Medida visa aumentar as chances de remissão da
doença, explica o hematologista Renato de Castro, da Oncologia D’Or. 
Tratamento é utilizado em larga escala em câncer de sangue,
como leucemia e mieloma múltiplo
Na
Medicina, protocolos clínicos e diretrizes terapêuticas definem a ordem que os
tratamentos são administrados no paciente. Eles são conhecidos por linhas de
tratamento, que começam com as terapias mais eficazes. Havendo necessidade, os
médicos prescrevem as demais opções, de acordo com a sequência pré-estabelecida.
Quando surgiu, há quase dez anos, a terapia com Células CAR-T era indicada como
quinta linha de tratamento. Hoje, é usada cada vez mais cedo. “Quanto mais
precoce a indicação, maiores são as chances de remissão da doença”, afirma o
hematologista Renato de Castro, da Oncologia D’Or.
As
Células CAR-T são uma terapia celular criada para tratar alguns tipos de
câncer. Hoje são largamente usadas no tratamento de cânceres hematológicos,
como leucemia linfoblástica aguda de células B, mieloma múltiplo e linfomas não
Hodgkin (difuso de grandes células B e folicular). Em geral, não são indicadas
como tratamento de primeira linha, e sim para pacientes que tiveram recaída da
doença (recidiva) ou não responderam a outras terapias (refratários).
Essa abordagem personalizada1 envolve a modificação genética dos
linfócitos T do paciente, que recebem receptores para reconhecer e eliminar as
células cancerígenas. Esses linfócitos são glóbulos brancos, que defendem o
corpo contra vírus, bactérias e tumores. A Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (Anvisa) aprovou três medicamentos desenvolvidos com essa tecnologia:
ciltacabtegene autoleucel, axicabtagene ciloleucel e tisagenlecleucel.
Avanços terapêuticos
Os
bons resultados obtidos em estudos clínicos contribuíram para antecipar as
indicações. Em 2022, a agência regulatória norte-americana FDA (Food and Drug
Administration) aprovou a terapia com Células CAR-T para tratar mieloma
múltiplo em adultos que tiveram recidiva ou eram refratários a quatro ou mais
linhas de terapia2. Em 2024, o estudo CARTITUDE-4 mostrou que as
Células CAR-T reduziram em 59% o risco de progressão da doença ou morte em
relação ao tratamento padrão, levando a FDA a antecipar seu uso para primeira
ou segunda linha3.
“Para
pacientes com linfoma não Hodgkin, podemos usar as Células CAR-T, na falha da
primeira linha de tratamento, que é a imunoquimioterapia”, observa Renato de
Castro. A terapia celular é indicada como segunda linha para pacientes com
leucemia, cuja doença não foi controlada a ponto de viabilizar um transplante
de medula óssea. “Pode ser a terceira linha de tratamento, em casos de recaída
após o transplante”, complementa o médico.
Boas perspectivas
Como
essa terapia celular é recente, ainda não existem estudos que documentem a
cura. Na Oncologia, a doença só é considerada curada quando não há evidência do
seu retorno por um período de cinco a dez anos após o tratamento.
Mas
os estudos existentes apontam dados promissores. Por cinco anos, os
pesquisadores do estudo JULIET4 acompanharam 115 pacientes com
linfoma de grandes células B recidivado ou refratário medicados com as Células
CAR-T. Dos participantes, 61% tiveram sobrevida livre de recaída nesse período.
Mais de 30% dos 97
pacientes com mieloma múltiplo que participaram do estudo CARTITUDE-15
permaneceram vivos e livres da progressão da doença por cinco anos ou mais
depois de uma infusão das células CAR-T.
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| Células coletadas do paciente passam por uma manipulação genética para ser capaz de identificar e destruir os tecidos cancerígenos |
Após 38,8 meses de acompanhamento, 79 pacientes pediátricos e jovens com leucemia linfoblástica aguda de células B recidivada ou refratária, integrantes do estudo ELIANA6, apresentaram taxa global de remissão de 82% com o tratamento à base de terapia celular.
