Pesquisar no Blog

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Uso precoce da terapia com Células CAR-T é cada vez mais frequente no tratamento do câncer

Tratamento é utilizado em larga escala em câncer de sangue,
 como leucemia e mieloma múltiplo
Medida visa aumentar as chances de remissão da doença, explica o hematologista Renato de Castro, da Oncologia D’Or.

 

Na Medicina, protocolos clínicos e diretrizes terapêuticas definem a ordem que os tratamentos são administrados no paciente. Eles são conhecidos por linhas de tratamento, que começam com as terapias mais eficazes. Havendo necessidade, os médicos prescrevem as demais opções, de acordo com a sequência pré-estabelecida. Quando surgiu, há quase dez anos, a terapia com Células CAR-T era indicada como quinta linha de tratamento. Hoje, é usada cada vez mais cedo. “Quanto mais precoce a indicação, maiores são as chances de remissão da doença”, afirma o hematologista Renato de Castro, da Oncologia D’Or. 

As Células CAR-T são uma terapia celular criada para tratar alguns tipos de câncer. Hoje são largamente usadas no tratamento de cânceres hematológicos, como leucemia linfoblástica aguda de células B, mieloma múltiplo e linfomas não Hodgkin (difuso de grandes células B e folicular). Em geral, não são indicadas como tratamento de primeira linha, e sim para pacientes que tiveram recaída da doença (recidiva) ou não responderam a outras terapias (refratários).

Essa abordagem personalizada1 envolve a modificação genética dos linfócitos T do paciente, que recebem receptores para reconhecer e eliminar as células cancerígenas. Esses linfócitos são glóbulos brancos, que defendem o corpo contra vírus, bactérias e tumores. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou três medicamentos desenvolvidos com essa tecnologia: ciltacabtegene autoleucel, axicabtagene ciloleucel e tisagenlecleucel.


Avanços terapêuticos

Os bons resultados obtidos em estudos clínicos contribuíram para antecipar as indicações. Em 2022, a agência regulatória norte-americana FDA (Food and Drug Administration) aprovou a terapia com Células CAR-T para tratar mieloma múltiplo em adultos que tiveram recidiva ou eram refratários a quatro ou mais linhas de terapia2. Em 2024, o estudo CARTITUDE-4 mostrou que as Células CAR-T reduziram em 59% o risco de progressão da doença ou morte em relação ao tratamento padrão, levando a FDA a antecipar seu uso para primeira ou segunda linha3

“Para pacientes com linfoma não Hodgkin, podemos usar as Células CAR-T, na falha da primeira linha de tratamento, que é a imunoquimioterapia”, observa Renato de Castro. A terapia celular é indicada como segunda linha para pacientes com leucemia, cuja doença não foi controlada a ponto de viabilizar um transplante de medula óssea. “Pode ser a terceira linha de tratamento, em casos de recaída após o transplante”, complementa o médico.
 

Boas perspectivas

Como essa terapia celular é recente, ainda não existem estudos que documentem a cura. Na Oncologia, a doença só é considerada curada quando não há evidência do seu retorno por um período de cinco a dez anos após o tratamento. 

Mas os estudos existentes apontam dados promissores. Por cinco anos, os pesquisadores do estudo JULIET4 acompanharam 115 pacientes com linfoma de grandes células B recidivado ou refratário medicados com as Células CAR-T. Dos participantes, 61% tiveram sobrevida livre de recaída nesse período. 

Mais de 30% dos 97 pacientes com mieloma múltiplo que participaram do estudo CARTITUDE-15 permaneceram vivos e livres da progressão da doença por cinco anos ou mais depois de uma infusão das células CAR-T.

Células coletadas do paciente passam por uma manipulação
 genética para ser capaz de identificar e destruir os tecidos cancerígenos

Após 38,8 meses de acompanhamento, 79 pacientes pediátricos e jovens com leucemia linfoblástica aguda de células B recidivada ou refratária, integrantes do estudo ELIANA6, apresentaram taxa global de remissão de 82% com o tratamento à base de terapia celular.

