitosa.
Outro cuidado importante
é preparar a criança para construir uma convivência saudável e respeitosa com o
pet desde o início, evitando acidentes domésticos, como quedas, mordidas e
arranhões, tanto da criança como do animal. “Os adultos devem ensinar desde
cedo que o pet não é brinquedo. É importante orientar a criança a respeitar o
espaço do bicho, evitar brincadeiras bruscas e entender sinais de desconforto
ou estresse. A interação precisa ser supervisionada, principalmente nos
primeiros meses e com crianças menores”, alerta.
A veterinária também
reforça a importância da adoção responsável, que precisa ser encarada como uma
escolha de longo prazo. “Antes de levar um animal para casa, a família deve
refletir se conseguirá oferecer qualidade de vida ao pet ao longo de toda a
vida dele, às vezes por quase duas décadas ou mais. Em muitos casos, esperar o
momento mais adequado pode ser a decisão mais consciente e responsável tanto
para a criança quanto para o animal”, recomenda.
A seguir, a veterinária elenca
opções de adoção que fazem mais sentido diante de cada rotina e configuração
familiar:
Famílias com
crianças pequenas: costumam se adaptar melhor a
animais mais dóceis, pacientes e sociáveis. Entre os cães, raças como Labrador,
Golden Retriever, Beagle e Cavalier King Charles Spaniel geralmente apresentam
perfil mais amigável para convivência familiar e toleram melhor interações
constantes e brincadeiras.
Famílias mais
ativas: podem se identificar com cães de
maior nível de energia, que gostam de passeios, atividades físicas e
brincadeiras frequentes. Raças como Border Collie, Labrador, Golden Retriever,
Australian Shepherd e Jack Russell Terrier costumam demandar mais estímulo
físico e mental no dia a dia. Nesses casos, é importante que os tutores tenham
tempo disponível de no mínimo cerca de duas horas diárias para gastar a energia
do animal e estimular o pet fisicamente e mentalmente, evitando estresse e
comportamentos destrutivos.
Famílias com pouco
espaço ou rotina mais reservada: os gatos podem ser uma
boa alternativa. Os gatos passam a demandar menos manejo externo, como passeios
diários, quando a família consegue adaptar a casa para as necessidades do
animal como espécie - pensando em verticalização de ambientes, esconderijos e
locais adequados para higiene e alimentação (caixas de areia e fontes de água).
Além disso,
muitos felinos apresentam personalidade mais tranquila, observadora e seletiva
nas interações, o que pode combinar melhor com ambientes mais silenciosos e
rotinas menos agitadas. Ainda assim, precisam de estímulos, brinquedos,
enriquecimento ambiental e respeito ao próprio espaço.
Contudo, antes da
adoção, é importante avaliar se algum membro da família possui alergias
respiratórias ou sensibilidade ao pelo, à saliva ou à descamação da pele dos
animais, já que a convivência pode intensificar sintomas como rinite, espirros
e irritações respiratórias em pessoas predispostas.
Famílias que
passam muito tempo fora de casa: devem avaliar com
cautela a adoção de animais que exigem atenção constante ou sofrem mais com
longos períodos sozinhos. Algumas espécies e raças podem desenvolver ansiedade,
estresse e comportamentos destrutivos quando ficam isoladas por muitas horas,
principalmente quando há erro de manejo durante a rotina do animal, fazendo-se
necessária uma pesquisa minuciosa sobre o manejo comportamental da espécie
escolhida.
Famílias que
buscam pets considerados de menor manejo: animais como peixes, hamsters e alguns roedores podem parecer opções
mais simples, mas também exigem cuidados específicos com alimentação, higiene,
habitat adequado e acompanhamento veterinário, além de serem animais pouco
interativos e que podem sofrer durante o manejo, sendo espécies indicadas
apenas para observação, e não para interação direta com os humanos.
Famílias sem
experiência prévia com animais: o ideal é evitar
escolhas impulsivas baseadas apenas na aparência do pet, modismos ou vídeos da
internet. Algumas raças e espécies demandam treinamento, socialização e manejo
mais complexos, o que pode dificultar a adaptação.
Em todos os casos: o mais importante é escolher um pet compatível com a realidade da família, considerando tempo disponível, espaço, custos, rotina e disposição para oferecer cuidado e bem-estar ao animal ao longo de toda a vida do bicho.
Julia Orteiro Vieira - médica veterinária, com atuação na clínica e pós graduanda em cirurgia de animais de pequeno porte. Além da prática veterinária, desenvolve projetos interativos voltados ao contato seguro e educativo entre crianças e animais, promovendo aprendizado, vínculo e desenvolvimento por meio de experiências lúdicas. Atua também em atividades no centro de equoterapia e em ações guiadas de educação assistida por animais no colégio Progresso Bilíngue, unindo bem-estar, conhecimento e interação de forma humanizada e segura.
Marcelo Tucci de Freitas - psicólogo clínico TCC, com especialização em adolescência; pedagogo; possui MBA em Gestão Educacional, e atualmente é orientador educacional do Ensino Fundamental Anos Finais no Brazilian International School - BIS. Com mais de 30 anos de experiência na área educacional atuou em diversas instituições de ensino básico e superior, na coordenação pedagógica e como docente de Psicologia e Ética.
International Schools Partnership – ISP
Para mais informações, acesse o site.

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