Como funciona
Se
possuir as características para receber as Células CAR-T, o paciente é
encaminhado para uma equipe, que avalia seu estado de saúde geral. A terapia
pode ser administrada até mesmo em pessoas com mais de 70 anos, desde que não
apresentem comorbidades graves — como insuficiência renal crônica com
necessidade de hemodiálise, insuficiência cardíaca ou cirrose hepática.
Para
o procedimento, as células do paciente são coletadas no Brasil e remetidas para
um laboratório no Exterior, onde passarão por um processo de manipulação
genética para adquirir a capacidade de identificar e destruir as células
tumorais. Em até 45 dias, elas retornam ao Brasil e são reinfundidas no
paciente.
Os
efeitos benéficos iniciais surgem de forma gradativa após um mês da reinfusão.
Nesse período, os exames ainda apontam a presença da doença de base. “As
respostas muito significativas e, às vezes, completas surgem depois do terceiro
mês”, conclui Renato de Castro.
As doenças
São
considerados cânceres hematológicos os que atingem a medula óssea, o sistema
linfático e as células sanguíneas. Esses tumores inviabilizam a produção de
sangue saudável. Os principais tipos são leucemias, linfomas e mielomas
múltiplos.
A
leucemia acomete as células brancas do sangue, que passam a se proliferar de
maneira desordenada na medula óssea. Assim, substituem as células sanguíneas
saudáveis, levando à anemia, neutropenia e plaquetopenia. Essas células também
migram para a corrente sanguínea, podendo causar leucocitose e infiltração de
órgãos, como o fígado e o baço.
A
leucemia linfoblástica aguda de células B7 se desenvolve de maneira
acelerada no sangue e na medula óssea. É mais comum em crianças e adultos de
até 25 anos. Causa fadiga, infecções, sangramentos e inchaço nos gânglios.
O
linfoma não Hodgkin7 se desenvolve quando as células B ou T se
multiplicam de forma descontrolada, tornando-se malignas. O linfoma difuso de
grandes células B é a forma mais comum deste tipo de célula e apresenta um
desenvolvimento agressivo. Em contraste, o linfoma folicular de células B é
indolente. Ambos afetam a faixa etária acima dos 60 anos.
O mieloma múltiplo8 é o segundo tumor hematológico mais prevalente no Brasil. Trata-se de uma neoplasia maligna que tem origem nos plasmócitos, células de defesa do organismo. Mais frequente em idosos, provoca lesões ósseas, insuficiência renal, hipercalcemia e anemia.
Oncologia D'Or
Referências
- Mahesh Kumar Posa et al. CAR T- cell therapy: A promising novel approach for treatment
of cancer. Cancer Treatment and Research Communications. Volume 47, 2026.
- US Food and Drug Administration. FDA approves
ciltacabtagene autoleucel for relapsed or refractory multiple myeloma.
Disponível em Link
- Onclive. Kriti Rosa. FDA Approves Cilta-Cel for R/R
Multiple Myeloma After at Least One Prior Line of Therapy. Disponível em https://www.onclive.com/view/fda-approves-cilta-cel-for-r-r-multiple-myeloma-who-have-received-at-least-one-prior-line-of-therapy
- Richard T. Maziarz et al . Five-Year Analysis of the JULIET
Trial of Tisagenlecleucel in Patients With Relapsed/Refractory Large
B-Cell Lymphoma. J Clin Oncol 44, 86-91(2026).
- Sundar Jagannath et al. Long-Term (≥5-Year) Remission and Survival After
Treatment With Ciltacabtagene Autoleucel in CARTITUDE-1 Patients With
Relapsed/Refractory Multiple Myeloma. J Clin Oncol 43,
2766-2771(2025).
- Theodore W. Laetsch et al. Three-Year Update of
Tisagenlecleucel in Pediatric and Young Adult Patients With Relapsed/Refractory
Acute Lymphoblastic Leukemia in the ELIANA Trial. J Clin Oncol 41,
1664-1669(2023).
- Olivia L. Lanier et al. Immunotherapy approaches for
hematological cancers. iScience, Volume 25, Issue 11105326, 2022.
- LAV Oliveira. Análise epidemiológica dos diagnósticos de mieloma múltiplo no Brasil no período 2013-2022. Hematology, Transfusion and Cell Therapy. Volume 45, Supplement 4, 2023, Page S426

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