 

Como funciona

Se possuir as características para receber as Células CAR-T, o paciente é encaminhado para uma equipe, que avalia seu estado de saúde geral. A terapia pode ser administrada até mesmo em pessoas com mais de 70 anos, desde que não apresentem comorbidades graves — como insuficiência renal crônica com necessidade de hemodiálise, insuficiência cardíaca ou cirrose hepática. 

Para o procedimento, as células do paciente são coletadas no Brasil e remetidas para um laboratório no Exterior, onde passarão por um processo de manipulação genética para adquirir a capacidade de identificar e destruir as células tumorais. Em até 45 dias, elas retornam ao Brasil e são reinfundidas no paciente. 

Os efeitos benéficos iniciais surgem de forma gradativa após um mês da reinfusão. Nesse período, os exames ainda apontam a presença da doença de base. “As respostas muito significativas e, às vezes, completas surgem depois do terceiro mês”, conclui Renato de Castro.
 

As doenças

São considerados cânceres hematológicos os que atingem a medula óssea, o sistema linfático e as células sanguíneas. Esses tumores inviabilizam a produção de sangue saudável. Os principais tipos são leucemias, linfomas e mielomas múltiplos. 

A leucemia acomete as células brancas do sangue, que passam a se proliferar de maneira desordenada na medula óssea. Assim, substituem as células sanguíneas saudáveis, levando à anemia, neutropenia e plaquetopenia. Essas células também migram para a corrente sanguínea, podendo causar leucocitose e infiltração de órgãos, como o fígado e o baço. 

A leucemia linfoblástica aguda de células B7 se desenvolve de maneira acelerada no sangue e na medula óssea. É mais comum em crianças e adultos de até 25 anos. Causa fadiga, infecções, sangramentos e inchaço nos gânglios. 

O linfoma não Hodgkin7 se desenvolve quando as células B ou T se multiplicam de forma descontrolada, tornando-se malignas. O linfoma difuso de grandes células B é a forma mais comum deste tipo de célula e apresenta um desenvolvimento agressivo. Em contraste, o linfoma folicular de células B é indolente. Ambos afetam a faixa etária acima dos 60 anos. 

O mieloma múltiplo8 é o segundo tumor hematológico mais prevalente no Brasil. Trata-se de uma neoplasia maligna que tem origem nos plasmócitos, células de defesa do organismo. Mais frequente em idosos, provoca lesões ósseas, insuficiência renal, hipercalcemia e anemia. 

 

Oncologia D'Or 

 

Referências

  1. Mahesh Kumar Posa et al. CAR T- cell therapy: A promising novel approach for treatment of cancer. Cancer Treatment and Research Communications. Volume 47, 2026.
  2. US Food and Drug Administration. FDA approves ciltacabtagene autoleucel for relapsed or refractory multiple myeloma. Disponível em Link 
  3. Onclive. Kriti Rosa. FDA Approves Cilta-Cel for R/R Multiple Myeloma After at Least One Prior Line of Therapy. Disponível em https://www.onclive.com/view/fda-approves-cilta-cel-for-r-r-multiple-myeloma-who-have-received-at-least-one-prior-line-of-therapy
  4. Richard T. Maziarz et al . Five-Year Analysis of the JULIET Trial of Tisagenlecleucel in Patients With Relapsed/Refractory Large B-Cell Lymphoma. J Clin Oncol 44, 86-91(2026).
  5. Sundar Jagannath et al. Long-Term (≥5-Year) Remission and Survival After Treatment With Ciltacabtagene Autoleucel in CARTITUDE-1 Patients With Relapsed/Refractory Multiple Myeloma. J Clin Oncol 43, 2766-2771(2025).
  6. Theodore W. Laetsch et al. Three-Year Update of Tisagenlecleucel in Pediatric and Young Adult Patients With Relapsed/Refractory Acute Lymphoblastic Leukemia in the ELIANA Trial. J Clin Oncol 41, 1664-1669(2023).
  7. Olivia L. Lanier et al. Immunotherapy approaches for hematological cancers. iScience, Volume 25, Issue 11105326, 2022.
  8. LAV Oliveira. Análise epidemiológica dos diagnósticos de mieloma múltiplo no Brasil no período 2013-2022. Hematology, Transfusion and Cell Therapy. Volume 45, Supplement 4, 2023, Page S426

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Posts mais acessados